Efeitos da greve ainda vão durar muito tempo

Dia após dia, indicadores divulgados por diversos institutos mostram o tamanho do estrago; número desta sexta é a inflação

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2018 | 11h16

Já lá se vão 37 dias desde que a greve dos caminhoneiros, que paralisou o País durante 11 dias, chegou ao fim. Mas seus efeitos ainda pairam como um fantasma sobre a economia. Dia após dia, indicadores divulgados por diversos institutos mostram o tamanho do estrago.

O número desta sexta-feira é a inflação. O IPCA, divulgado pelo IBGE, ficou em 1,26% em junho. É a primeira vez, desde janeiro de 2016, que o número fica acima de 1%. E, em 12 meses, subiu para 4,39%, se aproximando do centro da meta do Banco Central, de 4,5% ao ano.

A tendência, claro, é de que esse número recue em julho, já que os efeitos da greve, no que se refere ao desabastecimento de supermercados – o que acabou elevando preços de alimentos –, por exemplo, já praticamente acabaram. Não há nenhuma previsão, ao menos por enquanto, de que a inflação possa disparar nos próximos meses. Para o conjunto da economia, porém, as consequências serão mais duradouras.

A indústria levou um tombo recorde de 10,9% em maio, o maior desde a crise de 2008. Segundo projeções do Ipea, o varejo  recuou 1,4% no mesmo mês, enquanto os investimentos caíram 11,3%. Após a greve, analistas não param de projetar cada vez mais para baixo as estimativas de crescimento do PIB para este ano.

O que temos visto nas últimas semanas é uma espécie de desarranjo de um sistema produtivo que já vinha se mantendo num equilíbrio muito frágil. A briga entre caminhoneiros e o agronegócio no que se refere à tabela do preço mínimo para o frete, uma das promessas feitas pelo governo para acabar com a greve, não parece estar evoluindo. Sem solução, há cargas paradas nos portos, safra colhida que fica parada nas fazendas ou que já não tem onde ser estocada, acordos paralelos que desobedecem os preços mínimos do frete e  que podem acabar na Justiça.

No caso dos combustíveis, motivo inicial da paralisação dos motoristas – que reclamavam dos aumentos sucessivos no diesel –, também há reflexos. A imposição pelo governo de uma espécie de tabela de preços para o diesel desestimulou importadores, reforçando um cenário de falta de competição que já existe no setor, amplamente dominado pela Petrobrás. Além disso, a intervenção estatal  nos preços já havia desestimulado investidores a participar do processo de venda do controle de algumas refinarias da estatal – venda que acabou até sendo suspensa, mas por outro motivo: a liminar do ministro Ricardo Lewandowski, do  STF, proibindo qualquer venda de estatal sem antes passar pelo crivo do Congresso Nacional. Ou seja, o refino de combustível no País seguirá praticamente todo nas mãos da Petrobrás.

Não deixa de impressionar que uma paralisação que começou sem levantar grandes preocupações tenha tal sorte de efeitos, e tão duradouros. E ainda há várias arestas não aparadas, negociações que apontam para caminho nenhum. Nas redes sociais, volta e meia voltam os boatos de que novas greves estariam sendo preparadas. A economia, provavelmente, não suportaria.

* É editor do caderno de Economia&Negócios

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