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Wilton Júnior/Estadão

Eike Batista diz que foi o maior prejudicado por crise do Grupo X

'Lá fora eu sou admirado (...) No Brasil, eu tenho apanhado bastante', disse o empresário, que revelou ter um patrimônio negativo de US$ 1 bilhão

Mônica Ciarelli, Mariana Durão, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2014 | 19h44


Acusado de crimes contra o mercado de capitais, o empresário Eike Batista decidiu quebrar o silêncio de meses. Em uma rápida entrevista em seu escritório no Flamengo, zona sul do Rio, Eike reclamou de só ter seus projetos de infraestrutura reconhecidos no exterior e admitiu que, se pudesse voltar ao passado, não tocaria tantas empresas ao mesmo tempo. 

“Lá fora sou admirado(...) No Brasil, eu tenho apanhado bastante”, desabafou. Eike, que já foi o sétimo homem mais rico do mundo, diz ter hoje um patrimônio negativo de US$ 1 bilhão e receber um pró-labore do fundo soberano de Abu Dabi Mubadala, que tem participação no grupo X.

Sobre ainda ter o sonho de ser um dos homens mais ricos do mundo, Eike afirma que foi educado como um garoto de classe média. “Diz o ditado que, quando você nasceu na Tijuca, não sai da Tijuca. Sempre fui classe média e isso não sai de você. Por isso que eu trabalho hoje como sempre trabalhei”, afirmou. 

O grupo X esteve muito próximo do governo, mas com a crise perdeu, por exemplo, o apoio financeiro do BNDES. O sr. se sentiu abandonado? 

Prefiro dizer que a falha mesmo foi apostar tantas fichas em um negócio de risco, a OGX. Como ela criou uma desconfiança grande, depois pedir ajuda (do governo) não fazia sentido. Sempre fui muito independente. As pessoas atribuem uma ligação com o governo Dilma que não teve. Meus projetos beneficiam o Brasil sim, por isso o BNDES botou dinheiro. 

O sr. se sente injustiçado? 

Meus projetos não são “power point”, são de grande importância para a infraestrutura do Brasil. Vários já estão operando e outros vão começar a operar, como o Porto do Açu e as térmicas da MPX. Acho que devo estar fazendo alguma coisa para ajudar o Brasil. Não sei como alguém pode falar que não é um legado. Algum investidor abre um cheque de US$ 600 milhões para um power point (em referência ao investimento da americana EIG no Porto do Açu)? 

A Justiça pediu o bloqueio de US$ 1,5 bi de suas contas. Qual o seu patrimônio hoje?

Meu patrimônio é menos US$ 1 bilhão. Tenho minha casa no Jardim Botânico, a do meu filho do lado, uma doação que fiz para a Flávia (Sampaio, esposa), minha casa e uma lancha em Angra dos Reis. Eu me tornei um funcionário dessa massa de dívida.

É possível pagar todos os credores?

A determinação é pagar todas as minhas dívidas. Abri mão do controle e hoje sou minoritário da maior parte das empresas. Essas participações minoritárias estão dadas em garantia com os bancos: Mubadala, Bradesco, Itaú. Tenho acordo em que o Mubadala (fundo soberano de Abu Dabi) paga minha estrutura, para pagar minhas contas, e espero em cinco anos fazer acontecer a criação de valor (dos projetos) e voltar a ficar positivo. O Açu vale hoje de US$ 800 milhões a US$ 1 bilhão, mas pode valer US$ 10 bilhões. Vai sobrar alguma coisa pra mim. Recebo um pró-labore para tocar isso aí: sou literalmente um gestor sócio de ativos.

O sr. ainda tem o sonho de ser o homem mais rico do mundo? 

Fui educado como um garoto de classe média. Já diz o ditado que, quando você nasceu na Tijuca, não sai da Tijuca. Sempre fui classe média e isso não sai de você. Por isso que eu trabalho hoje como sempre trabalhei, talvez de forma mais estressante no último ano e meio. Mas cumpri minhas obrigações e isso que importa. Tenho orgulho de ter construído isso porque serve o Brasil.

Há resistência dos investidores em vincular seu nome aos projetos?

Olha que tristeza: lá fora eu sou admirado, alguém que coloca projetos desse porte em pé. Entendem que é normal ter um fracasso e eu tive um fracasso grande por causa da minha empresa de petróleo... Mas eles admiram o que eu fiz e, inclusive, sabem que sou um cara que vai fazer de novo. Inclusive me oferecem recursos. No Brasil eu tenho apanhado muito.

O sr. é acusado pelo Ministério Público de manipular o mercado e usar informação privilegiada. Teme ser preso? 

Acho que não fiz nada de errado, mas a Justiça anda seu caminho e assim seja.

Eike Batista vai voltar ao mundo dos negócios?

Brasileiro não desiste nunca. Mas estou focado na reestruturação do grupo.

Houve uso de informação privilegiada? O sr. sabia da inviabilidade econômica dos campos da OGX?

Nunca usei informação privilegiada para fazer negócios. Sabe por que não faz sentido? Eu não vendi minhas ações. Por que eu não me beneficiei de nada? Isso é que não bate. Quem é o maior prejudicado dessa história?

Existe algum processo seu contra alguém de sua antiga equipe da OGX?

Ninguém. Poxa, eles estavam na boa-fé deles achando que era assim mesmo. Enquanto os resultados não vinham...

O sr. disse que foi um pouco enganado pelos executivos. É isso mesmo?

Olha, eu prefiro dizer o seguinte. As pessoas eram competentes , as parcerias que a gente fez comprovam isso. Você tinha sempre gente de fora dizendo ‘seu pessoal é fantástico’. Você não vai acreditar? Os próprios sócios da Mubadala auditaram tudo. Alguém entende mais de petróleo que eles? 

O sr. se sente responsável no caso da OGX, se não, quem seria o responsável?

Desculpa, o setor tem isso. A exploração de petróleo é uma atividade de risco em qualquer lugar do mundo. Eu tinha ganho áreas na Bacia de Campos que é a mais promissora do País. Me deram um pasto para pastar com grama verde e eu como vaquinha achava que ia ter o mesmo sucesso de 60% de taxa de acero que a Petrobrás, já que eram áreas adjacentes. Mas tudo se resume na produtividade: o petróleo está lá (nos campos da OGX) mas ele não sai. 

MPF diz que o sr. ‘iludiu’ os investidores. 

Você não tá vendo que eu comprei ações da companhia? Eu tenho elas até o final e não vendi.

Como o sr. vê a fúria dos acionistas minoritários?

Poxa, se o minoritário tivesse ganhado dinheiro, ninguém ia vir aqui dividir comigo. Ele investe em um setor de risco. 

Se tivesse de voltar atrás, o que sr. faria diferente?

Talvez não tocasse tantas companhias em paralelo, porque você tem mais tempo.

Por que um silêncio tão longo nesse momento de crise?

Eu perdi credibilidade, tinha que trazer novos parceiros. Por isso nesse um ano e meio, talvez erroneamente, parei de falar. Mas o investidor novo não gosta que a gente fale o que está fazendo. Agora dá para falar porque o grosso (da reestruturação) está encaminhado. As pessoas não têm noção que botei tanta grana minha nos projetos. Houve um erro de jogar 60% das fichas em uma empresa petrolífera. Virou uma âncora muito pesada.

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