Ele criou um polo de software

O professor Silvio Meira tem um projeto para 2011, quando se aposenta: lançar uma rede de investimentos

Renato Cruz, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

"A minha visão de mundo é mais ou menos a seguinte: tudo vai dar errado", afirma o professor Silvio Meira. Para quem não o conhece, ao ouvi-lo dizer isso, fica difícil imaginar que se trata de alguém que já fez tanto. Silvio Meira criou o polo de tecnologia do Recife. É claro que não foi sozinho. Mas a cidade não teria se transformado numa referência nacional em software sem o trabalho dele.

"Se você fizer os planos imaginando que tudo vai dar errado, daí terá de trabalhar 24 horas por dia para que dê certo", explica Silvio Meira. "Daí um bocado de coisa dá certo, e você só tem surpresa boa. Não é uma posição derrotista. É uma visão racional e inclusive otimista do mundo."

O professor criou e coordenou o programa de doutoramento em ciência da computação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Na década passada, ao perceber que seus alunos acabavam indo trabalhar em outras cidades, ele resolveu, ao lado de colegas do departamento, criar em 1996 o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), uma organização de pesquisa e desenvolvimento que começou a gerar empregos e empresas de tecnologia na cidade.

O próprio Silvio Meira chegou a deixar o Recife. Ele fez engenharia eletrônica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos. "Fiquei cinco anos entre São Paulo e São José", relembra Meira. "Em 1977, passei quatro horas preso num congestionamento na Marginal Tietê, e resolvi voltar."

Em 2000, Meira foi um dos fundadores do Porto Digital, que transformou o centro histórico do Recife ? que enfrentava uma decadência de drogas e prostituição ? num parque tecnológico onde empresas locais são vizinhas de multinacionais como IBM, Microsoft, Motorola e Samsung. O polo, que completa 10 anos, reúne 130 empresas, emprega cerca de 4 mil pessoas e faturou cerca de R$ 450 milhões no ano passado.

Apesar de Silvio Meira falar que é preciso trabalhar 24 horas por dia, tem gente que acha que é mais. "O dia do Silvio parece ter 50 horas", diz Eduardo Cruz, ex-aluno de Meira e ex-pesquisador do Cesar, que acaba de montar a empresa de software Rise, no Recife. Cruz, de 34 anos, é de Salvador, mas resolveu fazer seu mestrado na UFPE. "Queria entender o que acontece em Pernambuco."

Cruz participava de um grupo de pesquisa em eficiência no desenvolvimento de software, e esse trabalho deu origem à empresa que fundou, com um colega. "Desde o início, o Silvio nos incentivou a pensar no que faríamos em cinco ou 10 anos, se queríamos criar uma empresa. Ele dizia que, daquele grupo, poderiam sair duas ou três empresas."

Um dos méritos de Silvio Meira é fazer essa ponte entre a universidade e empresas, numa atitude ainda incomum no Brasil. O Vale do Silício, na Califórnia, é feito dessa relação entre investidores e centros de excelência como a Universidade Stanford. "Ele não tem preconceito de se aproximar do mercado", diz Manoel Fernandes, diretor da consultoria Bites.

"Para que a gente possa dizer que um polo tecnológico deu certo, é preciso esperar 25 anos", diz Silvio Meira, que acaba de completar 55 anos e que se aposenta da universidade em 2011. Para garantir os próximos 15 anos do polo, o professor já começou a trabalhar no projeto que irá tocar depois da aposentadoria: uma rede de investidores em empresas de base tecnológica.

"Na verdade, não vou me aposentar", diz Meira. "Estou trocando de capa como um camaleão. Vou me retirar de um bocado de coisas para fazer um outro conjunto de coisas com a mesma intensidade. A rede de investimentos já tem nome, gente e dinheiro, mas só começa a operar formalmente no ano que vem. Já tem envolvimento com duas empresas. Uma está operando e outra em fase final de negociação. Atualmente ela está naquele modelo que no Vale do Silício é chamado de stealth, que são aqueles aviões indetectáveis pelo radar."

Capital semente. Em maio, o Cesar vai lançar outro fundo, de capital semente, com R$ 20 milhões em recursos, uma parceria com a FIR Capital, de Minas Gerais. "O grupo da gente não vai competir com o fundo do Cesar", diz Meira. "É preciso diversidade." O Cesar deve fazer investimentos entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão. Para ter uma ideia do que isso significa, o programa Prime, da Finep, do Ministério de Ciência e Tecnologia, faz investimentos em empresas na faixa de R$ 200 mil a R$ 300 mil.

"Existe oportunidade daqui a dois ou três anos de investimentos na faixa de R$ 3 a 4 milhões", explica Meira. "É a inexistência dessas redes de investidores no Brasil que tem feito que as empresas encruem, que nem bolo. A empresa começa a crescer, começa a crescer e daí trava. Fica aquele negócio que, 10 anos depois, o cara está faturando R$ 3 milhões. Isso é um fracasso."

Até agora, Meira não atuou como investidor. "Sou acionista de várias empresas onde eu entrei por causa do meu conhecimento, e não por causa do meu dinheiro. Há empresas de ex-alunos e de colegas meus em que fui chamado para participar como consultor. Como o meu preço de consultoria era impagável para eles, acabei recebendo em ações. Sou acionista de várias empresas sem nunca ter botado um tostão nelas."

Três delas já foram vendidas. "Uma compensou muito. Não ganhei nada com as outras duas. Faz parte", afirma Meira. "O apartamento em que eu moro hoje foi comprado com a venda de ações de uma dessas empresas. Se não, eu estava morando num imóvel alugado até hoje. Vivo do meu trabalho de professor e de palestras. O refinamento do meu paladar para vinhos acaba em R$ 100 a garrafa. Não preciso de dinheiro para comprar um Chatêau Pétrus, e acho desnecessário."

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