Ele ganha para bisbilhotar a vida alheia

Ex-hacker, Gallas criou empresas que monitoram de e-mails corporativos a pessoas físicas. Agora, negocia novos projetos com investidores

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2010 | 00h00

Adolescente, o gaúcho Cristian Gallas gostava de passar a noite decifrando códigos e invadindo computadores. Descobriu sozinho como desbloquear microfones e webcams alheias. Adorava uma bagunça virtual. Na faculdade, deixou colegas e professores em situação constrangedora, ao forjar e-mails de amor entre eles e chegou a falsificar uma mensagem de demissão para assustar um amigo.

Com o conhecimento que adquiriu desenvolvendo vírus devastadores, Gallas poderia ter caído na tentação de invadir contas bancárias - "maldade" que ele aprendeu a fazer e garante nunca ter cometido. Aos 22 anos, decidiu interromper sua carreira de hacker para tornar-se um empreendedor, fazendo da habilidade para monitorar a vida alheia um negócio. A iVirtua, que faturou no ano passado R$ 9 milhões, tem no portfólio clientes como Coca-Cola, Petrobrás, Americanas.com, Globo e órgãos públicos como a Polícia Militar de São Paulo e o Ministério da Defesa. "Conseguimos medir segundo a segundo tudo o que acontece no computador de uma empresa", afirma Gallas. Entre outras funções, um dos softwares desenvolvidos pelo empresário cria alertas nos e-mails trocados por funcionários dentro das companhias. Quando alguma mensagem suspeita é enviada, o sistema avisa os gestores. "Centenas de pessoas já foram demitidas com os nossos serviços."

Há dois anos, Gallas criou uma outra empresa - a Aleste - com a intenção de oferecer os serviços de tecnologia e monitoramento para pessoas físicas: pais que querem saber onde os filhos estão e o que fazem na internet, por exemplo.

Na iVirtua, o empreendedor optou por crescer com recursos próprios e agora, na Aleste, pretende fazer diferente. "Quero um sócio que entre com o capital, mas não interfira no negócio, que não chegue querendo mudar a administração", afirma. Um dilema que segundo o Instituto Endeavor de Empreendedorismo é dele e de centenas de outros pequenos empresários brasileiros (leia mais ao lado).

No ano passado, a Aleste faturou R$ 2 milhões e tornou-se a grande aposta de Gallas. Um dos projetos mais importantes da nova empresa é um software antissequestro, testado por ele próprio no ano passado. Gallas sofreu um sequestro relâmpago, na cidade de Montenegro, interior do Rio Grande Sul, onde vive, e foi salvo porque o aparelho instalado no carro avisou os familiares que o veículo estava fazendo uma rota estranha.

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