Ele não é o super-homem

Ele assume nesta terça-feira o comando do país mais importante do mundo em circunstâncias especialmente adversas: três guerras e a pior crise econômica global desde os anos 30.Em duas dessas guerras, a do Iraque e a do Afeganistão, os Estados Unidos estão diretamente envolvidos, sem grande perspectiva de sucesso. Na terceira, a da invasão da Faixa de Gaza por Israel, os americanos estão metidos até o pescoço pelos seus compromissos na região, sem nenhuma perspectiva de solução.A crise econômica não é apenas global; tem epicentro nos Estados Unidos mesmo, e seus desdobramentos são imprevisíveis. A recessão americana ameaça se aprofundar. A necessidade de revertê-la será o objetivo número um do novo governo. O problema é que não há receita segura de como fazê-lo. Uma a uma, as grandes empresas americanas vêm anunciando resultados desastrosos e uma aparentemente inexorável tendência a aumentar as demissões de pessoal. As pressões para que sejam adotadas medidas protecionistas no comércio e no mercado de trabalho são cada vez mais intensas. Para financiar o socorro das empresas ameaçadas de naufrágio, não há o que chegue. Apenas as instituições financeiras americanas terão injeção de mais de US$ 1 trilhão. O Federal Reserve (o Fed, banco central americano) não para de comprar ativos podres e o Tesouro os municiou com US$ 700 bilhões do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês). O governo Bush já havia providenciado outro pacote de US$ 168 bilhões, em fevereiro de 2008.E, durante a transição, o presidente Obama está preparando outro plano fiscal, de pelo menos US$ 825 bilhões. Mas o próprio Obama já disse que será pouco.Por enquanto, o resto do mundo está mostrando disposição para absorver a emissão de Títulos do Tesouro americano correspondentes a essas novas despesas. Mas a dívida pública líquida já vai para 55% do PIB e será preciso ver até quando acolherá essas emissões cujo rendimento tende a ser negativo.Parece afastado o risco de que, num regime de juros próximos do zero por cento ao ano, o dólar comece a ser rejeitado. Mas isso só é assim porque nenhuma outra moeda exerce a função de reserva internacional de valor. Ao longo da administração Obama essa condição pode ser revertida.Uma vez apagado o incêndio, sabe-se lá quando, ainda será preciso reconstruir o sistema financeiro global. Não há uma única indicação de que o novo governo tenha ideias de como fazê-lo.Se é verdade que Deus dá o frio conforme o cobertor, o carismático Obama toma posse ostentando impressionante apoio político. Não só conta com o respaldo de 66% da população, mas, também, pode contar com boa maioria nas duas Casas do Congresso. Além disso, depois de uma desastrada administração Bush, o Partido Republicano, que lhe fará oposição, está desgastado e sem discurso.É inevitável que, quando começar a tomar decisões, Obama estará contrariando interesses e provocando frustrações. Ele chega sobrecarregado de expectativas nem sempre claras e não pode falhar.Obama é o Homem América, mas não é o super-homem. É o primeiro negro a assumir a Casa Branca e isso também pesa.ConfiraSubprodutos - Os debates entre empresários, sindicalistas e governo a respeito da estabilidade no emprego podem não dar em grande, coisa mas tiveram pelo menos dois efeitos:O primeiro deles foi ter criado consciência de que a crise chegou para valer; não é exagero dos analistas. E vai custar quebra de faturamento das empresas e desemprego.O segundo efeito foi ter disseminado a percepção de que as leis trabalhistas estão engessadas demais e não servem para tempos de crise. Empresários e sindicalistas ainda não conhecem os limites da flexibilização. Mas não há como evitá-la.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

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