'Ele não fugia das perguntas'

Antônio Ermírio de Moraes estava às voltas com um projeto que tinha o objetivo de preservar a memória do grupo Votorantim. Nessa época, durante uma pesquisa que eu estava fazendo sobre o senador José Ermírio de Moraes, pai do empresário, descobri um depoimento do ex-senador para o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS). Fiz uma cópia e encaminhei para o empresário. Ele me agradeceu muito e, a partir daí, começamos a conversar quase que semanalmente sobre temas que estavam em pauta no País.

Milton F. da Rocha Filho, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2014 | 02h01

Ele não deixava de responder nada, mas quando exagerava nas críticas aos políticos costumava acrescentar a recomendação: "Publique sem os adjetivos, por favor, pois senão estaria faltando seriedade de minha parte".

Ele próprio enveredou pelo caminho da política, mas não gostou da experiência. Em 1986, Antônio Ermírio foi candidato ao governo de São Paulo, mas perdeu para Orestes Quércia. "É muito difícil participar diretamente de uma eleição no País. Você enfrenta denúncias falsas, espalhadas em tom de verdade. Isso não me agradou", confessou a amigos.

Ermírio não gostava do PT nem de Lula, mas mudou de opinião quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Presidência. Teve muitos encontros com o ex-presidente e elogiava os avanços na economia do País. Gostava do jeito de Lula de trabalhar e resolver problemas. Embora estivesse sempre muito próximo da política, desde a derrota em São Paulo, decidiu que nunca mais disputaria um cargo eletivo - apesar dos vários convites. "Posso ajudar muito mais trabalhando no Beneficência Portuguesa."

No hospital, barrou a proposta de alguns conselheiros que queriam reduzir a participação do atendimento pelo Sistema Único de Saúde. Para ele, o Beneficência deveria manter sempre um porcentual de 60% para atender quem dependia do SUS. Certa vez, presenciei o empresário tirar um cheque pessoal para quitar os salários dos funcionários, quando o SUS atrasou os pagamentos pelos serviços prestados pelo Beneficência. Uma de suas grandes alegrias era inaugurar um novo equipamento ou ala do hospital, que costumava visitar diariamente.

Ermírio gostava de sair para caminhar pela cidade. Ia seguidamente da Praça Ramos, no centro de São Paulo, onde ficava a sede do Grupo Votorantim, até o Hotel Ca' D'Oro, na Rua Augusta. No caminho, era frequentemente cumprimentado por populares. No hotel, mantinha encontros de negócios ou conversas com amigos.

Quando falava de amenidades, um dos assuntos recorrentes era o time do coração, o Corinthians. Ele gostava de futebol, mas preferia o trabalho. Quando o Brasil enfrentou a Nova Zelândia pela Copa do Mundo, o empresário me ligou e disse: "Você não quer ver como anda a produção de equipamentos para a ampliação da CBA?" Enquanto o Brasil inteiro torcia, Antônio Ermírio me mostrou a fábrica do grupo no Jaguaré, em São Paulo.

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