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Elegância invocada

Criação de crocodilos em cativeiro para produção de artigos de luxo pode ajudar animais que vivem na natureza

O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2016 | 05h00

Cerca de 30 mil crocodilos lagarteiam em Izintaba, uma fazenda de 40 hectares não muito distante da cidade sul-africana de Pretória. Vendidas para curtumes, que as utilizam para fabricar bolsas, cintos e pulseiras de relógios, as peles de crocodilo de maior qualidade chegam a custar mais de US$ 600. O manejo exige dedicação, mas não é particularmente perigoso, diz Pit Süssmann, administrador da fazenda. Ele tem mais medo dos ladrões armados que invadem a propriedade para roubar carros e equipamentos do que dos animais.

As coisas andam bem para os criadores de crocodilos, que se reunirão este mês com ambientalistas e outros pesquisadores num congresso bianual, a ser realizado em local próximo à propriedade de Süssmann. As exportações de couro de crocodilo tiveram alta de 30%, chegando a 1,8 milhão de peles em 2013, último dado disponível.

Isso se deveu, em parte, ao aumento da demanda, que passou por um período de baixa durante a crise financeira, quando os apreciadores de couros exóticos trocaram os crocodilos por répteis mais baratos, como as serpentes píton. Também deve ter contribuído favoravelmente o clima ameno nos Estados Unidos, que são um grande produtor e onde muitos fazendeiros optam por coletar os ovos em ninhos de populações naturais controladas, em vez de apostar na criação em cativeiro. Mais de 20 países exportam couro de crocodilo, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Mais da metade das exportações é de peles de jacarés criados na Colômbia e nos Estados Unidos. A maior parte é vendida para curtumes da Itália, da França e de Cingapura.

O segmento vem se expandindo em ritmo acelerado desde o fim da década de 70, quando os ambientalistas começaram a relaxar a proibição às exportações, originalmente decretada para proteger os animais da caça indiscriminada (o comércio de peles de crocodilo ainda é controlado pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Extinção). O biólogo Grahame Webb diz que muitas das cerca de 5 mil fazendas de crocodilo são pequenas propriedades em vilarejos asiáticos. Porém, as maiores concentram atualmente uma população de 70 mil crocodilos. Algumas vêm sendo adquiridas por grifes de luxo, como Hermès e Louis Vuitton.

A criação de crocodilos tem suas dificuldades. Como é uma atividade recente, as pesquisas sobre alimentação e prevenção de doenças ainda são limitadas, em comparação com formas mais tradicionais de criação animal. Espaço e atenção são cruciais, pois mesmo a cicatriz mais superficial – resultante de uma briga com um rival, por exemplo – pode diminuir o valor das peles. A necessidade de manter o filhotes recém-nascidos sempre aquecidos consome recursos, assim como os vários anos de espera até que uma fazenda nova comece a produzir. Custos regulatórios tornam extremamente difícil a exportação de subprodutos baratos, como os dentes.

E ainda há contratempos. A desaceleração econômica na Rússia esfriou a demanda por itens como coletes de couro de crocodilo, muito apreciados pelos machões do país, que, segundo cálculos do australiano Geoff McClure, chegam a desembolsar US$ 80 mil por peça. O administrador Süssmann enfrenta concorrência acirrada na África do Sul, onde as exportações de couro de crocodilo triplicaram nos últimos dez anos. Empreendedores ambiciosos de países em que a mão de obra é mais barata, como Vietnã e Camboja, também lutam por uma fatia maior do mercado.

O maior desafio é convencer os consumidores, e alguns legisladores, de que a criação de crocodilos não é uma sórdida e cruel. No ano passado, a entidade de defesa dos direitos dos animais Peta informou ter encontrado, numa fazenda do Texas, evidências de que os crocodilos eram tratados com crueldade – levando a cantora Jane Birkin a solicitar à Hermès que retirasse temporariamente seu nome da bolsa que é batizada em sua homenagem.

O melhor argumento que o segmento tem em sua defesa é o de que, com poucas exceções, as populações de crocodilos voltaram a crescer com vigor desde que a criação em cativeiro foi autorizada. Segundo Webb, na região do Northern Territory, na Austrália, hoje há 20 vezes mais crocodilos do que quando a espécie viveu seu momento mais crítico. Don Ashley, que atua como consultor nos EUA, afirma que o comércio internacional estimula proprietários de terras a proteger seus pantanais. Os ambientalistas advertem que é preciso ir devagar com o andor, pois a opção pela criação em cativeiro dificilmente beneficiará outras espécies ameaçadas de extinção, como tigres e rinocerontes, e pode criar demanda por “medicamentos” ineficazes (a medicina chinesa, por exemplo, faz uso de partes do corpo dos tigres, como ossos, olhos, bigodes e dentes, assim como dos chifres dos rinocerontes). Mas, ao menos para os crocodilos, os resultados não poderiam ser melhores.

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