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Eleição encerrada, outra a caminho

Há um novo mundo, não apenas no aspecto político, mas também no cultural e no social

Albert Fishlow, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Trump no final realmente perdeu, mesmo que se recuse a admitir o fato. Muitos republicanos no Congresso apoiam sua atitude, em parte para respaldar as eleições para o Senado na Geórgia, em parte para evitar sua fúria, inegável, durante os próximos quatro anos quando alguns tentarem ocupar o seu lugar.

As pesquisas exageraram a margem de liderança do presidente eleito Joe Biden, como ocorreu com Hillary Clinton em 2016, assim como falharam ao não mostrarem acuradamente a ascensão de Bolsonaro em 2018.

A propaganda política e convencional não tem mais a influência que tinha no passado. Hoje, Facebook, Twitter e muitas outras fontes similares, mas tendenciosas, se proliferaram. A internet, mesmo com a imposição de controles razoáveis, não consegue acompanhar o ritmo do imenso fluxo de exageros e mentiras.

Biden agora tem de enfrentar a epidemia persistente do coronavírus. Esta foi talvez a razão principal da sua vitória. O número de casos disparou para mais de 130 mil num único dia esta semana. As mortes, felizmente, diminuíram à metade desde seu pico inicial de 2 mil óbitos diários, em abril. Apesar das notícias sobre os resultados positivos das novas vacinas e o grande esforço para elevar sua produção ao máximo, uma oferta adequada não será possível por vários meses.

Mas a vacinação para aqueles com necessidades vitais deve começar no início do ano.

Biden nomeou um comitê consultivo de profissionais especializados que irá atuar quando for confirmada sua eleição. Mas ele e sua equipe não têm ainda nenhum acesso à estratégia já planejada de distribuição inicial das vacinas. Esses produtos precisam ser mantidos a temperaturas baixíssimas. E é necessária uma dose dupla da vacina. Mas a votação na Geórgia não deve encerrar antes de janeiro e, assim, alguns apoiadores de Trump relutam a fornecer ajuda imediata. Os governadores republicanos já rejeitaram o apelo feito por Biden para uso das máscaras faciais em todo o país.

A tarefa de Biden é complicada pela constante divisão do Partido Democrata. Houve perdas nos números de eleitos para a Câmara e o desempenho do partido na votação para o Senado foi ainda pior.

Como pode ele acabar com a epidemia, gerir a crise da mudança climática, reestruturar a economia, apoiar as mudanças na assistência à saúde, oferecer oportunidades iguais para as minorias, reformular os impostos e gastos federais, sem falar no retorno dos Estados Unidos a uma posição de respeito e poder no plano internacional?

Brasil

O Brasil também realiza eleições municipais no dia de hoje. Elas fornecerão uma medida da real popularidade de Bolsonaro? Não será fácil. Seu maior sucesso político, talvez, foi sair do PSL, seu oitavo partido político, deste modo impedindo qualquer conclusão definitiva.

Dois anos de crescimento negativo da renda se traduziram em poucos avanços da sua agenda de econômica liberal, aqui, lá e em outros lugares. De todas as planejadas, nenhuma privatização ocorreu até agora. 

Guedes modificou o programa federal de aposentadoria, mas até agora apenas 13 municipalidades concluíram as mudanças necessárias e alguns Estados grandes continuam com problemas fiscais.

Com as consequências importantes da pandemia, o Brasil hoje tem uma dívida pública bruta quase do mesmo tamanho do seu Produto Interno Bruto (PIB). Apenas os juros em mínimas históricas no Brasil e no mundo garantem que essa dívida seja sustentável. Qualquer alta produziria sérias consequências. Em suma, não tem sido o prometido triunfo capitalista.

Além disso, o comprometimento com a continuação da Lava Jato parece ter chegado a um fim infeliz, como os políticos esperavam. Sérgio Moro renunciou ao cargo de ministro da Justiça, e as nomeações subsequentes para o Judiciário e a polícia mostraram que a máxima prioridade é garantir que um julgamento do senador Flávio Bolsonaro jamais ocorra.

E temos também a tragédia em curso da região amazônica e uma incapacidade para enfrentar eficazmente o vasto desmatamento que ocorre, como também no tocante ao cumprimento do Acordo de Paris. O Brasil pelo menos não renunciou ao tratado, como também não deixou a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Poderíamos abordar outras questões, como a forte oposição à igualdade racial, educacional ou de gênero, o apoio irrestrito à participação de militares no governo e outras mais. Há poucos ministros, mas quando ocorrem mudanças, mais um oficial militar normalmente é uma aposta segura.

Estou preocupado. Há um mundo novo agora, não apenas no aspecto político, mas também cultural e social. E isso afeta as instituições democráticas numa escala global. As velhas regras criadas para garantir a liberdade de escolha individual, sujeitas à intervenção coletiva para um bem maior, parecem não mais se aplicar.

Trump acabou. Bolsonaro merece o mesmo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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