Eleição na Finlândia põe em risco ajuda para Portugal

Nova força, partido de extrema-direita finlandês deve dificultar aval para pacote de socorro[br]ao governo português

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA

Portugal começou ontem a negociar com a União Europeia (UE) e com o Fundo Monetário Internacional (FMI) os termos de um pacote de resgate no valor de 80 bilhões. Mas nem bem o debate começou em Lisboa, a oposição interna e externa ao resgate levantou sérias dúvidas sobre a possibilidade de a UE conceder um terceiro pacote de ajuda em menos de um ano, depois de Irlanda e Grécia.

Na Finlândia, o partido de extrema-direita - que saiu como o grande vencedor nas eleições do último fim de semana - declarou que exigirá mudanças profundas na forma pela qual a UE concede seus resgates. Internamente, partidos de esquerda e os ecologistas em Portugal se recusaram a fazer parte das negociações, que deveriam incluir todas as forças políticas do país com o FMI.

Mas foi o resultado das eleições longe de Lisboa que deixou o mercado temendo que um pacote para salvar Portugal seja minado antes mesmo de sair do papel.

O Partido Autênticos Finlandeses obteve 19% dos votos, aumentando o número de parlamentares de 5 para 39, dos 200 lugares possíveis. A nova força política aproveitou-se da ira dos cidadãos em relação ao pagamento de resgates para países que tenham fracassado em suas políticas econômicas.

Para que um pacote seja aprovado, todos os países da zona do euro precisam dar sinal verde. No caso da Finlândia, a aprovação terá de passar pelo Parlamento. Timo Soini, líder do partido, declarou ontem que vai usar seu poder no Parlamento para exigir reformas na forma pela qual a UE vai conceder ajuda para Portugal.

"Vamos renegociar com a UE. A Finlândia não pagará pelo erros dos demais", declarou. "Algo novo terá de ocorrer. Pois está claro que esses pacotes de resgate não estão funcionando", disse. Ontem, autoridades do governo finlandês se apressaram em dar garantias a Bruxelas de que Soini não ditaria a posição econômica do país e garantiram que o pacote de ajuda para Portugal será aprovado, mesmo que o partido de Soini faça parte da nova coalizão do governo.

"Choque". Com o apoio vindo principalmente do mundo rural, a nova força política finlandesa não esconde que refletiu o descontentamento de muitos em relação à obrigação de usar dinheiro público para salvar outros países. "Não há dúvidas de que essa eleição foi um choque para o sistema", disse Alexander Stubb, ministro das Relações Exteriores da Finlândia.

Já a Comissão Europeia tentou ontem dar garantias de que nada mudaria para Portugal com as eleições na Finlândia. A UE e o FMI se reuniram com o ministro de Economia de Portugal, Fernando Teixeira. O recado foi claro: exigirão de Lisboa cortes profundos nos gastos públicos.

O desejo é ter um acordo até meados de maio para que seja aprovado no dia 17 pela UE. O pacote ainda exigirá privatizações e uma reforma trabalhista.

Pedra no caminho

TIMO SOINI

LÍDER DO PARTIDO AUTÊNTICOS FINLANDESES

"Vamos renegociar com a União Europeia. A Finlândia não pagará pelos erros dos demais. Algo novo deve ocorrer. Pois está claro que esses pacotes de resgate não estão funcionando."

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