Dida Sampaio e Sérgio Castro/Estadão
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Fábio Alves
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Eleição presidencial deve começar a afetar os ativos brasileiros a partir de novembro

Polarização entre as candidaturas de direita e de esquerda, representadas por Bolsonaro e Lula, vai gerar maior volatilidade nos preços

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2021 | 04h00

É cada vez maior a percepção dos investidores de que os preços dos ativos financeiros no Brasil devem começar a sofrer a influência da corrida para a eleição presidencial de 2022 muito antes do que em outros ciclos eleitorais e esse impacto pode ocorrer ao mesmo tempo que sopram ventos adversos do exterior.

Os investidores temem que os mercados globais enfrentem, já no segundo semestre deste ano, outro episódio de “taper tantrum”, a turbulência observada em 2013 quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) começou a discutir a redução dos estímulos monetários adotados durante a crise financeira mundial de 2008.

É que com a retomada mais acelerada do que o previsto da economia dos EUA, após o tombo causado pela pandemia de covid, a expectativa é de que o Fed comece a discutir em algum momento do segundo semestre uma eventual redução nas compras de títulos do Tesouro americano e de papéis lastreados em empréstimos imobiliários, o que seria executado a partir do início de 2022. O efeito dessa discussão pelo Fed poderá resultar em fuga dos investidores de ativos de maior risco, como as moedas e as Bolsas de países emergentes.

Agora, muitos analistas falam que, além do “taper tantrum”, o Brasil poderá enfrentar um “election tantrum”, isto é, um chilique do mercado financeiro com as notícias relacionadas à eleição presidencial de 2022. Isso porque a expectativa é de que as eleições comecem a afetar os preços dos ativos brasileiros a partir de, pelo menos, novembro deste ano.

No pleito de 2018, o mercado começou a reagir ao noticiário eleitoral já em março daquele ano. Naquele mês, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou por unanimidade o pedido de habeas corpus preventivo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que elevou não só a possibilidade de prisão do petista, como também de impedimento da sua candidatura à eleição presidencial, o que acabou acontecendo nos dois casos. Os investidores gostaram daquela notícia, favorecendo o real brasileiro ante o dólar.

Também em março de 2018, uma pesquisa de intenção de voto, a CNT/MDA, mostrou que o nome preferido do mercado até então estava com sérios problemas para fazer sua candidatura decolar: o então governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) ficou em quarto lugar na pesquisa estimulada, atrás de Lula, de Jair Bolsonaro e da ex-senadora Marina Silva. A partir de então, cada revés da candidatura de Alckmin ou crescimento de Ciro Gomes nas pesquisas abalava o mercado. A tranquilidade só veio quando Bolsonaro consolidou sua liderança na corrida presidencial.

Como a campanha eleitoral para 2022 poderá afetar câmbio, Bolsa e juros? Como em pleitos anteriores, a polarização entre as candidaturas de direita e de esquerda – desta vez, representadas pelas chapas encabeçadas por Bolsonaro e Lula – vai gerar maior volatilidade nos preços. Mas, se ao redor de novembro, ainda houver a ausência de uma terceira via – um candidato de centro – competitiva, a habitual polarização poderá exacerbar movimentos de mercado.

Isso porque a continuidade, isto é, a reeleição de Bolsonaro, já não é mais percebida integralmente como um desfecho “market friendly”, ou favorável ao mercado, dado o distanciamento do presidente da agenda econômica liberal do ministro Paulo Guedes, como ficou evidenciado no episódio da sua intervenção no comando da Petrobrás

Além disso, o mercado questiona até se Guedes seguirá no governo, caso Bolsonaro seja reeleito.

Em relação ao candidato petista, o mercado acredita que, até por uma questão de estratégia eleitoral para se diferenciar de Bolsonaro, Lula vai adotar um discurso mais radical à esquerda, o que poderá deixar os investidores nervosos caso ele siga liderando as intenções de voto. Mesmo se Lula vencer a eleição e amenizar o tom das suas palavras, como fez em 2003, o estrago nos preços dos ativos já estará feito.

Após o fim da novela do Orçamento de 2021 e uma calmaria no cenário externo, com o recuo das taxas de retorno dos títulos do Tesouro americano, muitos analistas passaram a prever o dólar caindo até R$ 5,00 e o Ibovespa subindo para mais de 130 mil pontos no fim do ano. Todavia, o “taper tantrum” lá fora e o “election tantrum” aqui poderão frustrar essas projeções, exigindo maior prêmio de risco para câmbio, juros e Bolsa no Brasil. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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