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Eleições americanas: largada ou reta final?

Diferença entre os candidatos Donald Trump e Joe Biden nas pesquisas vem caindo, o que aumenta o risco de uma eleição contestada e de uma crise institucional

Paulo Leme, O Estado de S.Pauo

01 de novembro de 2020 | 05h00

No dia 3 de novembro, os americanos darão continuidade ao seu processo eleitoral para eleger o presidente, os 435 representantes na Câmara e 35% dos 100 senadores.

No Brasil, o voto é obrigatório, o governo federal é responsável pela Justiça eleitoral e o sistema é majoritário: para vencer, o candidato precisa obter mais de 50% dos votos válidos, o que exige dois turnos. Sinto falta da eficiência do nosso processo eleitoral. Bastava ir cedo ao local de votação, digitar o número dos candidatos e ouvir a musiquinha da urna eletrônica confirmando o voto. Depois, era só aguardar a divulgação dos resultados às 22:00 horas.

Para explicar o processo eleitoral americano, eu precisaria desta edição inteira do Estadão, o que felizmente não foi possível. Nos EUA, o sistema eleitoral é federativo: cada Estado é responsável pelo seu processo eleitoral. Em cada Estado, quem recebe a maioria do voto popular leva todos os delegados estaduais, que formarão o Colégio Eleitoral (538 membros). O número de delegados de cada Estado é igual à soma dos seus representantes na Câmara e no Senado, o que, por sua vez, é proporcional à população. Para ser eleito presidente, o candidato precisa de pelo menos 270 delegados.

Nos EUA, o voto é facultativo. O eleitor pode votar antecipadamente pelo Correio ou ir às urnas no dia 3 ou até mesmo semanas antes das eleições. Em geral, as pesquisas não conseguem antecipar quantos dos 230 milhões de eleitores registrados irão votar. Analistas políticos esperam que 65% dos eleitores votarão, o que bateria o recorde de 1908. Até agora, 37% dos eleitores registrados já votaram, dando uma vantagem a favor de Biden.

O voto postal é outro desafio desta eleição, já que o Correio e a Justiça eleitoral enfrentarão problemas para apurar os votos tempestivamente. Em geral, sabemos quem venceu por volta da meia-noite. No entanto, quando a diferença é mínima, isto pode exigir a recontagem dos votos, que fica à mercê dos Estados, como foi o caso da Flórida na campanha entre G.W. Bush e Al Gore. A recontagem pode se estender até 6 de janeiro e requerer a intervenção da Suprema Corte e da Câmara.

Baseado nas pesquisas disponíveis a 30 de outubro, o cenário mais provável é a vitória do democrata Joe Biden. Ele lidera com uma vantagem de 9% do voto popular, o que sempre se traduziu em vitória. As pesquisas em nível de Colégio Eleitoral indicam que Biden está próximo aos 270 dos votos. Para garantir a vitória, ele precisa vencer em quatro dos “swing states” (Arizona, Flórida, Michigan, Minnesota, Carolina do Norte, Ohio, Pennsylvania e Wisconsin).

Biden precisa vencer em Minnesota, Wisconsin, Michigan, o que é provável, e na Pennsylvania, onde Biden mantém uma pequena vantagem. Pennsylvania é uma das chaves para vencer, mas é um dos Estados que apresenta o maior risco de atraso na apuração no dia 3. Caso Trump vença na Pennsylvania, Biden só venceria se conquistasse Arizona, Novo Mexico e New Hampshire. Trump tem de vencer na Flórida, mas Biden não.

Mesmo que os democratas recuperem a Casa Branca e mantenham a Câmara de Representantes, é pouco provável que eles reconquistem o Senado, frustrando, assim, o seu objetivo de conquistar as três Casas (“blue wave”). Hoje, o mercado financeiro já está posicionado para uma vitória de Biden e de um “blue wave”.

Dado que a sua campanha recuperou momentum nesta semana, Trump vem reduzindo a vantagem de Biden tanto no voto popular como também em alguns dos “swing states” (Pennsylvania e Flórida). Para vencer, Trump precisa levar a Flórida, Carolina do Norte, Arizona, Ohio e a Pennsylvania. Trump precisa repetir a fórmula que usou para derrotar Hillary Clinton: no dia 3, os republicanos têm de ir às urnas e votar em massa.

O mercado receberia bem um segundo mandato de Trump. No entanto, a diferença entre os candidatos nas pesquisas vem caindo rapidamente, o que aumenta o risco de uma eleição contestada e de uma crise institucional. A crise poderia ser gerada ou pelo atraso na contagem dos votos ou pela necessidade de recontar os votos nos “swing states”, caso a diferença entre os candidatos seja mínima. O outro desafio é se as autoridades estaduais conseguirão nomear todos os delegados para o Colégio Eleitoral. Este cenário não está no preço dos ativos financeiros e poderia testar os limites do mercado e da democracia americana. 

Enquanto os EUA talvez precisem de três meses para concluir as suas eleições, o Brasil resolve o assunto em apenas 15 horas.

* Professor de Finaças na Universidade de Miami e presidente do Executivo Comitê Global de Alocação, XP Private 

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