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Eleições e economia preocupam mercado financeiro internacional

Analistas do mercado financeirointernacional que participaram hoje de um seminário sobremercados emergentes promovido pela agência de classificação derisco Fitch demonstraram grande pessimismo em relação aoBrasil. Desconsiderando-se a Argentina, apenas a Turquia empatoucom a economia brasileira nas avaliações negativas que surgiramno evento. Em contraste, países como a Rússia, os do sudesteasiático e o México receberam análises bem mais favoráveis."Esse pessimismo com o Brasil chegou a surpreender", disse odiretor para títulos soberanos da Fitch, Roger Scher. Segundo os participantes, a enorme cautela em relação aoBrasil é explicada por dois fatores, que estão relacionadosentre si. O primeiro é a incerteza com as eleições presidenciais cujos temores não se limitam a uma eventual vitória de Lula. Além disso , a economia continua apresentando muitavulnerabilidade, com grande dependência de recursos externos.Todos reconhecem que houve melhoras, com a necessidadefinanciamento externo caindo de US$ 70 bilhões em 1999 paramenos de US$ 50 bilhões neste ano. Mas as fracas perspectivas decrescimento do PIB, a necessidade de se manter as taxas de juroselevadas para conter a inflação e a perspectiva de uma reduçãodos influxos de capitais externos preocupam os analistas.Dependência estruturalDurante o seminário da Fitch, oeconomista-chefe para mercados emergentes do HSBC, David Lubin,disse que a debilidade fundamental da economia brasileira é asua limitada capacidade de gerar dólares, de uma formasustentável, como por exemplo por meio das exportações. "Nesse aspecto, o País tem uma situação muito parecidacom a Argentina e contrasta com o México, que ao longo dosúltimos anos fortaleceu-se com o acordo do Nafta", disse."Isso criou uma dependência estrutural da economia brasileirado financiamento externo e de uma política monetáriarigorosa."Menos investimentos estrangeirosLubin alertou que uma escassez dos fluxos decapitais para os emergentes, principalmente por meio dosinvestimentos diretos estrangeiros (IDE) poderia ter sériasimplicações para a economia brasileira. E, segundo ele, essaredução dos fluxos poderá ocorrer nos próximos meses. "Há uma forte possibilidade de os Estados Unidos terem,a partir de agora, de iniciar o ajuste de seu enorme déficit deconta corrente", afirmou. "Isso irá gerar uma desvalorizaçãodo dólar, que por sua vez reduzirá o valor dos ativosnorte-americanos, aumentará o custo do capital e afetarábastante o fluxo para os emergentes." Segundo Lubin, "nos últimos anos, os fluxos de capitaisestrangeiros ajudaram muito o Brasil". Mas o processo deprivatização já foi quase finalizado e o cenário externo, apartir de agora, será desfavorável. Já a economista para mercados emergentes do GuldInternational Bank, Cathy Elmore, acredita que os fluxos paramercados emergentes não deverão ser tão afetados como prevêLubin. Ela salientou que os investidores hoje em dia já nãoencaram os emergentes como um classe de ativos única, mas têmuma estratégia para cada país, dependendo de sua situação. "Masestá claro que o Brasil e a Turquia não estão entre ospreferidos nesses momento."LulaOs analistas que participaram do seminário daFitch apontaram as eleições presidenciais com um dos principaisfatores de risco para o País este ano, embora tenham ressaltadoque ainda é muito cedo para se ter um quadro mais definido dasucessão. O diretor da Fitch, Roger Scher, disse que Lula tem asua melhor chance dos últimos doze anos para ganhar as eleições. "E essa chance não é porque a economia está tendo umaperformance horrível, o que não é o caso", avaliou Scher. "Massim porque o candidato do governo é fraco". Scher salientou que a candidatura de José Serra poderáse beneficiar com as instabilidades na Argentina e Venezuela,transmitindo ao eleitorado brasileiro um alerta de que issopoderá se repetir no País no caso de uma vitória de Lula. "Maso candidato do PT poderá também usar as crises na América Latinapara sustentar a tese do fracasso das teses do liberalismoeconômico."DenúnciasScher alertou que dois fatores devem serlevados em consideração nos próximos meses. "Apesar de Serrater uma imagem limpa, livre de corrupção, pessoas ligadas a eletêm sido alvos de denúncias", disse. "Se isso persistir, suacandidatura poderá ser muito abalada". Além disso, "umaunidade da esquerda, com uma desistência de Garotinho,reforçaria substancialmente as chances de Lula".Sem lua-de-melFicou claro durante o seminário que osanalistas não estão apenas inseguros com a liderança de Lula naspesquisas, mas também em relação à capacidade e disposição deJosé Serra, caso seja eleito, de manter um pulso firme nocontrole de gastos públicos do País. A preocupação geral é de que a condução das políticasmonetária e fiscal do Brasil tem um espaço de manobra tãoestreito que qualquer mudança poderá ameaçar a estabilidade. Aeconomista do Gulf International Bank, Cathy Elmore, disse terdúvidas de que mesmo uma vitória da candidatura de Serra poderiagerar um clima de instabilidade. "Não haverá período delua-de-mel para o novo presidente. Temo que nos primeiros mesesdo novo governo, mesmo do candidato situacionista, as coisaspossam sair do controle rigoroso que é necessário ser mantido atodo custo". Scher disse que Serra deverá manter inalterada a atualpolítica do Banco Central. Ele alerta, no entanto, que ocandidato do PSDB poderá não ter a mesma capacidade de liderançado presidente Fernando Henrique Cardoso, que promoveu reformassustentado com forte apoio no Congresso Nacional. "Se houver uma necessidade de se elevar o superávitprimário de 3,5% do PIB para 5% do PIB no ano que vem, seria oSerra capaz de fazer isso?", indagou Scher. "Eu não tenhocerteza". O economista-chefe para mercados emergentes do HSBC,David Lubin, disse que as eleições brasileiras representam forterisco para o País. "Qualquer que seja o vencedor, ele terá demanter políticas monetária e fiscal rigorosas", afirmou. "Nãoserá uma tarefa fácil".Meta inflacionáriaOs analistas acreditam que o BancoCentral terá pouco espaço de manobra para reduzir a atual taxade juros, de 18,5% nos próximos meses, ainda mais com a recentedesvalorização do real, que poderá ter efeitos inflacionários. Com isso, a atividade econômica continuará sendo contidapela camisa-de-força da política monetária. Os mais otimistas,uma minoria, acreditam que o BC poderá vir a reduzir a taxaSelic em 150 pontos-base, no máximo. Scher disse que o Brasil poderia adotar uma metainflacionária um pouco mais ampla, dando assim maior espaço parauma queda dos juros. "Acho a atual meta inflacionária muitorigorosa, ela poderia ser ampliada para 8% ou 10%", afirmou. Outro diretor da agência, Richard Fox, observou que essapossibilidade deveria ser avaliada. "Mas desde que sejaacompanhada por um melhor desempenho no lado fiscal." Oeconomista-chefe para mercados emergentes do HSBC, David Lubin,disse que "a fraqueza da economia é um reflexo de seu esforçopor uma inflação mais baixa". Ele salientou, no entanto, queisso ocorre em outros países com estratégias semelhantes. "A economia da Polônia, por exemplo, também sofre oimpacto da meta inflacionária", afirmou. "Isso mostra queessas metas podem ter efeito negativo em países emergentes."Lubin, no entanto, observou que seria desfavorável para o Brasilaumentar a sua meta inflacionária a curto prazo. "Não seria umapolítica que geraria confiança", disse. "Os tempos demegainflação no Brasil ainda são muito recentes."

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