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Eleições e inflação

Finda a Copa, as atenções se voltam para a disputa eleitoral que se avizinha. Serão dois meses e meio de intensa campanha para deputados, senadores, governadores e presidente da República. É o período de promessas para atrair eleitores. Uma espécie de vale tudo.

Amir Khair, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2014 | 02h04

A disputa para a Presidência deverá ser dura e provavelmente vai envolver decisão no segundo turno. Em havendo o segundo turno, os dois candidatos têm chances iguais de tempo para expor suas ideias e plataforma de governo. A expectativa é que o debate eleitoral possa aclarar propostas e compromissos perante o eleitorado.

A Copa deve ter algum peso no resultado das eleições. Como não ocorreram as previsões catastróficas anunciadas de problemas para a realização dos jogos, as pesquisas, antes do fracasso da seleção, apontaram subida nas intenções de voto para a presidente Dilma. O fracasso da seleção pode, no entanto, trazer resultado desfavorável a ela. A ver.

O pano de fundo sob o viés econômico será sobre o crescimento econômico e a inflação. Em ambos, a presidente terá dificuldade para se defender dos ataques de seus oposicionistas.

Nos três primeiros anos de seu governo, ocorreram em média por ano um crescimento de 2,1% e inflação de 6,1%. Com as previsões feitas pelo mercado financeiro no Boletim Focus para este ano, de crescimento de 1,07% e inflação de 6,46%, os resultados médios anuais ficam piores, com crescimento médio de 1,8% e inflação de 6,2%.

À guisa de comparação, no primeiro mandato de Lula (2003/2006), os resultados correspondentes foram: crescimento de 3,5% e inflação de 6,4%. No primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995/1998), o crescimento foi de 2,4% e inflação de 9,4%. Assim, a presidente perde no crescimento e ganha na inflação na comparação com seus dois antecessores.

Pois é, talvez seja a inflação que mais possa impactar sob o viés econômico as decisões dos eleitores, pois é o que é mais fácil de ser sentido pela população. Mas dois argumentos de sinais postos podem ocorrer: a) a inflação dos últimos 12 meses até a eleição pode se situar acima do limite da meta de 6,5% e; b) a inflação mensal pode ser inferior a 0,3%, cessado o efeito Copa nos impactos das tarifas aéreas e diárias de hotéis, e da queda nos preços dos alimentos. Essa inflação de 0,3% anualizada corresponde a 3,7%, portanto, abaixo do centro da meta de 4,5%.

O impacto do crescimento se faz sentir no emprego e na renda. Caso persista, o que é mais provável, baixo nível de desemprego, isso tende a favorecer a presidente e uma posição conservadora pode prevalecer na hora de votar. É melhor não arriscar com outro candidato pode pensar parcela do eleitorado. É melhor mudar, pode pensar outra parcela. De qualquer forma impõe-se aos candidatos colocar propostas claras do que fazer para retomar o crescimento e manter baixa a inflação. Nesse artigo trato apenas da inflação, pois sob o crescimento artigo anterior apresentou propostas.

Inflação. Quanto à inflação pesa muito a relativa aos serviços que não é passível de concorrência externa. Respondem por cerca de um terço da inflação e tem se situado acima dela desde 2005. Durante 1998 a 2004, no entanto, a inflação de serviços ficou abaixo da inflação, contribuindo, pois, para a sua redução, o oposto do ocorrido nos últimos nove anos (2005 a 2013). Isso é devido ao expressivo aumento da classe média, que demandou serviços além da capacidade de oferta pelo mercado. A inflação dos serviços girou no entorno de 8,5% ao ano nos últimos quatro anos (2010 a 2013) e, como participa com cerca de um terço da inflação, os serviços acrescentam 2,8 pontos porcentuais na inflação. Esse tipo de inflação escapa ao controle do Banco Central (BC).

Como combater a inflação de serviços? Equilibrando a oferta com a demanda. Algumas análises advogam a redução da demanda através do aumento do desemprego. Não parece ser solução adequada, pois implicaria em redução ainda maior do baixo crescimento, podendo levar o País à estagnação. É um preço muito caro, além de inviável politicamente.

A outra alternativa para a redução da inflação de serviços é pela própria ação do mercado, pois é atividade altamente competitiva de milhões de agentes envolvidos na oferta. Como tem maior demanda que oferta novos ofertantes tendem a entrar no mercado, atraídos pela crescente demanda. É processo lento, mas natural de vir a ocorrer gradualmente nos próximos anos.

Outro componente importante da inflação são os alimentos, responsáveis por cerca de um quarto da mesma. Nos últimos quatro anos subiram acima da inflação com média anual de 9,0%, contribuindo com 2,2 pontos para a inflação. Mas como combater a inflação de alimentos? De três formas: a) ampliando a oferta, pelo estímulo á produção agropecuária, via crédito, preços mínimos e continuidade das várias políticas em curso; b) cuidando para compensar sua oscilação devido a entressafras com políticas adequadas de estoques reguladores e; c) reduzindo a intermediação de atravessadores, procurando aproximar produtores de consumidores, que é política exitosa em vários municípios. Esse tipo de inflação escapa, da mesma forma que a de serviços, do controle do BC.

Finalmente, o terceiro importante componente são os preços monitorados, que dependem do governo. Eles são responsáveis por cerca de um quinto da inflação. Cresceram acima dela por 11 anos seguidos (1996 a 2006) e, a partir de 2007, estão sendo contidos, contribuindo para segurar a inflação. Nos últimos quatro anos, cresceram na média anual 3,6%, contribuindo com 0,7 ponto porcentual para a inflação. O controle da inflação dos preços monitorados está sendo feito com mão de ferro do governo federal à custa da Petrobrás e Eletrobrás, que foram entupidas de dívidas e de juros, ou seja, desviando recursos para fora de suas finalidades. Esse tipo de inflação também independe da ação do Banco Central.

Como a inflação média nos últimos quatro anos foi de 6,0%, os três componentes acima, que vale repetir, independem da ação do Banco Central, responderam por 5,7 pontos porcentuais, ou seja, por 95% da inflação. O conjunto dos demais preços dos bens comercializáveis, e que sofrem forte concorrência externa, acrescentaram apenas 0,3 ponto porcentual à inflação nos últimos quatro anos. Enquanto isso, dois candidatos propõem a independência do BC. Não creio ser essa a questão central. A discussão é mais profunda e novas formas de controle da inflação se impõem, e independem do BC.

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