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Eleições no Brasil complicam negociações petrolíferas na Bolívia

A situação política do presidente Evo Morales, da Bolívia, é cada vez mais complicada. Como se não bastassem os problemas internos, como a ameaça nesta terça-feira dos governos de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando, da região denominada "media luna", (meia lua em português), de desobedecer a Constituição, há ainda a realização do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil como mais um componente que pode influenciar os prazos das negociações do governo boliviano com as petrolíferas sobre o preço do gás.O líder da oposição de direita na Câmara dos Deputados daquele país, Fernando Messmer, chegou a levantar dúvidas sobre a suposta dilatação das negociações bilaterais. Em declarações à imprensa boliviana, Messmer disse que a "Bolívia não terá mais opção a não ser ampliar o prazo para assinar os novos contratos". Essa situação poderia atrasar ainda mais a nacionalização dos hidrocarbonetos e provocar a perda de mais pontos no índice de popularidade de Morales.Em maio, Morales tinha a aprovação de 81% da população, mas esse número já caiu para 52%, conforme pesquisa divulgada no dia 29 de setembro último, pela consultoria Apoio, Opinião e Mercado Bolívia. No entanto, o acadêmico Luis Tapia, da Universidade Mayor de San Andrés, de La Paz, ponderou que "embora a percepção geral seja a de que ambos países mantêm uma negociação política, é importante marcar que a lógica dos negociadores da Petrobras não é estritamente política, pelo contrário".Em entrevista à AE, em Buenos Aires, onde participa de um seminário sobre a América Latina, Tapia disse "que apesar de existir uma percepção, pelo lado do governo boliviano, de que Lula seria melhor para negociar com a Bolívia, o resultado das eleições não deveria interferir na negociação técnica". O cientista político argentino, Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria, também opina que uma postergação das negociações não seria pela indefinição eleitoral do Brasil. "Se posterga a negociação do gás é um problema para ambas partes", afirmou à AE."A dinâmica da interna boliviana tem causas próprias e o apoio de (Hugo) Chávez (presidente da Venezuela), vai permitir a Morales continuar postergando a crise, independentemente do que suceda no Brasil", detalhou. Uma fonte diplomática explicou que um adiamento do prazo fixado por Morales corre o risco de "não ser bem visto pela população e o índice de popularidade cair ainda mais". A fonte acredita que Morales tentará "amarrar as negociações com o atual governo e evitar o desgaste de um novo adiamento".O prazo dado por Morales para que as transnacionais petrolíferas firmem os novos contratos vence no dia 28 próximo, um dia antes da votação no Brasil. A possibilidade de uma eleição do candidato oposicionista Geraldo Alckmin, do PSDB, é vista com "preocupação" pelo governo boliviano, segundo fonte diplomática desse país. "Já se sabe que a posição do candidato opositor é mais dura em relação à Bolívia e nessa segunda etapa da campanha, Lula também poderia endurecer sua postura", disse a fonte.Esse provável recrudescimento da política externa do Brasil em relação aos países vizinhos é objeto de debate entre os acadêmicos reunidos no seminário da Universidade de San Martin. O cientista político uruguaio Gerardo Caetano, afirmou que a decisão das eleições é "fundamental" não só para a Bolívia mas para a América do Sul. "Para o Mercosul e a América do Sul em geral, não é o mesmo que o Brasil seja governado por Lula ou por Alckmin", disse Gerardo Caetano, da Universidade da República, de Montevidéu. Ele disse que "em termos estratégicos, a derrota de Lula é ruim para todos os países integrantes do Mercosul".Lula foi acusado por Alckmin de manter uma atitude "submissa" diante da Bolívia quando o Exército boliviano ocupou os campos da Petrobrás naquele país. Com um discurso contemporizador, Lula prefere o diálogo e o fortalecimento das relações com os países vizinhos e, para tanto, utilizou uma política de concessões durante seu mandato. Uma política amplamente criticada pela oposição, que defende a união do Brasil com os países mais desenvolvidos.ArgentinaEssa diferença de propostas tem provocado muitas discussões não só entre os analistas e acadêmicos argentinos, mas principalmente no governo. Néstor Kirchner passará pelo crivo eleitoral no próximo ano, em outubro de 2007, e até o momento é imbatível nas pesquisas de opinião. Kirchner lançou a voz aos quatro ventos em defesa da reeleição do "companheiro" Lula, como costuma referir-se ao presidente brasileiro.O subsecretário de Integração Econômica Americana e Mercosul, Eduardo Sigal, deixou evidente a inquietude do governo com o resultado do primeiro turno ao dizer que "não há nenhuma dúvida da conveniência de que ganhe Lula. (O presidente Nestor) Kirchner disse, e esse mesmo clima é percebido em todo o governo", afirmou, horas depois do fim da votação, no domingo.

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