Eleitores de Tsipras felizes por desafiarem União Europeia

Eleição de Samaras não contagia, mas há um misto de decepção e orgulho por desempenho do candidato radical

ATENAS, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2012 | 03h02

Antonis Samaras se tornará o novo primeiro-ministro da Grécia apesar do desprezo da maior parte da opinião pública do país por sua personalidade. Esse sentimento de indiferença pelo futuro chefe de governo era claro ontem em Atenas mesmo entre eleitores da Nova Democracia (ND), muito pouco entusiasmados com seu discurso, que mescla austeridade e xenofobia.

Por outro lado, os eleitores de Alexis Tsipras se mostravam orgulhosos pelo desempenho da esquerda radical, que pôs a União Europeia (UE) contra a parede durante um mês e 11 dias.

Em Atenas, a vitória de Samaras não contagiou a população grega. A prova disso é que nenhuma festa de grande amplitude foi organizada nas maiores praças da cidade, como Syntagma e Omonia, ambas no centro da capital. Só os militantes do ND organizaram uma recepção ao futuro primeiro-ministro.

A falta de paixão pela personalidade de Samaras era clara entre os gregos nas seções eleitorais de Atenas ontem. Em frente a uma escola pública de prestígio, próxima ao bairro diplomático, o grego Dewan, que pediu para não revelar o seu sobrenome, foi incisivo ao explicar o seu voto.

"Sempre fui Nova Democracia. Não votei para Samaras em si, mas para o partido", disse ele, justificando-se por ainda assim ter escolhido o conservador: "Estamos assustados, e não acho que uma vitória de Tsipras fará bem para a Grécia".

Christina, 42 anos, funcionária de um banco multinacional demitida há um mês após 22 anos de trabalho, também disse ter votado no ND, mas apenas para evitar que Tsipras vencesse a eleição. "Muitos gregos votam no Nova Democracia, mas não gostam do seu líder", explicou, referindo-se a Samara. Ela demonstrava muita desilusão em relação ao país. "Eu não tenho nenhuma esperança. Os gregos são corruptos até as tripas, infelizmente."

Apostos Bousgolitis, engenheiro aposentado de 77 anos, disse ter deixado o Nova Democracia para trás pela primeira vez em sua vida. Ele escolheu o Laos, partido fascista que não chegou a alcançar 3% do eleitorado e não vai ingressar no Parlamento em razão da cláusula de barreira. "A Nova Democracia é corrupta e Samaras, insuportável."

Entre os eleitores de Tsipras, a tristeza pela derrota era evidente, mas com orgulho por ter feito a União Europeia perceber o recado. A mensagem virou primeira página de hoje do jornal britânico The Guardian, que advertiu em manchete: "Greece gives Europe a chance", ou "Grécia dá uma chance para a Europa" - e não o contrário.

Kostis Parikos, 36 anos, também funcionário de um banco, explicou que sempre votou em partidos de esquerda, mas pela primeira vez escolheu o Syriza, ainda que não morra de amores por Tsipras. "Acho que nós seremos castigados de alguma forma por termos votado tão à esquerda", suspeita.

Outro novo eleitor do Syriza foi o comerciante Nikos Papadeordriou, que se mostrava contente com a escolha feita, apesar da derrota. "Temos de procurar algo novo, e por isso estamos votando no Syriza. É preciso dizer à senhora Merkel que não somos preguiçosos ou vagabundos. Eu não aceito que me digam que não pago meus impostos ou não trabalho, porque não é verdade", disparou, referindo-se às declarações ou insinuações frequentes de dirigentes europeus.

Outro que parecia satisfeito com o resultado do partido era Kostis Damianakis, doutor em microbiologia e tradutor que viveu no Brasil e trabalhou ao lado de movimentos sociais como o MST. "Sempre que votei na Grécia, votei pelo Syriza", disse ele, ainda com esperança de vitória, mas já com algum conformismo. "De um dia para o outro, não se consegue fazer a revolução social de que o país precisa."

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