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O Watson, aposta da IBM para entrar no mercado de inteligência artificial, começa a ser testado no mundo real

The Economist

09 de outubro de 2015 | 02h05

É uma coincidência singela que o executivo mais importante da história da IBM e o amigo e assistente de Sherlock Holmes compartilhem do mesmo sobrenome. Mas, qualquer que tenha sido a fonte de inspiração, Thomas J., ou o doutor John H., o fato é que batizar de "Watson" a mais recente incursão da empresa no ramo da "inteligência artificial" (IA), associando-a à aura de genialidade que paira sobre esse nome, foi uma decisão perspicaz.

A ideia de inteligência recebeu reforço significativo em 2011, quando o Watson venceu um episódio especial de Jeopardy!, programa de perguntas e respostas da TV americana. Com sua capacidade de compreender o inglês velocíssimo e repleto de jogos de palavras usado no programa, vasculhar gigantescos bancos de dados em linguagem natural à procura de pistas para responder às perguntas que os apresentadores faziam, sintetizar as informações e apresentá-las de maneira interativa sob a forma de respostas, o software pôs no bolso as cabeças mais afiadas que participam de competições de conhecimentos gerais nos Estados Unidos.

Aplicações. Como modelo de negócios, porém, vencer programas de televisão não justifica o investimento necessário à criação de um produto como o Watson. Num projeto-piloto que testou sua aplicação no mundo real, o Watson se saiu bem, codificando conhecimentos dos médicos e enfermeiras do Memorial Sloan Kettering Cancer Centre, de Nova York, para que possam ser usados por outros profissionais de saúde. Mas, dinheiro que é bom, o sistema ainda não gerou nenhum.

Há um ano, na expectativa de começar a lucrar com o Watson, a IBM o disponibilizou para outras empresas, permitindo a criação e comercialização de aplicativos baseados nele. Cerca de 350 empresas se cadastraram, e esse número tende a aumentar depois que, em 24 de setembro, a companhia anunciou o lançamento de um novo conjunto de ferramentas para auxiliar terceiros a desenvolver aplicações comerciais para o software. Os próximos 12 meses mostrarão, portanto, se além de craque em responder perguntas, o Watson também é bom na hora de ganhar dinheiro.

Cabeça na nuvem. Pés no chão? O cerne do modus operandi do Watson continua sendo um segredo comercial da IBM. O Watson mora na nuvem - nome dado pelo setor de tecnologia a softwares e dados que rodam e são armazenados em máquinas remotas, e não no computador do usuário -, de modo que não está disponível para os que poderiam querer copiá-lo. Mas o princípio por trás do sistema, chamado pela IBM de "computação cognitiva", é bastante conhecido. Seu elemento central é a capacidade que o software tem de se modificar a si próprio e, assim, "aprender" coisas novas à medida em que vai sendo utilizado.

O processo começa com o Watson comparando uma pergunta com um banco de dados de respostas em potencial, ao que se segue a elaboração de uma lista com as soluções possíveis. Os itens da lista são hierarquizados com base nos conteúdos de inúmeros outros bancos de dados do sistema, como enciclopédias, arquivos médicos, clipes de áudio ou imagens. Algoritmos checam a validade das informações moderam o processo, segundo a percepção de confiabilidade das fontes, e um resultado (ou, com frequência, um conjunto de resultados) é apontado como sendo o mais provável.

O passo final é dado por especialistas humanos, que avaliam e aperfeiçoam os resultados (ensinando ao software o que fazer), num processo iterativo, até que o sistema esteja suficientemente bem treinado para ganhar o mundo. Com essa finalidade, a IBM emprega equipes de linguistas, psicólogos e sociólogos, assim como programadores, mas também incentiva outras empresas a fazer o mesmo.

Rob High, diretor de tecnologia do projeto, diz que as recém-anunciadas ferramentas devem ampliar a gama de coisas que os desenvolvedores podem fazer com o Watson. Será possível, por exemplo, criar aplicativos que entendam perguntas em outros idiomas além do inglês, que estabeleçam um diálogo aparentemente inteligente (objetivo particularmente importante para os engenheiros de IA, tendo sido definido como sinal de sucesso pelo pioneiro da ciência da computação Alan Turing), que ajudem as pessoas a decidir questões como o tipo de carro que devem comprar (High diz que a IBM usou o Watson para escolher, em São Francisco, a localização da sede de sua unidade de computação cognitiva) e até para determinar o estado emocional ou a personalidade de seu interlocutor.

Clientes. Uma das primeiras empresas a adotar o Watson, a @Point of Care, de Nova Jersey, oferece a médicos aplicativos para iPad que organizam os resultados das pesquisas mais recentes sobre enfermidades específicas. Há alguns meses, os técnicos da @Point of Care treinaram o Watson para responder milhares de perguntas que médicos e enfermeiras fazem sobre sintomas e tratamentos de esclerose múltipla, câncer de pulmão e diabetes. O diretor de informação médica da companhia, Sandeep Pulim, diz que treinar o sistema para que ele ofereça respostas sobre uma doença leva cerca de 12 semanas. Depois disso, o aplicativo incorpora automaticamente os resultados das novas pesquisas que são publicadas pela comunidade acadêmica.

A Ross Intelligence, de Toronto, oferece algo parecido para advogados. O aplicativo Watson da empresa responde a perguntas sobre complexas questões legais, acrescentando citações e trechos úteis da legislação ou da jurisprudência sobre o assunto.

E serviços voltados para um público não tão especializado também começam a aparecer. O Wine4me, um aplicativo para iPhone desenvolvido pela VineSleuth, de Houston, no Texas, faz recomendações de vinhos levando em conta o gosto do freguês, seu orçamento e o prato a que a bebida acompanhará. A Go Moment, de Santa Monica, na Califórnia, usa o Watson para alimentar uma assistente virtual chamada Ivy, que auxilia hotéis a automatizar o atendimento ao cliente. A agência de empregos online UnitesUs, de Irvine, na Califórnia, recorre ao Watson para analisar as postagens dos candidatos nas redes sociais e, assim, definir seu estilo de escrita e conhecer melhor suas personalidades. Parece coisa de videntes que leem as mãos, mas a empresa diz que o artifício rende mais entrevistas de emprego.

Para ganhar dinheiro com o sistema, a IBM recorre ao simples expediente de cobrar das empresas pelo acesso ao Watson, segundo uma tabela de preços. Transcrever uma fala de um minuto custa dois centavos. Ajudar com uma decisão (como a escolha de uma garrafa de vinho), US$ 0,03. Já uma análise de personalidade sai por US$ 0,60. E uma sessão de treinamento envolvendo grande quantidade de dados fica em US$ 3.

Concorrentes. O Watson não é o único sistema de IA no mercado. Mas os concorrentes da IBM geralmente limitam suas ambições a uma única área de expertise. A Clarifai, de Nova York, associa imagens com palavras-chave. A Metamind, de Palo Alto, analisa postagens no Twitter em que há menção a marcas de produtos e emoções positivas ou negativas. Nem a Microsoft, que lançou um conjunto de ferramentas de desenvolvimento de IA este ano, arrisca-se a ir além da detecção e identificação de rostos.

O Watson, porém, parece realmente multitarefa. A IBM está até testando sua utilização para proporcionar ritmo e entonação, além dos devidos gestos não verbais, à fala de um robô humanoide. Se a proeza der certo, surge no horizonte uma possibilidade perturbadora: a de que da próxima vez que aparecer na TV, o Watson esteja entre os calouros de um programa de talentos.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL, EM INGLÊS, ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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