Ueslei Marcelino/ Reuters
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Elena Landau
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Por que o canal de denúncias interno da Caixa falhou nos casos de assédio sexual e moral?

Pelo volume de casos, é quase impossível acreditar que não fossem conhecidos no banco, mas as vítimas não se sentiram em segurança para expor suas situações de constrangimento ao responsável da ouvidoria

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2022 | 04h00

O presidente da Caixa e dois colaboradores foram afastados do cargo em razão de denúncias de assédio sexual e moral. As vítimas recorreram ao Ministério Público, e o assunto acabou na imprensa. A publicização encorajou mais funcionárias a engrossar o coro das acusações.

A pergunta que exige resposta é: por que o canal de denúncias interno falhou? Pelo volume de casos, é quase impossível acreditar que não fossem conhecidos no banco. Mas as vítimas não se sentiram em segurança para expor suas situações de constrangimento ao responsável da ouvidoria.

Os casos de assédio – sexual e moral – não se resumem às mulheres. Pedro Guimarães já deveria ter sido afastado quando obrigou seus funcionários a fazer flexões em público, visto em vídeo que viralizou nas redes.

Para incentivar a denúncia sem medo de retaliações, veio a sugestão de garantir estabilidade de emprego às mulheres que sofreram abuso. É mais uma proposta bem-intencionada que acaba por reforçar os estereótipos que discriminam a mulher no mercado de trabalho, como a extensão da licença-maternidade em lugar da licença parental obrigatória. Não é solução.

As vítimas devem ter confiança, e não medo, no órgão criado para protegê-las. Não importa se o chefe é amigo do rei. Essa é a tarefa da nova presidente. A Caixa é banco público e deve dar o exemplo.

O fenômeno é mais amplo. Uma criança de 11 anos, vítima de estupro, teve seu direito à interrupção da gravidez negado pelo Estado: médico, juíza e procuradora impuseram obstáculos ao aborto legal. Até a necropsia do feto foi pedida. Em outro caso, uma enfermeira quebrou seu compromisso profissional de confidencialidade e expôs, para uma coluna de fofocas, o drama de uma mulher que, consciente da sua incapacidade emocional de cuidar da criança, fruto de estupro, entregou seu filho para adoção. A culpa é sempre das vítimas. É o abuso de forma continuada.

Esse quadro não mudará sem a conscientização da sociedade e a responsabilização de cada um desses profissionais. Médico que recusa o atendimento a uma criança grávida, vítima de estupro, deveria saber que não precisa de autorização judicial. Mas nada acontece, seu registro será mantido, como o da enfermeira, da juíza, da procuradora e do responsável pelo canal de denúncias da Caixa. A sociedade vai perdendo a confiança na proteção que o Estado deve garantir.

Um pouco de esperança veio com a vitória de Patrícia Campos Mello contra Bolsonaro, em ação por danos morais. Não fosse a imprensa, nenhum dos casos acima teria chegado até nós. Que continuem dando furos. 

* ECONOMISTA E ADVOGADA. CONTRIBUI COM O PLANO ECONÔMICO DE SIMONE TEBET

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