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Eles estão voltando?

Leilão de aeroportos foi bom sinal. Mas falta muito para atrair investidores

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2019 | 04h00

Se o termômetro fosse apenas o mercado financeiro, poderia até simular uma elevação de temperatura da economia brasileira. Afinal de contas, apesar das confusões protagonizadas pelo governo -- que não são poucas nem desimportantes --, os investidores voltaram a cobiçar os papéis do Brasil. E a bolsa, mesmo com alguns altos e baixos influenciados principalmente pelas idas e vindas da reforma da Previdência, ronda a marca dos 100 mil pontos.

Já é mais do que sabido, porém, que os mercados obedecem a uma lógica própria e nem sempre são acompanhados pela chamada economia real. Nem mesmo aquele papel de antecipar o desempenho dos setores produtivos tem se comprovado ultimamente. 

Os indicadores mais recentes de intenção de investimentos mostram que o quadro, sob esse ponto de vista, ainda inspira preocupação. Especialmente levando-se em conta que o consumo, outro motor do crescimento, também está travado e a equipe econômica não parece disposta a ativar algum instrumento para acioná-lo a curto prazo.

O indicador de intenção de investimentos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), relativo ao último trimestre de 2018, apontou para cima, mas mantém-se bem abaixo dos níveis observados nos dois anos anteriores à recessão de 2014. Tudo indica que a melhora na confiança de empresários, detectada em pesquisas logo após as eleições, não está se convertendo em decisões de investimento. "Vamos esperar para ver" parece ser a palavra de ordem.

Contar com investimento público, nem pensar. O dinheiro do orçamento mal dá para cobrir as despesas obrigatórias: no ano passado, os gastos previdenciários e de pessoal corresponderam a cerca de 65% do total de despesas do Tesouro. Os ambiciosos programas de concessão e privatização, alardeados pelo então candidato Jair Bolsonaro, tornaram-se, assim, a grande esperança, mas compreensivelmente estão em fase de ensaio, com menos de três meses de mandato.

A avaliação geral é que, em princípio, o governo passou no teste do leilão de 12 aeroportos, na sexta-feira. Todos eles foram arrematados, numa concorrência dominada por grupos estrangeiros e com ágio médio nas proximidades de 1000%. O que, para muitos analistas, demonstraria que os preços iniciais foram subestimados. A projeção é de um rendimento para a União de cerca de R$ 2,4 bilhões e de investimentos de R$ 3,5 bilhões. De toda forma, nada mal para o mais do que carente setor de infraestrutura no Brasil.

Falta muito, porém, para que o País entre numa rodada firme de investimentos, tanto no setor público como no privado. Incerteza é o nome do jogo. Quem imaginava que, terminadas as eleições, esse fator estaria eliminado, infelizmente se frustrou. O indicador de incertezas da economia, também medido pela FGV, mostrou um recuo em fevereiro, mas continua bastante elevado. A incerteza, agora, tem outra origem: não se trata mais de qual presidente ocupará o Planalto, mas do que fará o presidente que já está no Planalto.

Para investidores do mercado financeiro, que podem calibrar suas apostas quase em tempo real, sempre há um jeito de recuperar ou pelo menos minimizar eventuais perdas. Mas, para investidores na economia real, que precisam de clareza e segurança sobre os rumos do governo e do País, a decisão de investimentos é bem mais complicada. Por isso mesmo, bem mais demorada.

O que é preciso, então, para virar esse jogo? Antes de mais nada, previsibilidade na tramitação da reforma da Previdência - e, nesse caso, há uma coincidência de interesses entre os investidores dos mercados e do setor produtivo. É consenso que a administração da Previdência é o mínimo necessário para o tal rearranjo das finanças públicas. Não o suficiente, mas o mínimo, vamos insistir. E, sem essa condição, dificilmente haverá um ambiente favorável a investimentos.

A proposta da Previdência começa nesta semana sua tramitação no Congresso e, apesar de todo o otimismo demonstrado nos discursos oficiais, o mais provável é que o caminho seja longo e difícil. Além disso, é essencial que o governo passe a imagem de que irá honrar compromissos e manter a estabilidade de regras. Por mais que os investidores não se sensibilizem com fatores "fora da sua caixinha", não há como negar que um governo atabalhoado, com propostas estapafúrdias em áreas decisivas como educação e diplomacia, não inspira confiança.

Aqui e lá fora, os olhos de investidores dirigem-se nesta semana para a mensagem que Bolsonaro passará na viagem aos Estados Unidos. A torcida geral é para que não seja apenas uma reedição de Davos.

*É JORNALISTA

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