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Eles falam, o mercado opera

O maior capital deles é credibilidade. E, nisso, estão no auge. Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), carrega agora a fama de quem conseguiu controlar um furacão, a crise financeira provocada pelo estouro da bolha das hipotecas podres.Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu (BCE) - área dos 15 países do euro -, vai-se notabilizando por ter evitado que a crise se propagasse pela Europa e por ter contribuído decisivamente pelo enorme fortalecimento do euro na condição de moeda de reserva.Quando eles falam, as montanhas se movimentam, embora nem sempre na direção prevista. E foi isso que aconteceu na semana que passou.Terça-feira, numa conferência sobre assuntos monetários realizada na Espanha, Bernanke disse, meio de passagem, que o dólar precisa ser fortalecido. O mercado entendeu que ficou para trás a temporada dos juros baixos destinados a controlar o estrangulamento do crédito (credit crunch) e a prostração dos mercados. E que o Fed se prepara para puxar outra vez pelos juros. Bastou isso para que as cotações do dólar saltassem no câmbio global e os preços do petróleo e das commodities despencassem.O economista-chefe do Unibanco, Marcelo Salomon, anotou no seu caderninho: "Aqueles que estão inflando a bolha das commodities e do petróleo estão cantando para Bernanke a música de Pat Benatar Hit me with your best shot (atinja-me com seu melhor tiro, na tradução livre)." Mas, dois dias depois, foi a vez de Trichet. Na conferência de imprensa destinada a explicar a decisão do BCE, que acabara de ser tomada, de manter os juros a 4% ao ano, afirmou que na próxima reunião do comitê monetário os juros "possivelmente" subirão. Esse "possivelmente" foi entendido como "inevitavelmente". E foi suficiente para provocar um efeito anti-Bernanke: o euro disparou ante o dólar e as cotações do petróleo e das commodities deram um tremendo solavanco.Dessa vez, não houve anotação no caderninho. Mas, sexta-feira, a cotação do petróleo em Nova York para entrega em julho, que dois dias antes estava a US$ 122 por barril, saltou para patamares recordes de US$ 139.Ficou parecendo que Bernanke e Trichet estão duelando no Velho Oeste e que, na troca de tiros, Trichet acertou o revólver do presidente do Fed.Mas não está claro que Bernanke esteja preparando a virada nos juros. A fraqueza da economia americana aponta para o outro lado. Trichet, sim, está nesse caminho. E isso tem conseqüências imediatas sobre o comportamento dos mercados.Esta coluna sugeriu durante meses que a alta do petróleo e das commodities está assentada sobre um aumento do consumo global não acompanhado pelo aumento da oferta global. Mas tem repetido, também, que isso não é tudo. Os especuladores estão claramente pegando carona nesse fundamento para fazer o seu jogo. O problema é que é difícil separar efeito da fome do efeito da vontade de comer. Em resumo, a novidade é a de que o mercado financeiro inaugurou nesta semana novo padrão de comportamento. Deixou de reagir à crise e passou a reagir, cada vez mais irracionalmente, a qualquer fato, pronunciamento e até mesmo a nada em especial.

Celso Ming, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2008 | 00h00

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