Eles querem unir ideal e lucro

Os negócios sociais, que buscam melhorar o mundo sem abrir mão da rentabilidade, crescem no País e chamam a atenção de investidores

Marina Gazzoni, de O Estado de S.Paulo,

24 de outubro de 2011 | 10h33

SÃO PAULO - Os empresários Oliver Mizne e Carlos Furlan uniram a vontade de resolver um problema social a uma oportunidade de negócios capaz de tornar suas carreiras mais gratificantes. Em 2001, eles deixaram o mercado financeiro para criar a Ideal Invest, financeira que vende um sistema alternativo de crédito universitário. Nos últimos cinco anos, a empresa emprestou R$ 250 milhões a 20 mil estudantes brasileiros.

A Ideal Invest faz parte de um grupo de empresas que nasce com um objetivo maior do que o lucro. São negócios sociais, que buscam melhorar as condições socioeconômicas de populações menos favorecidas sem abrir mão da rentabilidade. No Brasil, esse setor é conhecido como "dois e meio", pois mistura a visão estratégica das empresas privadas com objetivos similares aos das ONGs. Estima-se que existam 140 empreendimentos do gênero no País, segundo um levantamento coordenado por três instituições ligadas ao setor - Potencia Venture, Fundação Avina e Ande Polo Brasil.

Os negócios sociais já despertaram a atenção dos fundos de investimentos. Segundo um estudo do JP Morgan, eles devem receber aportes de até US$ 1 trilhão até 2020. O banco estima que o potencial de rentabilidade do setor possa chegar a US$ 667 bilhões no fim desse período.

Pioneiro. A primeira grande iniciativa no mundo é do vencedor do Nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus. Ele criou em 1976 o banco Grameen, em Bangladesh, para emprestar dinheiro a populações carentes. Foi assim que nasceu o microcrédito. Desde então, o banco já liberou US$ 11 bilhões para mais de 8 milhões de pessoas.

O modelo do Grameen foi a principal inspiração do carioca Rodrigo Baggio para lançar uma empresa social. O empresário, que havia fundado uma ONG de inclusão digital há quatro anos foi convidado pelo próprio Yunus para conhecer as atividades do Grameen, em Bangladesh. "Voltei decidido a montar um negócio social no Brasil", diz.

Baggio pediu - e ganhou - uma consultoria da McKinsey para montar um plano de negócios. Foi assim que surgiu a CDI Lan, uma empresa que usa o espaço de 6.500 lan houses para oferecer produtos a comunidades carentes. O Banco do Brasil, por exemplo, transformou algumas lan houses em correspondentes bancários. Elas ganham comissão, a CDI recebe pela ativação do serviço e o banco tem um canal de vendas dentro das favelas.

A CDI Lan nasceu como uma divisão da ONG, mas é uma sociedade anônima desde o início do ano. Ela vendeu 25% de participação ao fundo Vox Capital em troca de um aporte que pode chegar a R$ 550 mil. A companhia não divulga o faturamento, mas diz que já opera no azul.

Encontrar o caminho da rentabilidade nem sempre é fácil. "A maioria das empresas nasce com a ideia de resolver um problema social e depois procura um modelo de viabilidade", diz Renato Kiyama, gerente da Artemisia, entidade que dá consultoria para empreendedores. Uma das empresas que passaram pela aceleradora de negócios da Artemisia foi a Solidarium. Ela vende produtos artesanais, feitos por pequenos produtores, para gigantes como Walmart, Lojas Renner e Tok&Stok. "Começamos com uma loja no shopping, mas como a marca não era conhecida, quase falimos", diz o CEO e fundador, Tiago Dalvi.

A solução foi vender sob encomenda. Neste ano, a empresa deve faturar entre R$ 500 mil e R$ 700 mil - e lucrar 12% disso. Mas não ganhou sozinha. "A renda dos produtores está entre um e 1,5 salário mínimo. Mas, antes de entrar no projeto, a maioria vivia abaixo da linha da pobreza (menos de US$ 2 ao dia)", diz Dalvi.

A marca francesa Veja, que produz tênis no Brasil com algodão cearense e borracha da Amazônia, aboliu a publicidade para conseguir viabilizar um modelo de "comércio justo"competitivo. "O nosso custo de produção é de três a quatro vezes maior que o de outras marcas por atender questões de dignidade social e ambiental", diz o diretor de comunicação da companhia, Hugo Charbit. Em 2010, foram fabricados no Brasil 120 mil pares, em um processo que envolve cerca de 360 famílias produtoras.

O tênis é vendido na Europa por um preço médio 100. O sucesso, no entanto, não é atribuído ao apelo social. "Não é caridade. Vendemos em lojas onde pessoas normalmente compram seus sapatos e não apenas para o público que responde a apelos sociais", diz Charbit.

Iogurte. O apelo "politicamente correto, mas sem prejuízo" já atraiu grandes empresas. Uma das primeiras a criar uma divisão de negócios sociais foi a Danone, que estreou no segmento em 2006, em parceria com o Grameen. A empresa criou uma fábrica em Bangladesh para fazer o iogurte Shokti +, enriquecido em nutrientes para crianças subnutridas. Cada pote de 60 gramas sai por menos de US$ 0,10. No ano passado, a empresa vendeu 72 mil itens por dia no país.

Os empreendimentos sociais da Danone estão em seis países, mas não chegaram ao Brasil. Por aqui, o potencial é grande. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mais de 100 milhões de pessoas vivem com menos de R$ 465 por mês.

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