Eles se recusam a participar do Facebook

Prestes a fazer seu IPO, a rede social gaba-se da sua quantidade imensa de usuários, mas muita gente quer se manter longe do site

Jenna Wortham, The New York Times,

19 de dezembro de 2011 | 03h06

 

 

Tyson Balcomb saiu do Facebook após um encontro casual no elevador. Ele se viu ao lado de uma mulher desconhecida - apesar de, por meio do Facebook, saber como era a aparência do irmão mais velho dela e que ela era de uma pequena ilha na costa de Washington. "Eu sabia tudo aquilo a respeito dela, mas nunca tinha conversado com a moça", disse Balcomb, que cursa os a faculdade de medicina em Oregon e, por acaso, tinha amigos que estavam entre as amizades da tal moça. "Naquele momento, pensei: é uma situação pouco saudável."

Conforme o Facebook se prepara para uma esperadíssima oferta pública inicial, a empresa está ansiosa para exibir a força acumulada valendo-se da sua imensa quantidade de participantes: mais de 800 milhões de usuários ativos em todo o mundo, de acordo com o próprio Facebook, sendo 200 milhões nos Estados Unidos, o equivalente a dois terços da população do país.

Mas a empresa está prestes a enfrentar um bloqueio nos EUA. Algumas pessoas, mesmo entre os mais jovens, simplesmente se recusam a participar do site, incluindo gente que já experimentaram a rede social.

Um dos principais chamarizes do Facebook está no fato de ele construir elos de maior proximidade entre amigos e colegas. Mas alguns daqueles que se mantêm longe do site dizem que ele pode surtir o efeito oposto, levando-os a se sentirem mais alienados, e não menos.

"Deixei de telefonar para os amigos", disse Ashleigh Elser, 24 anos, estudante de pós-graduação em Charlottesville, Virgínia. "Via as fotos deles e acompanhava suas atualizações, tinha a sensação de estar ligada a eles."

Exílio. É verdade que a vida longe do Facebook traz suas desvantagens numa era em que as pessoas anunciam na rede todo tipo de grande marco em suas vidas. Ashleigh perdeu compromissos e fotos de bebês recém nascidos. Mas nada disso machucou tanto quanto a distância entre ela e seus amigos que diz ter sido criada por seu perfil no Facebook. Assim, decidiu fechar o perfil.

Muitos dos que optam pelo exílio citam preocupações relacionadas à privacidade. Aqueles que estudam as redes sociais dizem que esse aspecto é uma questão de confiança. Amanda Lenhart, diretora de pesquisas envolvendo adolescentes, crianças e famílias a serviço do Pew Internet and American Life Project, disse que as pessoas que usam o Facebook tendem a apresentar "uma confiança generalizada nos demais e nas instituições". Ela acrescentou: "Algumas pessoas decidem não usar a rede social porque temem aquilo que poderia acontecer."Amanda observou que aproximadamente 16% dos americanos não têm celulares. "Sempre haverá pessoas que recusam uma determinada novidade", disse ela.

Os executivos do Facebook dizem não esperar que todos os habitantes dos EUA criem perfis na sua rede social. Em vez disso, trabalham no sentido de descobrir maneiras de manter as pessoas no site por mais tempo, algo que confere à empresa mais oportunidades para mostrar anúncios aos usuários. E o avanço mais expressivo para a empresa está agora em lugares como a Ásia e a América Latina, onde acreditam haver pessoas que ainda não ouviram falar no Facebook.

"Nossa meta é oferecer às pessoas uma maneira relevante, divertida e livre de se conectar aos amigos, e esperamos que isso so é atraente para um público amplo", disse Jonathan Thaw, porta-voz do Facebook.

Mas os números que mostram o crescimento da empresa nos Estados Unidos são um dado forte. A quantidade de americanos que visitaram o Facebook aumentou 10% no período de 12 meses encerrado em outubro - uma queda em relação à alta de 56% registrada no ano anterior, de acordo com a comScore, empresa que acompanha o tráfego de usuários na internet.

Ray Valdes, analista da Gartner, disse que essa desaceleração não representava uma questão crucial antes da oferta pública inicial da empresa, que pode ocorrer no primeiro semestre de 2012. De acordo com ele, o importante é a capacidade do Facebook de manter seus milhões de usuários entretidos, fazendo-os usar o site com frequência.

"É provável que estejam mais preocupados com a possibilidade do desgaste do poder de atração da novidade", disse Valdes. "Trata-se de um problema que eles buscam resolver continuamente e para o qual não existe solução permanente."

Pressão. Independente das críticas, os rebeldes dizem que sua opção de ficar fora do Facebook costuma ser um tema polêmico - assim como deve ter sido a decisão de não comprar uma TV em uma era midiática anterior.

"As pessoas sempre erguem a sobrancelha", disse Chris Munns, de 29 anos, que trabalha como administrador de sistemas em Nova York. "Mas, mesmo sem participar da rede, minha vida continuou normalmente." A pressão vinda dos pares, porém, só vai aumentar. Susan Etlinger, analista da Altimeter Group, disse que a sociedade adota novos comportamentos e expectativas em resposta à quase onipresença do Facebook e de outras redes sociais.

"Pode ser que, ao se depararem com alguém que não esteja nos canais sociais, as pessoas perguntem, 'Por que não? Você tem algo a esconder?'", disse ela. "As normas estão mudando."

Este tipo de raciocínio funciona em ambos os sentidos para aqueles que resistem ao Facebook. Munns disse que sua vida romântica foi beneficiada pela ausência de um dossiê online a seu respeito: "As garotas não têm a oportunidade de investigar toda a minha vida no Facebook antes de um encontro".

Mas Erika disse que esse tipo de investigação era a única coisa que a levava a precisar do Facebook. "Quando estou interessada em alguém, peço às amigas que olhem o perfil dele para mim", disse Erika. "Mas a coisa para por aí." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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