Eletrobrás prevê tarifa baixa em Xingu

Segundo engenheiro, energia gerada em Belo Monte será mais barata que a das hidrelétricas do Rio Madeira

Irany Tereza e Nicola Pamplona, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2008 | 00h00

A hidrelétrica de Belo Monte, na região do Xingu, alvo de intensa polêmica entre ambientalistas e autoridades do setor elétrico, poderá ser licitada com tarifa ainda menor do que a de Jirau, no Rio Madeira, que surpreendeu o mercado. "É uma energia muito mais barata que a do Madeira, por causa das características da região", afirmou ao Estado o coordenador do projeto, o engenheiro Paulo Fernando Rezende, da Eletrobrás. Rezende, que há duas semanas foi atacado por índios caiová quando fazia, em Altamira (PA), a apresentação do projeto, acredita que o governo poderá licitar a obra já no fim de 2009, com as primeiras turbinas começando a gerar energia em 2015. O projeto, no entanto, enfrenta forte resistência de organizações ambientais, que temem a profusão de hidrelétricas no Xingu e a redução da vazão que será provocada pela barragem de Belo Monte. "É o melhor projeto de geração que a gente tem", defendeu Rezende.Segundo ele, a grande vazão do Xingu e o desnível na região da barragem, que chega a 90 metros, garantem uma geração de energia altamente competitiva. Belo Monte tem potência máxima de 11,1 mil megawatts (MW), mas só assegura ao mercado uma potência média de 4,7 mil MW durante o ano. Isso porque a variação de vazão entre o período de chuvas e o período de seca é enorme.O projeto de Belo Monte foi avaliado em US$ 3,5 bilhões em 2001, quando foi aprovado em decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Na época, a cotação do dólar estava em R$ 2,31. O custo do projeto certamente aumentará quando for batido o martelo para a licitação. Rezende não sabe especificar em quanto, mas a perspectiva é de que o valor mais do que dobre. Segundo o engenheiro, o incidente com os índios pode atrasar um pouco mais o projeto, mas não foi feita nenhuma alteração no cronograma.A Eletrobrás afirma que o projeto não vai provocar a inundação de terras indígenas, mas admite que duas etnias sentirão o impacto da redução de vazão do Xingu no trecho conhecido como Volta Grande, que fica logo depois de uma das barragens - segundo o projeto, a barragem principal fica em uma variante do rio, que será desviado. De acordo com Rezende, quanto mais água for desviada, maior a capacidade de geração do projeto: um metro cúbico de água que passa pela variante gera sete vezes mais energia do que na barragem da Volta Grande.A questão ainda será discutida com as comunidades indígenas, mas é motivo de grande preocupação entre ambientalistas. "Eles vão querer desviar o máximo de água possível para garantir a viabilidade da usina. Mas é preciso discutir os impactos sobre peixes e transportes na Volta Grande, que ficará seca", diz Raul do Valle, coordenador do Instituto Socioambiental (ISA), um dos organizadores do encontro onde Rezende foi atacado. Ele destaca, ainda, que o governo não se comprometeu a não construir outras usinas no Xingu, conforme planejado no passado. "O novo projeto diz que apenas Belo Monte vai ser construída, mas quem garante que não será apenas a primeira? Estudos mostram que a viabilidade de Belo Monte é bastante comprometida se não houver outras usinas", argumenta.

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