Eletrobrás só patina no plano de ser ''Petrobrás''

Estatal quer sair do cálculo do superávit primário para poder investir

Suely Caldas, RIO, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2009 | 00h00

Dois anos depois de anunciar que fará da Eletrobrás uma estatal eficiente, gigante e lucrativa como a Petrobrás, o governo deu passos muito lentos nesta direção. Por enquanto, só há intenções e projetos no papel, nenhuma obra nova; alguma melhoria no resultado financeiro de três das seis distribuidoras de energia do Norte e Nordeste, cronicamente deficitárias; e início da negociação de ações do tipo ADR2 na Bolsa de Nova York, desde 31 de outubro passado, com poucos negócios. Alcançar a marca de uma Petrobrás, avaliada em R$ 285 bilhões, o dobro de seu patrimônio líquido (R$ 144 bilhões) é hoje um sonho distante para uma Eletrobrás que tem valor negativo de R$ 26 bilhões, 3,3 vezes menor que seu patrimônio (R$ 86 bilhões).Há pelo menos três décadas atuando sob influência política, antes do falecido senador Antonio Carlos Magalhães e hoje do senador José Sarney (PMDB) e do PT, a Eletrobrás não consegue se livrar dos dois maiores problemas que abalam sua imagem, freiam seu progresso e contribuem para desvalorizá-la: a politização da gestão das empresas do grupo e um estoque de dividendos há 30 anos retidos, avaliado hoje em R$ 10 bilhões e que afugenta potenciais investidores interessados em ações da empresa.Há um ano e dois meses na presidência da Eletrobrás, o engenheiro José Antonio Muniz tem mais de 40 anos de experiência no setor elétrico - comandou as subsidiárias Eletronorte e Chesf - e sua nomeação recebeu a bênção entusiasmada de Sarney. Ele meio que nega, confirmando: "Sou amigo do presidente Sarney, mas quem me indicou foi o ministro Lobão. Lógico, depois de consultar Sarney". Disposto a concretizar a missão de repetir o desempenho da Petrobrás, Muniz escolheu como prioridade neste momento tirar a Eletrobrás do cálculo do superávit primário, o que lhe faria sobrar R$ 1,6 bilhão. "É com esse dinheiro que quero começar a pagar os dividendos atrasados", diz. Ao ser lembrado que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se opõe a tirar a Eletrobrás do superávit primário, argumentando que a empresa não é lucrativa, não tem gestão eficiente, nem boa governança, Muniz responde convicto: "Não sei porque ele diz isso, acho que não conhece. Tenho apoio do presidente Lula, dos ministros Lobão, Paulo Bernardo e Dilma Rousseff. Isto me basta". POLITIZAÇÃO DAS ELÉTRICAS"A indicação é política, mas o diretor é técnico. O único diretor político na Eletrobrás é o ex-prefeito Miguel Colassuono e aqui não há politicagem", explica Muniz, nomeando um a um os diretores e seus padrinhos. Nas subsidiárias, ele admite haver "politicagem" só em Furnas, onde a diretoria é rateada entre PT e PMDB. Ele quis trocar dois diretores do fundo de pensão da empresa e só desistiu porque os funcionários sensibilizaram o presidente Lula, ameaçando entrar em greve. José Antonio Muniz reconhece haver indicações políticas nas demais subsidiárias, mas ressalva: "Qual o problema da indicação política? Na Eletrosul, o presidente é ex-marido da senadora Ideli Salvatti (PT) e na Eletronorte o deputado Jader Barbalho (PMDB) nomeou o presidente Jorge Palmeira. Mas os dois são técnicos", tentando ignorar a sistemática troca de favores entre o nomeado e o partido que o indicou. O primeiro ato legal do governo federal para mudar a Eletrobrás foi uma medida provisória, de 11 de março de 2008, que ampliou os poderes da estatal e autorizou-a a atuar no exterior. Segundo Muniz, desde então a diretoria vem negociando parcerias na África, Peru e Argentina. Mas, até o momento, não há projeto em execução. "A MP definiu um novo modelo de atuação da Eletrobrás. Se, no governo FHC, estava condenada a morrer porque todas as subsidiárias geradoras seriam privatizadas, agora ela ganhou força de holding, com a subordinação de todas as geradoras e o poder de operar em outros países", explica Muniz. Enquanto as distribuidoras privadas só registraram lucros após a privatização, as seis estaduais sob intervenção da Eletrobrás (Manaus, Alagoas, Acre, Rondônia, Roraima e Piauí) há anos apresentam prejuízos crescentes. Focos de corrupção e de uso político eleitoral dos governadores, o presidente da Eletrobrás reconhece que organizá-las e prepará-las para melhorar seus resultados implicava "afastar a gestão dos governadores". Acabou com as diretorias regionais e nomeou uma diretoria única para todas, presidida por Flávio Decat e com sede no Rio de Janeiro, longe do poder político local. Em 2008 três delas (Manaus, Alagoas e Acre) já começaram a dar pequenos lucros. Estarem sob a guarda da Eletrobrás, influenciando negativamente seu resultado financeiro, é mais um obstáculo para a estatal alcançar a meta de gestão eficiente, atrair investidores e tornar-se uma empresa pública como a Petrobrás. Agora o governo federal quer entregar para a Eletrobrás mais uma e a pior delas - a do Amapá (CEA), cuja concessão a Aneel já pediu caducidade, não concedida pelo governo Lula por pressão do senador José Sarney (PMDB-AP). Há anos a CEA não paga a energia que recebe da Eletronorte, a dívida já soma R$ 560 milhões e a tendência é só crescer. Muniz diz que só aceita receber a CEA se "alguém assumir a dívida". Ou seja, o Tesouro, o contribuinte brasileiro. FRASESJosé Antonio MunizPresidente da Eletrobrás"Sou amigo do presidente Sarney, mas quem me indicou foi o ministro Lobão. Lógico, depois de consultar Sarney""A indicação é política, mas o diretor é técnico. O único diretor político na Eletrobrás é o ex-prefeito Miguel Colassuono e aqui não há politicagem"

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