Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Eletrobrás vai cortar ponto de grevistas; sindicatos veem retaliação

Com a paralisação, funcionários quiseram demonstrar insatisfação com a fala do presidente da estatal, que chamou parte da chefia da empresa de 'vagabundos'

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2017 | 19h40

RIO - A Eletrobrás vai cortar o ponto dos funcionários que participaram de paralisação de 24 horas na quinta-feira, 22. O corte foi informado informalmente aos empregados e confirmado por uma fonte da empresa que não quis ser identificada. Sindicalistas enxergam na medida uma retaliação ao vazamento de áudios em que o presidente da companhia, Wilson Ferreira Júnior, chama de "vagabundos" e "safados" gerentes da estatal, como divulgado com exclusividade pelo Broadcast/Estado.

No áudio, o presidente diz que 40% das chefias da Eletrobrás "não servem para nada" e que a "sociedade não pode pagar por vagabundo, em particular, no serviço público". A gravação percorreu as redes sociais dos funcionários, o que levou Ferreira Júnior a recorrer à TV Eletrobrás para se desculpar com os funcionários, nesta semana.

Ouça: 

"Eu me desculpo com os nossos colegas, porque uma empresa como a nossa não é feita pelos adjetivos que eu qualifiquei de forma excepcional. Mas temos que dar os exemplos, para que aquele tipo de situação que chega aqui toda semana em nossa diretoria seja cada vez mais uma exceção e que a nossa ação e superação tragam os adjetivos que fizeram essa grande empresa, da qual me orgulho muito", diz o executivo.

No mesmo vídeo, no entanto, ele critica as mobilizações sindicais contrárias à reestruturação interna da sua gestão. "Quando eu vejo manifestações... nós vamos judicializar o PAI (Programa de Aposentadoria Incentivada), nós não permitimos que tenha privatização, nós achamos que essa venda de SPEs (Sociedades de Propósito Específico) é uma bobagem. Fico preocupado", afirma Ferreira, referindo-se às posições dos sindicatos. 

Com a paralisação na quinta-feira, os empregados buscaram demonstrar indignação à fala do presidente da Eletrobrás, gravada sem que ele soubesse durante uma reunião em que o tema era a reestruturação da empresa, no início deste mês. Além disso, os sindicatos reclamam participação no processo de reestruturação interna, que prevê o desligamento de 11 mil funcionários, quase a metade dos 23 mil que compõem o quadro total do grupo.

"Qualquer mudança na estrutura interna tem que ser negociada com os sindicatos. Essa não é uma vontade nossa. É uma determinação do acordo trabalhista", diz o diretor do Sindicato dos Eletricitários do Estado do Rio de Janeiro e Região (Sintergia) e da Associação dos Empregados da Eletrobras (Aeel), Emanuel Torres.

Durante o vídeo gravado para os empregados, o presidente também reclama da falta de diálogo. "Para um sindicato falta conversa. Nós precisamos conversar mais", diz. Em seguida, afirma que os planos de incentivo à demissão têm sido cada vez piores e que a adesão deve ser avaliada por cada funcionário. "O próximo será pior do que esse, porque estamos em uma situação de fragilidade financeira. Não sei nem se teremos", acrescentou o executivo. Esse trecho foi interpretado por funcionários como pressão para que deixem a empresa.

O atual programa de incentivo a demissões é voltado aos funcionários em idade de aposentadoria. O incentivo é de 0,65% da remuneração por ano trabalhado por até 35 anos. Também são oferecidos 40% do saldo do FGTS, verbas rescisórias e plano de saúde por 60 meses.

Atualmente, a diretoria da Eletrobrás e sindicalistas ainda negociam o pagamento da participação no lucro de R$ 3,4 bilhões de 2016. A empresa propôs pagar em duas parcelas - metade em setembro e o restante em dezembro. Mas os empregados reivindicam antecipar a primeira parcela. Segundo a Aeel, há indicação de novas paralisações para as próximas quarta e quinta-feira, 28 e 29, já aprovadas em assembleias com os empregados da controladora, Furnas, Chesf e Eletronorte.

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