Eletrônicos ultrapassados podem virar matéria-prima

Crescimento do mercado de PCs e celulares demanda atenção sobre lixo

Renato Cruz, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

Este ano, devem ser vendidos no Brasil 10,1 milhões de microcomputadores, ultrapassando, pela primeira vez, o total de televisores comercializados. Segundo projeção da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), a venda de celulares chegará a 48,8 milhões de unidades. O aumento no número de linhas móveis durante o ano, no entanto, deve ficar em 18 milhões. Isso quer dizer que mais de 30 milhões de aparelhos antigos serão descartados. Para onde vão todos esses telefones velhos?O avanço do mercado de tecnologia traz um efeito colateral, que é o acúmulo do lixo eletrônico. Segundo o Greenpeace, são produzidos cerca de 50 milhões de toneladas por ano, em todo o mundo. Muitos equipamentos contêm substâncias tóxicas, como chumbo, mercúrio e cádmio. Países em desenvolvimento, como a China e a Índia, recebem lixo eletrônico de países desenvolvidos, o que coloca em risco a saúde da sua população.O ciclo de obsolescência dos eletrônicos é cada vez mais rápido. Com o crescimento do mercado brasileiro, existem empresas que encontraram aí uma oportunidade, oferecendo reciclagem para grandes fabricantes. Uma delas é a Oxil (lixo ao contrário), de Paulínia (SP). A companhia tem nove grandes clientes, dos quais não revela os nomes por motivos contratuais, e processa 2 mil toneladas de produtos por ano."Conseguimos reciclar 99,7% do material", afirmou Talita Ancona de Paula, analista ambiental da Oxil. O processo de transformar equipamentos fora de uso em matéria-prima é chamado de "manufatura reversa". A Oxil surgiu há 9 anos, a partir da necessidade de um fabricante de dar um fim ambientalmente responsável a produtos defeituosos ou obsoletos.A alternativa, que seria o envio dos equipamentos para um aterro sanitário, pode prejudicar a saúde das pessoas. "Alguns equipamentos, como monitores de tubo, têm chumbo", explicou Talita. "Se forem depositados num aterro, existe risco de contaminação do solo e da água." Os parceiros da Oxil repassam para a empresa principalmente equipamentos com defeito e que estão saindo de linha. Os contratos para reciclar aparelhos usados ainda são poucos.A Oxil dá alguns exemplos do que é possível fazer com o lixo eletrônico: um CD se transforma em cabide, o pó do toner da impressora vira pigmento para cabo de panela, o PVC dos fios do computador é reaproveitado na fabricação de sola de sapato e o vidro do monitor é empregado na vitrificação de pisos cerâmicos. As placas de circuito impresso e os microprocessadores são triturados e enviados para a Alemanha, onde uma empresa especializada separa os metais preciosos do material."Grandes recicladores internacionais já mostram interesse pelo Brasil", afirmou Hugo Valério Jr., diretor de Informática da Abinee. Ele afirmou que, por aqui, não existem muitos computadores indo para o lixo. "Como o País é carente de inclusão digital, as máquinas usadas normalmente são passadas para alguém."O Banco Real, por exemplo, renovou seu parque de computadores e decidiu doar 5 mil máquinas usadas, em bom estado, para escolas apoiadas pela organização não-governamental Comitê para Democratização da Informática (CDI). Os PCs serão distribuídos em 840 instituições de ensino, de 20 Estados. Hoje, mais de 200 funcionários do banco vão trabalhar, como voluntários, na preparação das máquinas para as escolas.A única regulamentação brasileira contra lixos tóxicos é a Resolução 257 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que limita o uso de substâncias tóxicas em pilhas e baterias e exige que os fabricantes tenham sistema de coleta dos produtos descartados.

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