Elevação de juros dos EUA deixa BCs na América Latina em situação difícil

Banco Central do Brasil já indicou que pode elevar ainda mais os juros; decisão mais difícil é a do México, que tem inflação estável

O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2015 | 08h57

NOVA YORK - A decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de começar a elevar as taxas de juros coloca os bancos centrais dos países latino-americanos em uma situação difícil, à medida que eles decidem se seguem o exemplo para evitar que os investidores abandonem ativos locais em detrimento de investimentos de maior rendimento em dólar.

O Banco Central do Brasil já indicou que pode retomar, em janeiro, um ciclo de aperto que começou em abril de 2013 – elevando a taxa Selic de 7,25% para 14,25%. Espera-se que a economia encolha 4% neste ano, e a inflação está acima dos 10%, enquanto o real se desvalorizou 30% ante o dólar no último ano.

A presidente Dilma Rousseff luta contra movimentos que buscam seu impeachment. Com tanta incerteza no País, alguns analistas afirmam que a política monetária do Fed é quase “um segundo pensamento”.

“Sabemos que uma elevação dos juros está a caminho, mas não sabemos qual será nosso governo daqui seis meses”, disse Paulo Nepomuceno, analista da Coinvalores, em São Paulo.

A decisão mais difícil deve ser a do Banco do México, que, diferente dos seus pares latino-americanos, tem sido capaz de manter a as taxas de juros inalteradas em 3% graças à sua inflação baixa, apesar de uma queda de 14% no valor do peso mexicano em relação ao dólar no último ano. O comitê do Banco do México vai se reunir hoje para decidir se, assim como o Fed, eleva os juros em 0,25%.

O banco central do México afirmou que aumentaria os juros se o peso mais fraco começasse a alimentar a inflação, colocando sua meta de 3% em risco. Mas isso não tem acontecido, e a inflação desacelerou para a mínima recorde de 2,2% em novembro. Enquanto isso, a autoridade monetária do país vendeu dólares em resposta à depreciação cambial.

Pela região. Para os BCs de Chile, Peru, Colômbia, que, assim como o Brasil, já aumentaram as taxas de juros em resposta à inflação acima da meta, a escolha é se devem apertar ainda mais a política monetária.

O BC do Chile também se reúne hoje e, enquanto a maioria dos economistas consultados pela autoridade esperam que a taxa de juros seja mantida a 3,25% – com a inflação voltando à meta de 2% a 4% –, alguns esperam uma nova elevação. “É muito provável que um aumento adicional será feito depois da elevação do Fed”, disse o diretor da Econconsult em Santiago, José Ramón Valente.

No Peru, o BC aumentou as taxas de juros novamente na semana passada depois que a inflação atingiu o maior patamar em três anos, e pode apertar ainda mais, mesmo que o movimento tenha sido uma antecipação à decisão do Fed. “Vemos a necessidade de pelo menos mais um aumento”, disse João Ribeiro, economista do maior banco peruano, o Banco de Crédito, que espera que o banco central do país aumente os juros novamente em janeiro.

O BC da Colômbia também já aumentou as taxas de juros em um ponto porcentual desde setembro para 5,5%, e se espera que haja uma nova elevação amanhã, especialmente sob a luz da decisão do Fed. O peso colombiano desvalorizou cerca de 28% no último ano, causando aceleração da inflação.

Altas graduais. Para o economista Mohamed El-Erian, o Fed deu sinais de que o aperto monetário será gradual no ano que vem, apontando para o ciclo de alta de juros mais suave da história do maior banco central do mundo. A elevação, embora pequena, de 0,25 ponto porcentual, marca o fim de uma era de juros próximos de zero e de experimentos nunca antes usados na política monetária, que vêm sendo adotados desde a crise financeira mundial para tentar estimular a economia americana, avaliou El-Erian, considerado um dos gurus de Wall Street, ex-presidente da maior gestora de bônus do mundo, a Pimco, e atualmente conselheiro do presidente Barack Obama e do grupo alemão Allianz. / AGÊNCIAS INTERNACIONAIS E ALTAMIRO SILVA JÚNIOR

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