Rafael Arbex / ESTADAO
Rafael Arbex / ESTADAO

'Elevamos a projeção do PIB da zona do euro'

Segundo Pill, programa de estímulo e queda no preço do petróleo devem fazer zona do euro crescer 1,5%

Entrevista com

Huw Pill, economista-chefe para Europa do banco Goldman Sachs

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2015 | 02h05

O economista-chefe para Europa do banco Goldman Sachs, Huw Pill, elevou a projeção de crescimento da zona do euro. Ele estima que a região deverá crescer cerca de 1,5% ante previsão inicial de 1%. A melhora de humor se dá por dois motivos: o programa de compra de títulos promovido pelo Banco Central Europeu (BCE) e, sobretudo, o recuo no preço do petróleo no cenário internacional. "A Europa é uma grande importadora de petróleo e se beneficia de queda do preço da energia porque isso permite que o dinheiro seja gasto com outras coisas", afirmou. A seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

O BCE iniciou recentemente um programa de compra de títulos dos países zona do euro para dar maior liquidez e, assim, estimular o crescimento econômico. Qual será o impacto desse programa?

A economia da zona do euro esteve fraca por um longo período, as taxas de juros foram colocadas próximas de zero, e a compra dos títulos soberanos pelo BCE seria um próximo passo. É importante ter em mente que fazer essas compras de títulos no contexto europeu é um pouco mais complicado do que nos Estados Unidos, no Reino Unido ou no Japão. Nós não temos um governo único e um mercado único de dívida soberana. Temos 19 diferentes países. É um ponto de vista natural do ponto de vista econômico, mas também complicado. E talvez seja por isso que ele veio mais tarde do que em outros países. Com o programa, acho que podemos ver efeitos significativos, como um enfraquecimento da taxa de câmbio.

A deflação está descartada?

Acredito que o risco real de deflação pode ser entendido como preços caindo de forma persistente, e as pessoas, como antecipam essa queda dos preços, postergam gastos e investimentos. Cria-se uma espiral de queda na confiança e a demanda enfraquece. Essa é uma versão bastante perigosa da deflação. Há um risco de isso ocorrer, mas ele é pequeno. O BCE sempre esteve preparado para evitar esse tipo de situação. Nesse exato momento, a inflação ao consumidor está negativa, mas grande parte disso vem da queda do preço do petróleo. É um fenômeno bastante diferente. A Europa é uma grande importadora de petróleo e se beneficia de queda do preço da energia porque isso permite que o dinheiro seja gasto com outras coisas.

Qual é a previsão de crescimento para este ano?

Nós estamos elevando a nossa perspectiva de crescimento econômico, de 1% para 1,5%. E a principal razão para esse aumento não é pela implementação do programa de estímulo, mas pelos efeitos da queda do preço do petróleo. Essa queda pode ser um estímulo para a economia, mesmo que isso empurre a inflação para um território negativo agora.

A melhora da atividade deve ocorrer em todos os países da zona do euro?

Sim. Isso não significa que todos os grandes países vão crescer na mesma taxa. Estamos mais otimistas com a Espanha porque ela fez as reformas necessárias, particularmente no mercado de trabalho. Os salários dos espanhóis caíram, mas isso permitiu que o país ganhasse competitividade. A nossa expectativa é de que o crescimento espanhol supere os 2% este ano. Também há uma visão positiva na Alemanha, em particular pela baixa taxa de desemprego.

E os países do outro lado, que não deverão ir bem?

Nos países que estarão abaixo da média desse 1,5% de crescimento, estamos menos otimistas com a França e com a Itália. A economia italiana esteve em recessão nos últimos anos e deve crescer neste ano, em torno de 0,5%. A França deve ir um pouco melhor, mas ainda abaixo da média. E as razões para o pouco otimismo são porque as reformas não foram feitas nesses dois países.

E situação d a Grécia?

A Grécia é um caso muito especial. A taxa de desemprego está em 25%, o desemprego entre os jovens é astronomicamente alto, então, são indicadores de uma performance muito pobre e consequências dos ajustes que o país tem enfrentado. É importante manter em mente que alguns desses ajustes eram inevitáveis e necessários. Em 2009, a Grécia tinha um déficit fiscal de quase 15% do PIB, o que não parece muito sustentável. Acredito que houve um progresso em estabilizar a economia da Grécia. A questão agora se desloca da econômica para a política: qual acordo precisa ser alcançado para que o restante da Europa continue a suportar a economia grega, e o que a Grécia precisa prometer para conseguir esse suporte. E essa relação política parece difícil.

Por quê?

O novo governo fala em fazer a Grécia caminhar numa direção de menos austeridade, e supervisão da Troica (grupo formado por BCE, União Europeia e FMI). Acredito que esse mandato deixa a Grécia numa situação de confronto com o resto da Europa. A situação da economia grega, que começou a crescer no ano passado, está ficando mais difícil. A nossa visão é de que haverá um amplo acordo, mas qual será a natureza desse acordo? O resto da Europa tende a oferecer mais suporte financeiro, estender o prazo da dívida. Ao manter esse suporte, o governo da Grécia vai ter de se comprometer com um programa de ajuste. A questão central é se o governo da Grécia está disposto a ir nessa direção.

Na economia global, a grande expectativa é sobre quando o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) vai elevar a taxa de juros. Qual vai ser o impacto dessa subida dos juros?

A nossa visão é de que a data mais provável para o início da alta dos juros é em setembro. Eu acho que o Fed vai começar esse processo bem sinalizado para não gerar surpresas.

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