Em 1º discurso como diretor, Azevêdo alerta sobre risco de OMC ser irrelevante

Brasileiro apresentou sua visão sobre o futuro da entidade nesta segunda-feira

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

09 de setembro de 2013 | 06h29

"O mundo não vai esperar pela Organização Mundial do Comércio (OMC) de forma indefinida e vai seguir adiante sem a entidade". O alerta foi feito pelo novo diretor da OMC, o brasileiro Roberto Azevêdo, que nesta segunda, em Genebra, apresentou sua visão para o futuro da entidade em sua primeira reunião no comando da instituição.

Sua avaliação misturou realismo com um apelo aos 159 governos para que não abandonem a entidade. "Estamos num momento crucial", disse.

A OMC vive seu pior momento, diante de negociações comerciais paralisadas há mais de uma década, enquanto governos já começam a traçar novas estratégias comerciais sem contar com a OMC.

 

Mas Azevêdo, o primeiro brasileiro a assumir a entidade, alertou que essa situação de marginalização pode ser ainda mais grave caso a conferência ministerial em Bali, no fim do ano, fracassar. "As divisões entre os países são políticas", indicou.

Segundo ele, se a conferência não chegar a um acordo mínimo, as consequências serão desastrosas. O brasileiro fez questão de apontar que vários países já começam a buscar alternativas à OMC, fechando acordos bilaterais de comércio. Mas, para ele, isso ameaça minar o próprio sistema multilateral.

"Alguns já estão olhando para outros lugares", indicou. "Isso não é de interesse do mundo", alertou.

Azevêdo concluiu sua primeira intervenção fazendo um apelo. "A pausa acabou. Chegou o momento de a OMC voltar ao centro do palco internacional", completou.

O brasileiro explicou aos governos reunidos em Genebra que vai começar a trabalhar imediatamente para tentar encontrar pontos de consenso para a reunião ministerial que ocorre em pouco mais de 80 dias, na Ásia. Ele ainda prometeu transparência em seu trabalho.

A presença de Figueiredo

Já governo de Dilma Rousseff fez questão de enviar até Genebra o chanceler Luiz Alberto Figueiredo, como uma forma de demonstrar o compromisso do País com o sistema multilateral. Ele ainda leu uma mensagem da presidente, apoiando justamente um relançamento das negociações da OMC.

Depois de hesitar até o último minuto em apresentar e bancar a candidatura de Azevêdo ao cargo, as declarações foram de rasgados elogios ao novo diretor da OMC nesta segunda. "Para o Brasil, a decisão de lançar a candidatura de Azevêdo foi uma expressão natural de nosso profundo compromisso com o multilateralismo e com essa organização", disse Figueiredo. "Ninguém estaria melhor qualificado que a ele a enfrentar os desafios que estão diante de nós", declarou.

O governo usou a ocasião justamente para reforçar sua ideia de que é a entidade - e não acordos bilaterais - que mais serviriam para os interesses nacionais. "O Brasil está convencido de que a OMC é o fórum mais adequado para lidar com os assuntos comerciais", disse, pedindo que o impasse nas negociações seja superado.

Brasília anunciou seu apoio ao projeto de Azevêdo de lançar negociações intensas até a conferência em Bali.

O chanceler ainda leu uma mensagem da presidente Dilma, felicitando Azevêdo pela eleição e anunciando o "total apoio do Brasil" a seus trabalhos. " Estou confiante de que você (Azevêdo) tem todas as qualidades exigidas para ajudar os países a revigorar a organização em direção a uma ordem mundial mais justa e próspera, nesse momento crítico para a economia global", declarou Dilma, no texto.

"A manutenção de um sistema multilateral do comércio operacional é de interesse de todos. A OMC deve dar um impulso renovação e vigoroso ao comércio mundial nos próximos anos como forma de permitir que a economia mundial entre em um novo período de crescimento", completou a presidente.

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