Dida Sampaio/Estadão - 5/11/2021
Leilão do 5G movimentou R$ 46,79 bilhões. Dida Sampaio/Estadão - 5/11/2021

Em 2 anos, Brasil terá mais conexões 5G que países que fizeram leilões antes, diz executivo da TIM

Para Mario Girasole, vice-presidente de Assuntos Regulatórios e Institucionais da companhia, modelo do certame, que destinou maior parte dos recursos para investimento e não para outorga, contribuiu para a disputa entre empresas

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 15h00

O Brasil terá, nos próximos dois anos, um número de conexões 5G até maior que outros países que realizaram leilões de frequências antes, segundo o vice-presidente de Assuntos Regulatórios e Institucionais da TIM, Mario Girasole. Isso porque o leilão por aqui teve características que estimularam a atração de investimentos.

Ele elogiou o fato de o leilão não ter tido um viés arrecadatório. Ou seja: destinou a maior parte dos recursos para implementação das redes em vez de cobrar valores elevados de outorgas para os cofres públicos - como vinha acontecendo desde a privatização das telecomunicações no Brasil. Essa mudança também era pleiteada há tempos pelas operadoras.

Outro ponto interessante, segundo o executivo da TIM, foi a oferta de uma grande quantidade de espectros de radiofrequência. Esse foi o maior leilão já realizado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). "Todas essas coisas juntas ajudaram a atrair essa quantidade de 15 concorrentes", avaliou.

O leilão, que terminou nesta sexta-feira, 5, movimentou R$ 47,2 bilhões com lotes leiloados nas faixas de 700 MHz, 3,5 GHz, 2,3 GHz e 26 GHz. O ágio médio em relação ao preço mínimo exigido no edital foi de 218% e de 12% em relação ao valor econômico. A expectativa inicial do governo era movimentar R$ 49,7 bilhões, mas nem todos os lotes oferecidos foram arrematados.

A TIM planeja ativar a internet móvel de quinta geração logo que a limpeza da faixa de 3,5 Ghz estiver concluída. "Uma vez que (a faixa) estiver liberada, o 5G estará no ar. Do ponto de vista industrial, está tudo pronto", declarou, em entrevista coletiva à imprensa em Brasília.

Como as antenas parabólicas recebem as transmissões por meio de uma banda que fica pertinho da faixa por onde vai navegar o 5G, é preciso fazer uma acomodação para evitar conflitos. A solução será a migração das parabólicas para outra banda.

Esse trabalho de limpeza da faixa será realizado pela Entidade Administradora da Faixa (EAF), organização prevista no edital da Anatel e financiada pelas operadoras que arremataram os lotes leiloados na faixa de 3,5 Ghz.

As rivais Claro, Vivo e TIM arremataram na quinta-feira, 4, três dos quatro blocos nacionais da faixa de 3,5 Ghz - de abrangência nacional e considerada ideal para a oferta de internet móvel do 5G. A Tim ficou com B3, por R$ 351 milhões, com ágio de 9,22%.

"É preciso parabenizar esses atores. Eles são competidores, mas também parceiros", afirmou Girasole. "Tem possibilidade de compartilhamento de infraestrutura no Brasil que serão exploradas por operadoras nacionais e regionais."

Ele lembrou que as operadoras de telecomunicações avançaram no compartilhamento de redes, espectros e torres nos últimos anos como forma de ganhar escala e reduzir custos - uma tendência global e ainda mais importante no Brasil, dadas suas dimensões continentais.

Com a participação de um conjunto diversificado de operadoras no 5G, essas estratégias serão aprofundadas, disse: "Com esses novos atores, essas possibilidade aumentam".

O vice-presidente da TIM ainda buscou tratar com naturalidade o grande número de participantes do leilão, que atraiu 15 proponentes. "O mercado amadureceu de forma tal a atrair novos investimentos. Isso é bom para os novos entrantes, mas é bom para nós também que estamos aqui há 20 anos", afirmou. "Mostra que o leilão teve elementos de valor. Seria muito pior um leilão deserto, pois isso significaria que estamos em um mercado não atrativo."

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Leilão do 5G movimenta R$ 46,79 bi, pouco abaixo do previsto; veja o que muda com nova tecnologia

Disputa terminou com ágio médio de 218% em relação ao preço mínimo exigido no edital; expectativa inicial do governo era chegar a R$ 49,7 bilhões, mas nem todos os lotes oferecidos foram arrematados

Amanda Pupo e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 09h17
Atualizado 05 de novembro de 2021 | 18h06

O leilão do 5G realizado nesta quinta-feira, 4, e sexta-feira, 5, teve como saldo um valor econômico final de R$ 47,2 bilhões, a partir dos lotes leiloados nas faixas de 700 MHz, 3,5 GHz, 2,3 GHz e 26 GHz. O ágio médio em relação ao preço mínimo exigido no edital foi de 218% e de 12% em relação ao valor econômico. Logo após o certame, a Anatel havia informado que o valor era de R$ 46,79 bilhões, mas no fim da tarde fez a correção.

A expectativa do governo era movimentar R$ 49,7 bilhões, mas nem todos os lotes oferecidos foram arrematados.

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, afirmou que o certame “superou todas as expectativas”. “Temos certeza que todos os valores arrecadados serão convertidos em benfeitorias”, disse o ministro em coletiva à imprensa sobre os resultados do leilão. “Foi o maior leilão da história da América Latina (na telecomunicação) e segundo maior do Brasil, atrás apenas do pré-sal”, afirmou.

Sobre os lotes que não foram arrematados - o que aconteceu principalmente na faixa de 26 GHz -, Faria afirmou que os espectros poderão ser negociados em breve. O ministro e os técnicos da Anatel, no entanto, não apontaram um período específico nem divulgaram a quantidade final de lotes que não foram arrematados.

“O entendimento que nós temos é que se em algum momento próximo for oportuno republicar, seria basicamente uma republicação do edital nos mesmos termos, não seria um novo leilão”, afirmou o conselheiro Carlos Baigorri.

Dos lotes arrematados, na faixa de 700 MHz, o valor econômico final foi de R$ 3,57 bilhões, com ágio de R$ 1,27 bilhão. Para a faixa de 3,5 Ghz, nacional - o principal do 5G -, o valor econômico final ficou em R$ 22,79 bilhões, ágio de R$ 145 milhões, e regional, R$ 7,92 bilhões e R$ 1,88 bilhão, respectivamente.

Na faixa de 2,3 GHz (bloco de 50 MHz), o valor econômico final arrecadado foi de R$ 5,96 bilhões, e ágio de R$ 1,09 bilhão. No bloco de 40 MHz, os números foram de R$ 3,49 bilhões e R$ 653 milhões, respectivamente. Enfim, na faixa de 26 GHz, o valor econômico final somou R$ 3,03 bilhões, com ágio de R$ 54 milhões.

Nesta sexta, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) ofereceu os lotes da última das quatro faixas, a de 26 Ghz,  por meio da qual devem ser oferecidas funcionalidades para redes empresariais em setores como indústria, mineração e logística. As vencedoras terão como compromisso a implementação de projetos de conectividade de escolas públicas urbanas e rurais.

A Claro arrematou os primeiro lotes oferecidos: o G1, por R$ 52,8 milhões, e o G2, R$ 52,825 milhões . A Vivo ficou com os lotes G3, G4 e G5, cada um pelo mesmo valor de R$ 52,824 milhões. Todos esses lotes são de abrangência nacional.

Entre os lotes regionais da faixa de 26 Ghz, a Tim arrematou o H19 (Sul), por R$ 8 milhões e ágio de 6,12%; o H25 (Rio, Espírito Santo e Minas), por R$ 11 milhões; e o H31 (São Paulo), por R$ 12 milhões, ágio de 5,97%. A empresa também ficou com  o lote I6, de abrangência nacional, oferecendo outorga de R$ 27 milhões; o J20 (Sul), por R$ 4 milhões, ágio de 6,12%, o J26 (Rio, Minas e Espírito Santo), por R$ 6 milhões; e o J33 (São Paulo), também por R$ 6 milhões.

A Algar ficou com os lotes H38, por R$ 935 mil; H39, por R$ 1,037 milhão; e H40, por R$ 1,037 milhão, todas com abrangência no sul de Minas e partes de Goiás, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

A Fly Link arrematou o H42, também com abrangência no sul de Minas e partes de Goiás, São Paulo e Mato Grosso do Sul, por R$ 900 mil, e passa a ser nova prestadora de serviços móveis no País. A Neko ficou com o lote  J32, com abrangência no Estado de São Paulo, por R$ 8,492 milhões, e será mais uma nova prestadora de serviços móveis no País.

Veja o que muda com o 5G

Diferença de velocidade de download e upload no 5G e no 4G

Estima-se que, em seu potencial máximo, a tecnologia 5G seja capaz de atingir velocidade de download de 10 gigabits por segundo (Gbps). Isso significa que uma tarefa que demora em torno de 20 segundos no 4G - como baixar uma playlist de uma hora no Spotify - pode levar apenas 2 segundos no 5G.

O que é latência - e como ela muda tudo

Para se ter uma boa conexão de internet, não basta que ela seja veloz, é preciso também ter uma latência baixa. Latência é o termo técnico para identificar o tempo de resposta de uma rede, a partir do momento em que o usuário faz uma solicitação (como acessar uma página ou baixar um arquivo). A latência de uma rede 4G gira em torno de 50 milissegundos (ms). Já a latência prevista para as redes 5G é de 1 ms. Enquanto isso, o tempo médio de reação do cérebro humano para uma imagem, por exemplo, é de 10 MS.

O que o 5G vai possibilitar

Graças à sua combinação entre velocidade e latência, o 5G vai permitir avanços importantes na tecnologia. O mais evidente deles é o dos carros autônomos. Veja outros exemplos:

  • Carros autônomos: hoje já estão sendo testados e tem algum nível de segurança - muitos deles conseguem rodar por quilômetros sem qualquer intervenção humana. Com o 5G, porém, isso pode se tornar ainda mais simples.
  • Cirurgias remotas: hoje, já é possível realizar cirurgias de forma remota, mas o tempo de latência pode fazer com que acidentes aconteçam, de forma que a prática não é recomendada. Com o 5G, isso pode mudar.
  • Internet das coisas: o 5G também vai beneficiar sistemas como casas conectadas e cidades inteligentes. A meta de fabricantes é de que os sensores tenham baixo consumo de energia, o que permitiria que qualquer máquina tenha um sensor.
  • Chamadas holográficas: hoje, falar com um amigo por vídeo, via Skype ou WhatsApp é algo corriqueiro. Mas isso pode ir além com o 5G.
  • Streaming de jogos: para os fãs de games, uma boa novidade do 5G é o fim da latência alta - ou seja, nada de morrer com o tiro do inimigo ou tomar um drible num jogo online porque sua conexão está ruim.

Quando o 5G estará disponível no Brasil?

As regras do leilão preveem que as empresas vencedoras comecem a oferecer o 5G a partir de 31 de julho de 2022. As primeiras cidades a serem atendidas são as capitais e o Distrito Federal. Cidades com mais de 500 mil habitantes terão de ser atendidas até meados de 2025. Em seguida, será a vez dos municípios com mais de 200 mil e 100 mil habitantes, que terão de ser atendidos com rede 5G até junho de 2026 e até junho de 2027, respectivamente. Por fim, as cidades com mais de 30 mil habitantes terão de ser completamente atendidas até 31 de julho de 2029.

Entretanto, o cumprimento desse compromisso e a qualidade do serviço dependem, também, da regulamentação dos próprios municípios sobre a instalação de antenas. De acordo com o Conexis Brasil Digital, entidade que reúne as principais operadoras que atuam no País, apenas sete das 27 capitais brasileiras estão totalmente preparadas para a nova tecnologia de comunicações.

Vou precisar de um celular novo para usar o 5G?

Sim. Cada celular tem uma peça específica para acessar a internet, chamada modem. Modems 5G estão chegando aos celulares, mas ainda encarecem os aparelhos - os modelos mais simples, da chinesa Xiaomi, custam em torno de US$ 500. A maioria dos (poucos) aparelhos ainda está em torno de US$ 1 mil. É um valor, porém, que deve cair com a popularização dessas redes.

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