André Dusek/Estadão
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Em 2018, economia no ritmo da eleição

Analistas não têm dúvidas de que o ano que está terminando trouxe avanços no campo econômico, mas lembram que ainda há muitos desafios a serem superados, como a questão da Previdência, que pode ter espaço central no debate eleitoral

O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

O ano que chega ao fim trouxe notícias alentadoras para a economia. Para o economista José Márcio Camargo, que assina um dos 11 artigos desta edição especial, reformas aprovadas durante o ano, como a trabalhista e a troca da TJLP pela nova TLP nas taxas de juros do BNDES, terão efeitos importantes para a atividade econômica já a partir do ano que vem.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, lembra que o País chega a dezembro com uma taxa de inflação rodando abaixo de 3% e uma taxa de juros de 7% ao ano, nível nunca antes visto. A taxa de desemprego vem em trajetória de queda. “Estamos convictos de que teremos boas surpresas com nossa economia nos próximos anos”, diz.

Isso não quer dizer, evidentemente, que os problemas estão resolvidos. Como quase todos fazem questão de ressaltar, o País ainda vive uma situação fiscal delicadíssima. A dívida líquida sobe de forma consistente, saindo de cerca de 30,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013 para 50,7% do PIB este ano, de acordo com o economista Luiz Schymura, da FGV Ibre. “A economia ainda necessita de um profundo ajuste fiscal”, diz a economista Monica de Bolle.

O rombo nas contas públicas, de R$ 159 bilhões projetados para este ano e também para 2018, deixa claro que há mudanças estruturais importantes que ainda precisam ser encaminhadas.

A reforma da Previdência, talvez a mais importante dessas mudanças, ficou para o ano que vem – e, para muitos, só deve ser votada mesmo quando um novo governo for eleito. Mesmo assim, para o economista José Roberto Mendonça de Barros, já houve uma vitória nessa questão: hoje, já não pairam mais dúvidas sobre a necessidade de uma reforma. “O diagnóstico de que não existem problemas está hoje restrito à extrema esquerda e aos representantes das corporações públicas.”

Para a economista Zeina Latif, há o reconhecimento dos investidores de que a reforma da Previdência está na agenda política brasileira, devendo ser aprovada pelo próximo presidente. O problema, diz, é se a reforma não for ambiciosa o suficiente para sinalizar que o País conseguirá estabilizar sua dívida pública.

Eleição. O tema da Previdência, assim como das outras reformas, deve estar no centro do debate político em 2018, ano de eleições para presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Para Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, essas questões terão “decisiva influência no resultado das urnas” no ano que vem.

O cientista político Murillo de Aragão avalia que a aprovação da reforma previdenciária, seja ela qual for, poderá fortalecer o governo e seus pré-candidatos na disputa eleitoral.

Mas, segundo o também cientista político Carlos Melo, a recuperação econômica pode ter um efeito eleitoral menor que o esperado pelos candidatos do autodenominado “centro democrático”. “Candidatos de oposição enfatizarão problemas econômicos, lacunas e insatisfações, apontando também o agravamento de questões sociais”, diz. Seja como for, José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília, afirma que os problemas estruturais do País terão de vir à tona e devem ser discutidos seriamente pelos candidatos em 2018.

A recuperação econômica brasileira também pode enfrentar ameaças externas. Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, lembra que paira sobre o mundo o risco Trump – que pode, por exemplo, desencadear uma guerra comercial com a China ou o México, ou uma guerra, mesmo, contra a Coreia do Norte, com resultados desastrosos para todo o planeta.

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José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Estamos nos aproximando de um momento decisivo. Na economia, o cenário polarizou e passou a depender da aprovação da reforma da Previdência, ainda que na sua forma mais compacta.

Na política, o julgamento de Lula em janeiro e a janela de mudança na filiação partidária em março, vão acabar por levar à formação do grid de largada da sucessão presidencial, resultando na primeira baliza das chances das diversas candidaturas.

Mais do que a nomenclatura, o que vai ser fundamental é a característica do embate entre populistas, de esquerda ou de direita, e reformistas. A questão complicada na elaboração desses cenários é que os dois campos, econômico e político, não são independentes.

Embora exista a frustração resultante da incapacidade do governo de levar a voto a reforma da Previdência, muita gente está deixando de levar em conta alguns pontos que considero fundamentais, pois viramos o ano com dois avanços decisivos.

O primeiro é que não pairam mais dúvidas sobre a necessidade da reforma da Previdência. O governo demorou a articular o discurso de redução dos privilégios, mas o fez com certo sucesso. Uma indicação disso é que os sindicatos de trabalhadores do setor privado não têm mostrado particular interesse em lutar contra a reforma, como demonstra a baixa adesão das manifestações fora de Brasília. Apenas as associações dos servidores públicos estão mobilizadas na defesa de seus privilégios.

O diagnóstico de que não existem problemas está hoje restrito à extrema esquerda (como na entrevista de Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e aos representantes das corporações públicas. A maioria dos parlamentares que não se mostra disposta a votar pela reforma se utiliza apenas do cálculo eleitoral (eventualmente equivocado, como apontou o trabalho de Pedro Nery), e não da discordância do diagnóstico.

Da mesma forma, as corporações públicas já perderam a disputa pública na defesa de seus privilégios e, como consequência, estão negociando uma retirada mais lenta dessas vantagens, e não justificando e robustecendo sua situação.

O caso mais claro é que, após anos de dura resistência, os Tribunais de Justiça dos Estados estão encaminhando ao Conselho Nacional de Justiça e à presidente Cármen Lúcia, do STF as folhas detalhadas dos pagamentos, nas quais aparecerá, além dos salários, uma incrível variedade de penduricalhos, que incluem desde auxílio-residência, passando por ajuda na educação dos filhos, até compra de livros e outras coisinhas mais.

Infelizmente, a resistência a mudanças inevitáveis, resultante da evolução do mundo, é uma característica de nossa sociedade. Nossa história está coalhada de exemplos. O caso mais emblemático, para mim, é o da abolição. A pesquisa histórica mostra que, em 1888, a escravidão tinha perdido o grosso de sua importância em favor do trabalho assalariado. Mesmo assim, os proprietários conseguiram compensações creditícias, uma das causas da especulação financeira no início da República que ficou conhecida como Encilhamento.

É o caso também da inflação muito elevada: a evidência de que sem estabilidade de preços não há crescimento sustentado (veja a Ásia) é massiva. Entretanto, demoramos décadas e foi preciso uma superinflação para que o Plano Real tivesse espaço para ocorrer – e ainda hoje tem gente (inclusive alguns colegas) para quem um pouco de inflação (e, pasme, de corrupção) não faz mal.

Da mesma forma, ainda existe muita resistência a admitir que a ruína das finanças públicas causa inflação, que destrói o crescimento sustentado. Em consequência, o crescente déficit da Previdência (que não pode mais ser mitigado pela elevação da carga tributária), que desorganiza as finanças, vai trazer de volta a inflação se não for combatido de forma enérgica.

No caso do Brasil, a necessidade de reforma também decorre de outro fato: estamos vivendo mais. Mesmo os nascidos em regiões e faixas de renda mais pobres, quando atingem os 50 anos viverão além dos 70 anos. Logo, não é mais possível, como hoje, mulheres se aposentarem, em média, aos 52 anos e homens aos 55.

Finalmente, o sistema previdenciário público, além de ser o grande responsável pelo déficit, amplifica e congela privilégios inaceitáveis das categorias de elite do serviço público nos três ramos de governo.

Assim, a situação previdenciária mistura questões de sustentabilidade fiscal, alterações demográficas e injustiças distributivas numa única questão. Nada é mais decisivo para o retorno do crescimento sustentado. Deixado solto, o déficit vai continuar se ampliando muito e assistiremos à volta da inflação e da estagnação.

O cenário de 2018 vai depender, portanto, da aprovação da reforma em fevereiro próximo. Em caso positivo, teremos um ano bastante construtivo para a economia: 3,5% de crescimento do PIB, puxado pelo consumo e pela expansão de crédito para as famílias; inflação de 3,8%; boas exportações; melhora dos investimentos. A construção civil, único setor a fechar o ano ainda em recessão, deverá voltar a crescer. Lentamente, o crédito para as empresas melhorará. O desemprego seguirá caindo, até algo próximo a 10% – ainda elevado, sem dúvida. Veremos até o fim de 2018 se a reforma trabalhista fará algum efeito sobre o mercado de trabalho (acredito que sim). O crescimento deverá se espalhar para as regiões ainda em crise, como Rio de Janeiro e Nordeste. Com isso, o nível de pobreza vai recuar em alguma medida, como já ocorreu em 2017.

Se a reforma não for aprovada, porém, o cenário acima descrito ficará bastante esmaecido, porque tudo passará a depender do resultado do embate entre reformistas e populistas.

Já coloquei inúmeras vezes minha percepção de que, em caso de vitória do populismo, mesmo em sua versão paz e amor, voltaremos ao pântano. No caso de vitória de um reformista, a reconstrução do crescimento sustentado será árdua, pois terá de começar com uma versão bastante dura da reforma previdenciária. Nesse caso, vai demorar um pouco mais para que o otimismo e o crescimento sejam recuperados plenamente, até porque o risco de uma mudança no cenário global, que hoje nos favorece, será crescente.

*É sócio da MB Associados.

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Cármen Lúcia Brasília [DF]

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Oportunidade para crescer junto com o Brasil

Estamos convictos de que teremos boas surpresas com a economia nos próximos anos

Henrique Meirelles, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Em maio de 2016, ao assumimos a Fazenda, a situação da economia brasileira era gravíssima. Atravessávamos a pior recessão que o Brasil já viveu, maior que a grande crise de 1929. Estávamos no 6.º trimestre consecutivo de queda no PIB e tudo indicava que os trimestres seguintes seriam muito ruins. A produção industrial havia caído 7,3% em 12 meses e o comércio, 10,2%. O índice de confiança do setor de serviços caíra 6,7% em 12 meses, e a do setor de construção, 8%. Já a confiança do consumidor havia caído 6,9%. A inflação acumulada em 12 meses era de 9,6%, em trajetória ascendente. Os juros Selic estavam em 14,25%. O risco Brasil, medido pelo CDS, estava em torno de 360 pontos-base.

Sob ceticismo se as reformas seriam aprovadas e se o Brasil conseguiria sair da recessão, implantamos uma política forte de ajuste da economia.

Um ano e sete meses depois, todas essas dúvidas foram superadas. O Brasil já cresceu no primeiro trimestre de 2017, mas o crescimento esteve concentrado na agricultura. A partir do segundo e terceiro trimestres, houve crescimento em praticamente todos os setores. De acordo com os últimos dados disponíveis, a produção industrial cresceu 5,2% nos últimos 12 meses, o comércio cresceu 7,5%, o PIB subiu 1,4% e a inflação caiu aos menores patamares históricos. O IPCA acumulado em 12 meses está em 2,8% e os juros Selic em 7%, enquanto o risco Brasil está em torno de 170 pontos.

Há cerca de um ano, o desemprego subia em ritmo acelerado, mas o mercado de trabalho reagiu antes do que muitos analistas esperavam. Em termos dessazonalizados, o desemprego começou a cair em abril e vem caindo desde então. O número de pessoas ocupadas cresce fortemente. Nos últimos 12 meses, foram geradas um milhão e seiscentas mil vagas de trabalho.

Com a recuperação já instalada em diversos ramos de atividade, a questão agora é outra: quanto podemos esperar de crescimento da economia nos próximos anos? A média dos analistas projeta crescimento de 2,6% para 2018, convergindo depois para 2,5% nos anos à frente, até 2021. Acreditamos, porém, que será sensivelmente maior que isso, sendo que a nossa previsão para 2018 é de 3%.

O número de 2,5% de crescimento é aproximadamente quanto o Brasil cresceu nos últimos 20 anos, levando em conta dados demográficos. É natural esperar que o crescimento no futuro seja próximo à média do passado. Mas esse raciocínio não leva em conta as profundas transformações que estão ocorrendo em nossa economia, devido às reformas em curso.

Nesse curto espaço de tempo, o governo está aprovando quatro tipos de reformas estruturais, que transformam completamente a produtividade da nossa economia.

Primeiro, o ajuste fiscal e a mudança de paradigma sobre o crescimento do Estado. Desde a Constituição de 1988, o Estado brasileiro cresceu muito mais que a economia como um todo. Os gastos federais, que eram 10,8% do PIB em 1991, chegaram a 19,9% no ano passado. A conta reversa é que o setor privado teve de encolher 10 pontos porcentuais do PIB.

O teto dos gastos, já aprovado, reverterá esse processo. Ao manter as despesas primárias do governo federal constantes em termos reais, como o PIB continua crescendo, o tamanho do governo será reduzido como proporção do PIB. Estimativa conservadora é que em dez anos as despesas da União cairão gradativamente de 20% para 15% do PIB. Isso fará com que o setor privado se expanda, trazendo mais eficiência e produtividade para a economia, com mais recursos disponíveis para investimentos. Para que isso ocorra, é imprescindível que se reforme o sistema de Previdência, que além de corrigir desigualdades e unificar os sistemas de aposentadoria, diminui enormemente o déficit nas contas públicas.

Além disso, a reforma trabalhista também foi importantíssima. A legislação trabalhista do Brasil foi criada por Getúlio Vargas nos anos 40, e as inovações tecnológicas causaram mudanças radicais nas formas de organizar a produção. A lei trará benefícios relevantes para o funcionamento do mercado de trabalho. Os benefícios são óbvios. Aumento da segurança jurídica para empregados e empregadores, e redução do número de conflitos trabalhistas. A consequência é tanto maior emprego quanto menores custos relacionados ao insumo trabalho.

Em terceiro, as várias reformas relacionadas ao crédito, algumas já aprovadas e outras em tramitação. Como a da TLP, que cria um alinhamento no custo do crédito público, aumenta o poder da política monetária, e permite que os juros da economia fiquem mais baixos, de forma sustentável. Outras são a Letra Imobiliária Garantida, que reduz o risco da operação e consequentemente o spread, a duplicata eletrônica, que cria um ambiente centralizado para registro de duplicatas mercantis e recebíveis de cartão de crédito, a permissão de diferenciação de preço entre os meios de pagamento, o cadastro positivo, que é um poderoso instrumento para reduzir os juros aos bons pagadores e, finalmente, a nova lei da recuperação judicial, que visa a reduzir o prazo e os custos do processo de recuperação e liquidação, incentivar o aporte de novos financiamentos, melhorar as garantias do adquirente de ativos e reduzir a insegurança jurídica.

Quarto, as demais reformas microeconômicas. É um projeto em conjunto com o Banco Mundial, simplificando os processos burocráticos que dificultam a vida dos brasileiros.

Alguns exemplos são medidas de desburocratização. O eSocial, que simplifica o pagamento de obrigações trabalhistas, previdenciárias e tributárias, reduzindo o tempo gasto pelas empresas para preenchimento de declarações e formulários. O Sped, um sistema público de escrituração, que unifica a prestação de informações contábeis e tributárias. Implantação nacional da Nota Fiscal de Serviços Eletrônica e do Redesim – Rede para Simplificação do Registro e Legalização de Empresas e Negócios. A expansão do Portal Único do Comércio Exterior e do Operador Econômico Autorizado, que trazem benefícios relacionados à facilitação dos procedimentos aduaneiros, reduzindo o tempo de desembaraço das mercadorias.

Os resultados que estamos obtendo em alguns itens já são impressionantes. Para exemplificar, estamos trabalhando para atingir os seguintes objetivos: o tempo para abertura ou fechamento de empresas irá dos cerca de 100 dias atuais para 7, e depois para 3. O tempo de pagamento de impostos será reduzido em 70%. O tempo de licenciamentos, formulários, burocracia para exportar ou importar mercadorias cairá em 60%.

Tomados em conjunto, esses quatro tipos de reformas estruturais elevarão nosso crescimento potencial para valores bem superiores aos observados nas últimas décadas. É possível que em vez de 2,5%, cresçamos 3,5% ou 4% durante a próxima década.

É fundamental observar que houve transformações importantes em vários aspectos do processo produtivo. Temos de continuar trabalhando, avançando na agenda de reformas, para que não haja desvio desse cenário positivo. Mas estamos convictos de que teremos boas surpresas com nossa economia nos próximos anos. E que há uma grande oportunidade para crescer junto com o Brasil.

*É ministro da Fazenda

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Roberto Rodrigues*, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Não há dúvida de que 2018 será um ano de mudanças definitivas para o Brasil.

As eleições para presidente da República, governadores dos Estados e parlamentos federal e estaduais serão um ponto de inflexão na nossa história. A classe política está desacreditada perante a população em geral, seja por causa das recorrentes notícias de corrupção que assombraram o País nos últimos anos, seja pela incompetência e ideologização de governos passados e organismos públicos, seja pelo divórcio entre os interesses legítimos do povo e muitas ações decididas no Congresso Nacional.

Mesmo com esse cenário negativo, o governo atual vai conseguindo realizar reformas que eram necessárias há muito tempo e que os anteriores não tiveram disposição ou coragem de enfrentar. Talvez a mais importante delas seja a da legislação trabalhista, e ainda se espera por três outras igualmente essenciais: a da Previdência, a tributária e a política.

Todas elas, e mais a retomada da economia, terão decisiva influência nos resultados das urnas. Mas a volta dos investimentos, sobretudo em infraestrutura, será ponto relevante para as definições dos eleitores porque diminuirá o desemprego, que é o mais grave problema nacional. E essa volta depende da indispensável segurança jurídica que garanta confiança de investidores nacionais e de fora nos rumos do País.

Parte substancial de tal confiança depende do Poder Judiciário.

Seja como for, o agronegócio brasileiro seguirá sendo uma importante alavanca para o futuro. Continuará representando quase um quarto do PIB, gerando empregos cada vez mais diferenciados e salvando o saldo comercial externo. Os saltos de produtividade devidos à nossa tecnologia tropical sustentável são e serão impressionantes. Do Plano Collor (março de 1990) até hoje a área plantada com grãos cresceu 61%, enquanto a produção aumentou 310%. Se tivéssemos hoje a mesma produtividade por hectare que tínhamos em 1990, seriam necessários mais 91 milhões de hectares, além dos 60 milhões hoje plantados com grãos, para colhermos a safra de 2017. Em outras palavras, não foi preciso desmatar esses 91 milhões de hectares de cerrados ou florestas. O mesmo aconteceu com as demais culturas. Também no setor animal a tecnologia avançou, com destaque para a produção de frango, que cresceu 441% no mesmo período. A produção de carne bovina vem aumentando por hectare, o que diminui a demanda por pastagens: parte de sua área vai para agricultura de grãos e parte para reflorestamento com fins industriais, e hoje já temos mais de 7 milhões de hectares de eucaliptos, e crescendo!

A agroenergia, duramente castigada no governo passado, recebeu há poucos dias um impacto positivo, o RenovaBio, programa de governo que finalmente dará previsibilidade ao setor, garantindo novos investimentos. Não era sem tempo: afinal, o etanol de cana emite apenas 11% do CO2 emitido pela gasolina, e seu uso reduz a poluição atmosférica e as consequentes doenças pulmonares. E com o RenovaBio caminharemos para cumprir compromissos assumidos pelo Brasil na COP21, de reduzir em 37% as emissões de gases de efeito estufa até 2035, com base nas emissões de 2005. Essa meta receberá também a ajuda dos programas ABC – Agricultura de Baixo Carbono, na direção dos sistemas integrados de produção.

Em 2018, não colheremos uma safra tão grande quanto foi a de 2017. As chuvas demoraram para chegar, atrasando o plantio, podendo reduzir a produtividade em geral, mas os estoques remanescentes da última colheita são ainda elevados, de modo que não haverá problema de abastecimento interno nem de exportação do que foi combinado.

O cenário internacional não apresenta grandes novidades, a demanda segue estável ou crescendo pouco, mas os preços não deverão variar muito. Como os custos internos subiram, é possível que as margens dos produtores diminuam, reduzindo sua capacidade de investimento. O ano deve ser, como se diz na roça, de “colocar as barbas de molho”, até por causa do cenário político e eleitoral referido.

Por outro lado, abre-se uma oportunidade imperdível: segundo a OCDE, a oferta mundial de alimentos precisa crescer 20% em dez anos para que não haja fome no planeta. Mas também afirma que esse crescimento só acontecerá se o Brasil oferecer o dobro, 40% a mais de alimentos em dez anos. Isso é possível, porque temos tecnologia adequada, temos terra disponível e, principalmente, temos gente capaz em todos os elos das cadeias produtivas.

Mas isso não é suficiente: precisamos ainda de uma estratégia, com políticas públicas que tragam os necessários avanços em infraestrutura e logística, que organizem um seguro rural digno de nossa agropecuária e acoplado à modernização do crédito rural; de acordos bilaterais e multilaterais que consolidem e criem mercados (inclusive com a agregação de valor às matérias-primas exportadas), de uma defesa sanitária que nunca mais permita episódios como a Carne Fraca, e de investimentos crescentes em tecnologia sustentável.

O setor privado tem de fazer a sua parte, principalmente na organização das cadeias produtivas para melhor inserção internacional, com crescente influência das cooperativas, elemento fundamental para o progresso dos pequenos produtores que são importantíssimos para a preservação do tecido social no campo.

O Brasil não pode perder essa oportunidade. Devemos aproveitar o ano eleitoral para preparar um amplo plano de governo que nos transforme em campeão mundial da segurança alimentar. Não será um plano para o agronegócio, mas para todos os brasileiros, porque deve envolver os setores industriais e de serviços, todos urbanos, que estão a montante e a jusante dos campos: a indústria de equipamentos e máquinas é urbana, assim como a de defensivos e fertilizantes, como são os bancos e seguradoras, e a geração e difusão de tecnologia. Urbanas são as empresas que construirão estradas, ferrovias, hidrovias, portos, armazéns e silos. Urbanas são as indústrias de alimentos, de embalagens. Os supermercados e exportadores idem, assim como os escritórios que realizam contratos de toda ordem e os cartórios que os registram.

Urbano e rural será o campeonato mundial de segurança alimentar que o Brasil pode e deve levantar com orgulho. E orgulho maior será o de todo o povo brasileiro por ser o campeão mundial da paz, visto que só haverá paz global quando a fome for banida da Terra.

Vamos meter mãos à obra! Que venha 2018, e que seja nosso melhor ano até aqui!

*Ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócios da FGV.

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Muitos avanços. Mas está faltando um

É fundamental a aprovação de uma reforma no sistema de Previdência Social

José Márcio Camargo*, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Após dois anos de profunda crise (2015 e 2016), a partir do primeiro trimestre de 2017 a economia brasileira começou a dar sinais de recuperação. Inicialmente concentrada na agropecuária, a partir do segundo trimestre do ano a recuperação se espalhou para outros setores da economia.

A liberação dos recursos inativos do FGTS e a forte queda da inflação geraram crescimento da renda real das famílias e fizeram do consumo o motor da retomada da atividade. A partir do terceiro trimestre os investimentos começaram a dar sinais de vida, com crescimento positivo, após 13 trimestres de queda.

Diante desse cenário, duas questões se colocam: qual a intensidade da retomada e quanto do crescimento e da queda da inflação se devem a fatores cíclicos, que se esgotarão no curto prazo, e quanto decorre de fatores estruturais que podem ter aumentado a taxa de crescimento do produto potencial e reduzido a inflação estruturalmente.

Desde agosto de 2016, o País passa por um importante conjunto de reformas que deverá mudar o comportamento da economia brasileira no curto, médio e longo prazos.

No curto prazo, o fim da obrigatoriedade de a Petrobrás participar da exploração de todos os poços do pré-sal e a redução da exigência de conteúdo nacional nas plataformas liberaram os leilões e reduziram o custo para a exploração do petróleo no País. A liberalização dos preços dos combustíveis, sua vinculação aos preços internacionais do petróleo, a abertura do capital da BR Distribuidora e o anúncio da privatização da Eletrobrás são todas decisões que melhoram a alocação dos recursos, atraem investimentos em setores estratégicos e aumentam o potencial de crescimento da economia.

No médio prazo, quatro reformas terão efeitos importantes já a partir de 2018: o teto para o crescimento do gasto público, a substituição da TJLP pela TLP como a taxa de juros dos empréstimos do BNDES, a liberalização da terceirização e a reforma trabalhista.

O teto para o crescimento do gasto público vai mudar a forma como o orçamento público é definido. Com o teto, qualquer proposta de aumento de gasto terá de ser compensada por redução em outro gasto. Ou seja, a restrição orçamentária terá de ser respeitada. Com isso, o gasto público como proporção do PIB terá uma redução de 5 pontos de porcentagem em 20 anos. A reação dos investidores foi imediata. Os títulos públicos que, em média, pagavam taxas de juros acima de 20% ao ano no início de 2016, estão hoje pagando juros abaixo de 10% ao ano.

A substituição da TJLP pela TLP, além de eliminar os subsídios implícitos por ser a TJLP menor que as taxas pagas pelo Tesouro para se financiar (em média R$ 50 bilhões por ano nos últimos 10 anos), fará com que o BNDES se torne um “amigo” do Banco Central no combate à inflação. Ao contrário da TJLP real, a TLP real (deflacionada pela taxa de inflação) aumenta quando a taxa de inflação aumenta. Consequentemente, o custo real dos empréstimos do BNDES (que corresponde a 46% do crédito corporativo do País) também aumenta, reduzindo os incentivos para o investimento e, portanto, a demanda agregada. Como consequência, as taxas de juros reais de mercado compatíveis com a estabilidade da taxa de inflação serão menores.

A liberalização da terceirização deverá gerar ganhos importantes de produtividade. Como era proibido terceirizar atividades-fim e a definição de atividade-fim dependia do juiz do Trabalho, as empresas somente terceirizavam atividades claramente consideradas atividades-meio, como limpeza, manutenção, etc. Com a liberalização, as empresas poderão se concentrar nas atividades nas quais são mais eficientes e terceirizar tudo aquilo que será feito de forma mais eficiente por outra empresa. O resultado será aumento de produtividade e queda dos custos unitários de produção.

Os efeitos positivos da reforma trabalhista serão muito relevantes. A nova legislação flexibiliza os salários nominais, valoriza as negociações individuais entre patrões e empregados, reduz a incerteza jurídica, diminui o custo de horas extras, incentiva a formalização, diminui o incentivo à rotatividade, enfim, cria as condições para que os ajustes necessários no mercado de trabalho sejam feitos mais através de variações dos salários nominais e menos em variações na taxa de desemprego, da rotatividade e da taxa de inflação. Com isso, diminui as taxas de desemprego (e de juros) necessárias para gerar estabilidade de preços.

Finalmente, no longo prazo, a reforma do ensino médio, ao diminuir o número de matérias obrigatórias e introduzir eletivas profissionalizantes, aumenta a atratividade do curso médio para os jovens de famílias cujos pais têm pouco capital humano acumulado, reduz a evasão escolar e cria um curso menos voltado para a universidade e mais direcionado para o mercado de trabalho, com significativos ganhos de produtividade.

Em conjunto, essas reformas deverão levar a um aumento do crescimento potencial da economia e uma substancial redução estrutural das taxas de juros reais e da taxa de desemprego compatíveis com a estabilidade de preços. Nossa expectativa é de crescimento de 3,9%, desemprego de 9%, taxa de inflação de 3,5% com taxas de juros de 6,5% em 2018.

Ainda falta muito a ser feito antes de o País entrar em uma trajetória de crescimento compatível com as necessidades de um país emergente como o Brasil (simplificação tributária, abertura da economia, etc). Porém, para que o cenário acima se consolide, é fundamental a aprovação de uma reforma no sistema de Previdência Social. Caso contrário, em 20 anos, 100% dos gastos do governo terão de ser dedicados ao pagamento de aposentadorias e pensões. O teto dos gastos se torna insustentável e a questão fiscal volta a ser dominante. E, como em 2016, os investidores vão antecipar esse resultado, forçando aumento dos juros, desvalorização cambial e a volta das pressões inflacionárias.

*É professor do Departamento de Economia da PUC-Rio e economista da Opus Investimentos

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José Luis Oreiro*, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Ao que tudo indica a economia brasileira deverá fechar o ano com um crescimento próximo de 1%, resultante dos efeitos combinados da liberação dos depósitos inativos do FGTS, da redução forte, ainda que tardia, da taxa de juros e do elevado crescimento das exportações, tanto de produtos básicos como de manufaturados, em razão da aceleração do crescimento da economia mundial. Considerando a queda acumulada de quase 9% do PIB real no período 2014-2016 trata-se de uma recuperação anêmica, ainda que bem-vinda.

Mesmo que a economia brasileira consiga engatar uma trajetória de crescimento a partir de 2018, existem razões para acreditar que será um crescimento medíocre, incapaz de colocar o País numa trajetória de “alcançamento” com respeito aos países desenvolvidos. Isso porque a economia brasileira possui uma série de problemas estruturais que limitam seu potencial de crescimento de longo prazo. Na sequência irei fazer uma lista dos principais problemas estruturais que limitam nosso potencial de crescimento.

A teoria econômica indica que o crescimento potencial de uma economia no longo prazo é igual à soma entre a taxa de crescimento da força de trabalho e a taxa de crescimento da produtividade. A taxa de crescimento da força de trabalho depende da taxa de crescimento da população e do crescimento da taxa de participação, ou seja, do aumento da razão entre a força de trabalho e a população. Em razão da queda tendencial da taxa de fecundidade (filhos por mulher) derivada do processo acelerado de urbanização da economia brasileira nos últimos 50 anos, a taxa de crescimento da população vem se reduzindo progressivamente, situando-se hoje em torno de 0,8% ao ano. Na década passada, a força de trabalho cresceu a um ritmo superior ao crescimento da população devido ao aumento da taxa de participação, induzida pela expansão do nível de emprego.

Embora a recessão de 2014 a 2016 tenha aumentado a taxa de desemprego, não podemos mais contar com um aumento significativo da taxa de participação nos próximos 15 anos, dado que a mesma já se encontra num patamar elevado. Dessa forma, o crescimento da força de trabalho deve contribuir com, no máximo, 1 ponto porcentual para o crescimento do PIB nos próximos anos.

E o que dizer sobre o desempenho futuro da taxa de crescimento da produtividade do trabalho? O ritmo de crescimento da produtividade do trabalho depende da taxa de acumulação de capital físico e humano por trabalhador, bem como da taxa de transferência de mão de obra dos setores com menor valor adicionado per capita para os setores com maior valor adicionado per capita, fenômeno conhecido na literatura como mudança estrutural.

O problema é que a economia brasileira vem passando nos últimos 20 anos por um processo de desindustrialização precoce, ou seja, por uma mudança estrutural negativa, a qual tem impacto deletério sobre o crescimento de longo prazo por dois canais distintos. Por um lado, a desindustrialização reduz o nível e a taxa de crescimento da produtividade do trabalho uma vez que (i) a produtividade do trabalho é, na média, mais alta na indústria de transformação do que nos demais setores; de forma que uma redução da participação daquela no PIB reduz a produtividade média da economia e (ii) a indústria é a fonte dos retornos crescentes de escala e do progresso técnico (na sua maior parte incorporado em máquinas e equipamentos) indispensáveis para o crescimento da produtividade no longo prazo.

Por outro lado, a elasticidade-renda das exportações dos produtos manufaturados é maior do que dos produtos primários, de tal forma que a desindustrialização atua no sentido de criar um desequilíbrio externo estrutural, tornando o País dependente de poupança externa e, portanto, dos humores dos mercados financeiros internacionais.

Em segundo lugar, o Brasil possui um desequilíbrio fiscal estrutural que se expressa numa nítida tendência de elevação da despesa primária como proporção do PIB nos últimos 20 anos. Soma-se a esse desequilíbrio estrutural um desequilíbrio fiscal conjuntural causado pela queda significativa da arrecadação tributária como proporção do PIB decorrente da grande recessão do período 2014-2016 e das desonerações de impostos (sem exigência de contrapartidas) feitas durante o primeiro mandato da presidente Dilma.

Sendo assim, torna-se necessário interromper (não necessariamente reverter) o processo de crescimento da despesa primária (como proporção do PIB), bem como rever as generosas desonerações dadas durante a vigência da “nova matriz macroeconômica”; de modo a viabilizar a obtenção de um superávit primário próximo de 2,5% do PIB até 2022 e impedir a ocorrência de uma crise da dívida pública com o consequente retorno do regime de alta inflação.

Por outro lado, quando olhamos para a composição da despesa primária, observamos que menos de 10% da mesma é composta por investimento público. Os restantes 90% se destinam ao pagamento de gastos previdenciários e de assistência social, dos salários do funcionalismo público e do custeio de saúde e educação. Como os investimentos públicos em infraestrutura são fundamentais para o aumento da produtividade da economia como um todo e da competitividade da indústria de transformação, segue-se que é necessário mudar a composição da despesa primária, aumentando a participação dos investimentos.

Por fim, o Brasil possui uma instabilidade macroeconômica recorrente que se expressa em inflação relativamente alta (média de 6,5% no período 1999-2015) e uma tendência à sobrevalorização da taxa de câmbio, pontuada por episódios de desvalorização súbita e expressiva. A resistência da inflação no patamar de 6% ao ano explica a manutenção da taxa de juros em patamares elevados, o que aumenta o custo do capital, desestimulando os investimentos produtivos, como ainda contribui para a valorização do câmbio ao atrair capitais externos interessados apenas em lucrar com o enorme diferencial entre os juros internos e externos.

Esses problemas estruturais precisam ser tratados, com seriedade, pelos candidatos à Presidência da República durante a campanha eleitoral de 2018. O Brasil não tem tempo para perder com disputas infantis entre “coxinhas” e “mortadelas”.

*É professor de Departamento de Economia da Universidade de Brasília

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Encontro marcado em 2019

O alicerce da atual estabilidade macroeconômica está na confiança de que o País conseguirá estabilizar sua dívida pública como proporção do PIB

Zeina Latif*, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

É possível que nunca na história econômica do Brasil o curto prazo tenha tido tanta importância para definir o destino do País como agora.

O Brasil passa, possivelmente, por sua mais grave crise fiscal, que vai se agravar com o envelhecimento da população e suas consequências sobre as despesas previdenciárias. A demografia também reduzirá o potencial de crescimento do País, o que exige reformas para impulsionar os ganhos de produtividade, praticamente estagnados desde a década de 1980. Não há espaço para um governo medíocre em 2019.

Os investidores têm dado o benefício da dúvida ao governo e poderão fazer o mesmo com os candidatos à presidência, pois há o reconhecimento de que a reforma da Previdência está na agenda política do País, devendo ser aprovada pelo próximo presidente. Está cada vez mais claro que se trata de política de Estado e não de governo.

O problema é se a reforma não for ambiciosa o suficiente. O alicerce da atual estabilidade macroeconômica está na confiança de que o País conseguirá estabilizar sua dívida pública como proporção do PIB. Se a confiança se for, as consequências poderão ser sérias a ponto de afetar a capacidade do próximo presidente de governar.

O desafio não para por aí. O bônus demográfico (aumento do diferencial entre pessoas em idade ativa e a soma de crianças e idosos), que contribuiu para o crescimento do País desde meados da década de 70, vai se esgotar nos próximos cinco anos. Sem ganhos de produtividade, o aumento do PIB per capita ficará comprometido. A agenda de promoção da produtividade não é simples e enfrenta resistências, como na reforma tributária.

Por tudo isso, os candidatos a presidente estarão sob escrutínio, o que poderá contaminar o ambiente econômico em 2018. Em uma eleição que promete ser disputada e bastante incerta até as vésperas do primeiro turno, é natural uma postura cautelosa dos agentes econômicos. Algumas decisões de contratação de mão de obra e de investimento poderão ser adiadas, bem como a concessão de crédito pelos bancos, especialmente em meio à elevada incerteza jurídica no País que compromete severamente a capacidade de recuperação de ativos.

Apesar disso, 2018 poderá surpreender positivamente. O País vem ganhando maturidade e o governo implementou importantes ajustes na política econômica. Tanto na chamada agenda microeconômica, com medidas que visam a eliminar distorções do sistema econômico e brechas para irresponsabilidade fiscal, como nas reformas estruturais, como a regra do teto, a reforma trabalhista e a criação da TLP.

Nossa história ensina que todas as vezes que seguimos os manuais, perseguindo políticas responsáveis e racionais, a economia reage bem e de forma surpreendente. Foi assim em 2017, com a expressiva queda da inflação e da taxa de juros pelo Banco Central, com impacto na confiança dos consumidores e dos empresários e, portanto, no mercado de trabalho, que iniciou a recuperação antes do esperado.

2018 será o ano de colher a recuperação da economia já iniciada. Empresários e consumidores estarão mais otimistas. Isso porque o corte da Selic tem impacto na atividade econômica com defasagens, sendo que o auge do efeito se dá depois de um ano. A volta da economia está, portanto, contratada. Estimamos 3% de crescimento do PIB, já contando com algum ruído eleitoral. Surpresas positivas não podem ser descartadas.

Importante lembrar que não será possível recuperar rapidamente o desastre dos últimos anos. A crise afetou as condições financeiras de empresas e indivíduos, e sua superação leva tempo. Além disso, o desequilíbrio das contas públicas limita a recuperação. Não apenas pela impossibilidade de usar a expansão fiscal como instrumento anticíclico, mas também porque o risco fiscal é a espada de Dâmocles que ameaça investimentos de longo prazo. Como investir num país em que não se sabe qual vai ser o ambiente econômico no futuro, bem como a carga tributária?

O ambiente externo é elemento de sorte. A economia e o comércio mundial ganham tração, e há razões para acreditar que se trata de um movimento com fôlego. Riscos inflacionários no mundo não são para já e, portanto, para o próximo ano não haveria aperto monetário nas economias avançadas, mas apenas elevação moderada dos juros internacionais. Esse quadro, aliado à baixa volatilidade da moeda americana, fruto do crescimento mais sincronizado dos países em relação ao passado, ajuda a manter a inflação baixa no Brasil e algum interesse dos estrangeiros.

A gestão mais responsável da política econômica e a escassez de recursos reforçam o quadro de inflação baixa, enquanto a elevada ociosidade da economia ajuda a conter correções salariais e de preços. Os riscos inflacionários em 2018 são baixos, o que torna pouco provável a elevação da taxa de juros pelo Banco Central.

O ruído eleitoral poderá ser mais contido do que se imagina e com impacto limitado na economia, pelos fatores econômicos discutidos acima, e também porque há boas chances de a campanha, apesar de agressiva nos ataques pessoais, ser responsável na discussão da agenda econômica. Não há apelo para discursos populistas, ao menos dos candidatos competitivos. Eles terão de pensar no dia seguinte. Como governar se não tiverem discurso responsável na campanha? A campanha de 2014 deixou lições. E a própria sociedade parece mais consciente das dificuldades fiscais.

2018 será provavelmente um bom ano. Um cenário de elevada incerteza eleitoral poderá reduzir o potencial de recuperação, mas não a ponto de abortá-la, sendo que a falha do governo em entregar a reforma da Previdência, que seria seu principal legado, poderá cobrar seu preço.

Na agenda econômica, não será um ano de paralisia. Reformas importantes poderão ser aprovadas no Congresso, como cadastro positivo, recuperação judicial, regulamentação do distrato, medidas da agenda BC+, reformulação do Fies, medidas tributárias, marco regulatório do setor de energia, entre outras.

O ano da verdade será, na realidade, 2019, e não 2018. Assim como foi 2015, quando a confiança se foi ao se constatar que o governo não tinha agenda de ajuste fiscal. A crise fiscal exigirá uma agenda sólida e ambiciosa de reformas. A lua de mel do próximo presidente será curta.

*É economista-chefe da XP Investimentos

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Luiz Schymura *, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Estamos a menos de um ano da eleição presidencial. O que esperar do cenário econômico para 2018?

Para tornar mais clara minha reflexão, divido-a em dois campos: conjuntural e estrutural. Começarei apresentando os aspectos conjunturais interno e externo relevantes para uma avaliação da economia brasileira.

Por conta de dois anos, 2015 e 2016, de forte retração da atividade econômica e do incômodo convívio com uma taxa de desemprego de dois dígitos, o PIB brasileiro apresenta desempenho aquém da capacidade produtiva do País. Há ociosidade dos fatores de produção. Ao quantificá-la, os especialistas não chegam a um consenso. Os mais otimistas creem que exista espaço para elevar o nível do PIB em 8%, enquanto que, na outra ponta, os pessimistas calculam um hiato do produto na faixa de 3%. Seja quanto for, um crescimento na faixa de 3% em 2018 parece não ser nada desafiador.

Observando a conjuntura internacional, a economia dos países desenvolvidos cresce de forma sustentada, a taxa de desemprego encolhe, e a taxa de inflação mantém-se baixa e sob controle. E o mais importante: para fugir da baixa rentabilidade, o capital procura pouso em estâncias fora do primeiro mundo.

Neste contexto, oitável. Nest interesse em investir e aportar recursos em nosso País se amplia, desde que, evidentemente, o nível de risco percebido internacionalmente seja acea frente, portanto, as notícias são muito positivas.

Passo agora ao aspecto estrutural que poderia afetar a economia brasileira em 2018: as contas do setor público. Os dados relativos ao desajuste fiscal não deixam margem a dúvidas. O Estado brasileiro convive com um desequilíbrio recorrente em seu orçamento: não consegue gerar em cada exercício fiscal receita suficiente sequer para cobrir as despesas, mesmo quando o pagamento do juro não é computado. O processo de deterioração é inquestionável. Em dez anos, o resultado primário saiu de um patamar de 3% de superávit para 2,4% de déficit, em 2017.

Embora o estoque, isto é, o tamanho da dívida, ainda não seja um problema aterrador, o débil desempenho das contas públicas ano após ano coloca em cheque a solvência do setor público. Os dados são contundentes. A partir de 2013, a dívida líquida cresce de forma inequívoca, saindo de cerca de 30,5% para 50,7% do PIB em outubro deste ano.

A impressão que se tem é a de que o bom desempenho estrutural da economia brasileira deve passar pela melhora consistente no resultado das contas públicas. Por conseguinte, como anda o processo para reverter o descompasso fiscal?

Sob a ótica da União, a contenção na expansão dos gastos virou o alvo. Com a aprovação da Emenda Constitucional 95, de 15 de dezembro de 2016, a chamada emenda do teto, as despesas do governo central não podem mais crescer acima da inflação. Ao cumpri-la, os levantamentos feitos por técnicos sugerem que o problema fiscal estará resolvido. Pelo menos em tese as contas públicas ficarão equilibradas.

Contudo, é importante dar uma noção do esforço fiscal necessário implícito na observância da emenda constitucional. Ao longo dos últimos 20 anos, os gastos da União crescem a uma taxa média em torno de 6% reais ao ano. Em termos prospectivos, caso nenhuma mudança importante seja efetuada nos programas existentes, a elevação continuará ao ritmo de cerca de 3,5% reais ao ano. Ao supor que a reforma da Previdência proposta pelo governo comece a viger, Manoel Pires, pesquisador da FGV Ibre, estima que a taxa de expansão operará na faixa de 2,2% reais ao ano.

A emenda constitucional, por seu turno, exige que as despesas da União cresçam a uma taxa não superior a 0% real ao ano. Caso contrário, o teto será violado. Como se vê, a tarefa não é simples. O corte tem de ser expressivo.

Ao analisar os dados, os especialistas reconhecem a grande dificuldade no respeito ao teto já em 2019. Embora a emenda constitucional estabeleça dispositivos de ajustes, é difícil imaginar um cenário no qual eles sejam acionados. Antes que isso aconteça, o País chegará a um nível visível e incômodo de paralisação da máquina pública, com cortes crescentes do custeio flexível para compensar o aumento irrefreável das despesas rígidas.

Embates político-institucionais estarão, portanto, na ordem do dia. É inexorável. Com todos os seus propagados méritos no equacionamento das contas públicas, a emenda constitucional abrirá uma caixa de Pandora de indagações, incertezas e riscos. Com isso, parece inevitável que ao longo do próximo governo seja instituído um marco legal que substituirá a emenda do teto.

Enfim, resta saber de que forma a economia brasileira responderá aos sinais trocados oriundos dos aspectos conjuntural e estrutural. De um lado, as contas públicas ainda não controladas desestimulam o investimento. Por outro lado, a ociosidade nos meios de produção, legada pela crise, conjugada com os ventos internacionais extremamente favoráveis, permitirá uma melhora significativa no PIB, sem a consequente pressão inflacionária.

O cenário dos pesquisadores da FGV Ibre é de melhora nos principais indicadores no próximo ano. Assim, a taxa de crescimento sai de 1% em 2017 e atinge 2,8% em 2018. A taxa de desemprego, por sua vez, parte do patamar de 12,8% neste ano e reduz-se para 12,4% no próximo. A taxa de inflação firme em torno de 3,9% e taxa de juro com expectativa de estar rodando na faixa entre 6,75% e 7,25% em 2018. Um aspecto, no entanto, não pode passar despercebido: o crescimento será liderado pelo consumo das famílias.

Isso torna o avanço menos suscetível aos atribulados movimentos políticos porvir, diferentemente do que se esperaria caso a alavanca da expansão fosse o investimento. Afinal, é de se esperar que a decisão de investir seja mais sensível ao quadro político do que a de consumir.

Continuando ainda na toada do exercício de futurologia. O debate em 2018 será pautado por especulações sobre o que será feito a partir de 2019. De concreto, nada. Apenas promessas e suposições. No novo governo, entretanto, tanto os arranjos políticos como a conjuntura global possivelmente terão outra configuração. A crise fiscal, contudo, estará lá, firme e difícil de ser gerida.

* Pesquisador da FGV Ibre

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Carlos Melo *, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

A suposta supremacia da economia sobre a política povoou o senso comum durante muito tempo. A frase de James Carville, assessor de Bill Clinton, ainda ressoa: “é a economia, estúpido” fez escola na percepção da prevalência dos tais fatores de bem-estar econômico sobre o rondó sem fim, que é a discussão política – seus interesses dispersos, idiossincrasias e princípios mais ou menos abstratos.

No Brasil, esse sentimento foi reforçado por interpretações um tanto mecânicas dos planos Cruzado e Real. O primeiro, em 1986, ajudou o PMDB a eleger 22 governadores dentre 23 possíveis; o segundo fez Fernando Henrique Cardoso presidente da República, eleito ainda no primeiro turno de 1994.

Igualmente, o boom de commodities – que reelegeu Lula, em 2006, e operou o prodígio de eleger Dilma Rousseff duas vezes (2010 e 2014) presidente do Brasil – alimenta esse raciocínio. Além da presente crise econômica que contribuiu, decisivamente, para o afastamento da ex-presidente e a derrocada do PT nas eleições municipais de 2016.

Ora, é evidente que o momento econômico influencia o contexto social e político em qualquer país; é claro que pode definir eleições. Mas, como tudo na vida, nada é tão simples assim. Fenômenos econômicos como os descritos acima foram, antes, dependentes da política; são frutos de boas ou más escolhas políticas, e não o contrário. Logo, não há autonomia da economia sobre a política; há, na verdade, correlação e dependência mútuas.

No desconhecimento disso reside o principal erro analítico de quem vislumbrou e ainda vislumbra um ano eleitoral de 2018 de sucesso para o governo de Michel Temer, em virtude dos resultados econômicos que, eventualmente, o País possa alcançar nos próximos meses.

Primeiro porque, ao contrário de outros momentos – 1986, 1994 e 2010 –, o sistema político atual passa por uma crise sem registro na história, com índices rastejantes de popularidade. É dispensável recordar, aqui, os transtornos revelados pela Operação Lava Jato e seus efeitos para a credibilidade dos políticos.

Em segundo lugar, para que a economia possa ser determinante na disputa das urnas do próximo ano, sua euforia deveria ser comparável ao clima despertado pelo Cruzado, Real e o boom de commodities. Todavia, por mais que o quadro venha a ser positivo, o clima será, ainda, de recuperação. Para o cidadão comum, as perdas com a prolongada recessão não estarão plenamente compensadas. Será importante, mas insuficiente.

Analistas de mercado têm se animado com resultados já alcançados pela equipe econômica do governo e, provavelmente, ainda alcançáveis no próximo ano. Com efeito, a inflação retroagiu – está mesmo abaixo da meta do Copom, os juros caíram ao menor patamar histórico, os preços dos ativos estão baixos e é grande o potencial das concessões e privatizações.

Porém, a continuidade do processo depende da sustentabilidade política. Reformas estruturais, nas mãos do Congresso Nacional, capazes de elevar a confiança dos agentes econômicos e o ânimo para investimentos que potencializem a economia, reduzindo gargalos e higienizando o ambiente de negócios.

O quadro é, porém, conhecido: sistema político anacrônico e disfuncional, elevadíssimas taxas morais e fiscais que debilitam a confiança de eleitores e investidores. Um corpo político fraco, com enorme dificuldade para dar luz ao novo, no campo econômico. E nem se trata de crítica moral ao natural fisiologismo de qualquer sistema, as de alerta para o estágio de hiperfisiologismo, com crescente ineficácia nos processos de discussão, negociação e aprovação de projetos.

Impõe-se um dilema: como ajudar a economia a ajudar a política se a política não apenas não se ajuda como também compromete a economia? É evidente que abrir mão da política e da democracia não são alternativas.

Dizem a literatura e a experiência internacionais que o principal dado econômico, com capacidade de influenciar eleições, são os índices de emprego. Quanto menores, maior o receio do futuro e pior o humor do eleitor, maior sua tendência ao protesto e à mudança – ou à nostalgia do passado, idealizado como “bons tempos”. Neste quesito, o desempenho nacional é ainda insatisfatório: haverá tempo para reverter o processo com a celeridade necessária para interferir no clima eleitoral?

Políticas públicas como segurança, saúde e educação são fundamentais, sobretudo num quadro de desemprego elevado. Como estarão as finanças de Estados e municípios, responsáveis e provedores de políticas desse tipo? Embora relevante, neste 2018 que se aproxima, a economia dependerá mais da política do que o contrário. Na realidade dura e crua, a economia poderá fazer pouco pela política.

O fato é que o País perdeu o timing do choque de expectativas, após o impeachment. Mais recentemente, perdeu também o ritmo das reformas. No autoengano houve desídia do mercado, embaraço moral e oportunismo do sistema político, ilusão e desconhecimento daqueles que, mais uma vez, negligenciaram importantes detalhes políticos. Isto tudo retirou da economia todo ou parte do potencial eleitoral que teria.

Óbvio que candidatos do autodenominado “centro democrático” tocarão o bumbo da recuperação econômica. Naturalmente, o presidente e sua base já tremulam bandeiras de um suposto legado econômico – qual seria o “legado” político? –, mas isso pode ser menos relevante do que gostariam.

Candidatos de oposição enfatizarão problemas econômicos, lacunas e insatisfações, apontando também o agravamento de questões sociais. E, claro, aqueles que puderem cuspir para o alto destacarão as mazelas e a deterioração da credibilidade do sistema.

A pregação econômica, metódica e racional, do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ou do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, fala à razão de iniciados em relatórios e projeções econômicas, alegra convertidos. Mas, enquanto isso tudo não for percebido concretamente no cotidiano das pessoas comuns, o efeito eleitoral será pequeno. No Brasil, tudo é duvidoso, mas o mais provável é que 2018 seja o ano da política.

* Professor do Insper

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Murillo de Aragão *, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Existem anos que não terminam conforme o calendário gregoriano. Outros começam mais cedo, já plenos de ansiedade e incertezas. O novo ano já está em curso, precipitado pela pré-campanha eleitoral à Presidência da República. E com uma agenda repleta de acontecimentos. Se a campanha será curta – apenas 45 dias –, a atual pré-campanha será a mais longa da história política recente do Brasil.

No campo político, pululam candidatos a candidatos, o que é mais do que esperado. Tanto de esquerda quanto de centro, e isso resulta de três fenômenos: a divisão das esquerdas, a indefinição do centro e a busca pela renovação. Muitos lembram que a campanha de 2018 poderá ser semelhante à de 1989, quando houve 22 candidatos, entre os quais 11 eram políticos de expressão.

Na esquerda, Lula (PT) já tem a companhia da deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) e, eventualmente, a do ativista Guilherme Boulos (MTST), além do inoxidável ex-ministro Ciro Gomes (PDT). No centro e na centro-direita, aparecem alguns nomes. Na centro-esquerda estão Marina Silva e Álvaro Dias. Na esfera governista, quem diria, há muitos candidatos a candidatos: o economista Paulo Rabello de Castro (PSC), atual presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o ministro Henrique Meirelles (PSD), o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o deputado Rodrigo Maia (DEM), o prefeito João Dória (PSDB) e, quem sabe, o presidente Michel Temer (PMDB).

O mercado teme a divisão do centro em candidaturas diversas e prefere que todos se unam em torno de Geraldo Alckmin ou Dória. Não deseja que se repita o ocorrido na última eleição municipal do Rio de Janeiro, quando o centro, dividido em três candidaturas, ficou fora do segundo turno. Ainda assim, aqui e ali, discretamente, surgem suspiros em favor de Henrique Meirelles e de Michel Temer. A economia poderá viabilizá-los? Talvez sim. Talvez não. A melhora no setor pode ajudar o centro político a se unir.

No campo do folclore político, o deputado Jair Bolsonaro (PSC) lidera com folga e preocupa. Será que encarnará o desejo de renovação? Acho que não, mas a cabeça do eleitor anda meio esquisita. Resta saber se terá fôlego, estrutura e narrativa para uma corrida cheia de obstáculos. No campo dos eventos, a agenda está cheia de temas relevantes. No primeiro trimestre, que costuma ser sonolento até o fim de fevereiro, teremos ao menos dois eventos magnum: o julgamento de Lula no TRF-4 e a votação da reforma da Previdência na Câmara. No fim de março, cerca de 16 ministros devem ser substituídos para poderem concorrer nas eleições de outubro.

Esses são temas que têm o condão de influir o ano inteiro. Caso Lula seja condenado, em que pese os recursos de sempre, ele será ficha-suja e isso atrapalhará seus planos. A radicalização decorrente de sua condenação poderá incendiar o eleitorado a seu favor – o que não acredito –, mas decerto aumentará também sua taxa de rejeição. Ao final, ele poderá ter a pecha de criminoso em seu currículo.

A aprovação da reforma da Previdência na Câmara, seja ela qual for, será música para o mercado e para os investidores. Fortalecerá o governo e seus pré-candidatos. Os efeitos econômicos serão sentidos, ainda que o debate se arraste até o fim do ano. A reforma ministerial poderá espelhar o centro unido em torno de uma candidatura ou a confirmação de que o centro estará dividido entre o PSDB e um candidato governista.

Apesar de as tendências apontarem para uma condenação de Lula e a aprovação de alguma reforma previdenciária, 2018 carrega muitas incertezas. Será um ano de visibilidade curta e estaremos envoltos em nuvens de incertezas nos campos político, jurídico e econômico. Agora, como no âmbito da Justiça tudo é possível, a candidatura de Lula não pode ser descartada.

O pior dos mundos será o ex-presidente agindo como candidato pendurado em recursos ao Superior Tribunal de Justiça, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal. É um cenário possível. E, em sendo candidato, que versão de Lula teremos: a de 1989, de 1994, de 2002 ou de 2006? Teremos uma nova Carta aos Brasileiros? Continuará ele sendo um encantador de serpentes da direita e da esquerda, como em 2002?

No campo jurídico, a Operação Lava Jato pode trazer à tona fatos que abalem o sistema. Existem delações que ainda podem ocorrer e com elevado potencial destrutivo. Assim, o Supremo, que julga em ritmo lento, pode decidir questões que inviabilizem próceres do mundo político. Nesse campo, a já mencionada abundância de candidatos é, por si só, um carnaval para os analistas. No campo econômico, se a retomada for consistente, o governo ganha autonomia para tentar liderar o centro. Até agora a retomada não foi suficiente para alavancar candidaturas.

Movimentos. No âmbito da sociedade, movimentos buscam incentivar a tão necessária participação na política. Iniciativas como a do Renova BR, de Eduardo Mufarrej, agregam interesse e mobilização pouco vistos em processos eleitorais recentes. Teremos alguma renovação, na certeza de que coisas grandes começam pequenas. Infelizmente, o sistema eleitoral brasileiro não é permeável à renovação na intensidade que a sociedade deseja.

A pré-campanha eleitoral já está posta nas redes sociais e as “fake news” ocupam a agenda. A ponto de o Tribunal Superior Eleitoral ter definido regras duras para o uso da internet na campanha. Nesse campo, temos algumas certezas: as campanhas contarão com menos verba do que as anteriores e, em consequência, as redes sociais serão cruciais para os candidatos, devendo haver uma inundação de “fake news”. Para quem gosta de emoções e volatilidade, haverá os gráficos nervosos de indicadores de bolsa, de câmbio, de juros etc.

Conforme se diz, o Brasil continuará a ser um país para profissionais e para investidores com sangue-frio.

* Sócio-fundador da Arko Advice

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Barry Eichengreen *, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Após dois anos de profunda crise (2015 e 2016), a partir do primeiro trimestre de 2017 a economia brasileira começou a dar sinais de recuperação. Inicialmente concentrada na agropecuária, a partir do segundo trimestre do ano a recuperação se espalhou para outros setores da economia.

A liberação dos recursos inativos do FGTS e a forte queda da inflação geraram crescimento da renda real das famílias e fizeram do consumo o motor da retomada da atividade. A partir do terceiro trimestre os investimentos começaram a dar sinais de vida, com crescimento positivo, após 13 trimestres de queda.

Diante desse cenário, duas questões se colocam: qual a intensidade da retomada e quanto do crescimento e da queda da inflação se devem a fatores cíclicos, que se esgotarão no curto prazo, e quanto decorre de fatores estruturais que podem ter aumentado a taxa de crescimento do produto potencial e reduzido a inflação estruturalmente.

Desde agosto de 2016, o País passa por um importante conjunto de reformas que deverá mudar o comportamento da economia brasileira no curto, médio e longo prazos.

No curto prazo, o fim da obrigatoriedade de a Petrobrás participar da exploração de todos os poços do pré-sal e a redução da exigência de conteúdo nacional nas plataformas liberaram os leilões e reduziram o custo para a exploração do petróleo no País. A liberalização dos preços dos combustíveis, sua vinculação aos preços internacionais do petróleo, a abertura do capital da BR Distribuidora e o anúncio da privatização da Eletrobrás são todas decisões que melhoram a alocação dos recursos, atraem investimentos em setores estratégicos e aumentam o potencial de crescimento da economia.

No médio prazo, quatro reformas terão efeitos importantes já a partir de 2018: o teto para o crescimento do gasto público, a substituição da TJLP pela TLP como a taxa de juros dos empréstimos do BNDES, a liberalização da terceirização e a reforma trabalhista.

O teto para o crescimento do gasto público vai mudar a forma como o orçamento público é definido. Com o teto, qualquer proposta de aumento de gasto terá de ser compensada por redução em outro gasto. Ou seja, a restrição orçamentária terá de ser respeitada. Com isso, o gasto público como proporção do PIB terá uma redução de 5 pontos de porcentagem em 20 anos. A reação dos investidores foi imediata. Os títulos públicos que, em média, pagavam taxas de juros acima de 20% ao ano no início de 2016, estão hoje pagando juros abaixo de 10% ao ano.

A substituição da TJLP pela TLP, além de eliminar os subsídios implícitos por ser a TJLP menor que as taxas pagas pelo Tesouro para se financiar (em média R$ 50 bilhões por ano nos últimos 10 anos), fará com que o BNDES se torne um “amigo” do Banco Central no combate à inflação. Ao contrário da TJLP real, a TLP real (deflacionada pela taxa de inflação) aumenta quando a taxa de inflação aumenta. Consequentemente, o custo real dos empréstimos do BNDES (que corresponde a 46% do crédito corporativo do País) também aumenta, reduzindo os incentivos para o investimento e, portanto, a demanda agregada. Como consequência, as taxas de juros reais de mercado compatíveis com a estabilidade da taxa de inflação serão menores.

A liberalização da terceirização deverá gerar ganhos importantes de produtividade. Como era proibido terceirizar atividades-fim e a definição de atividade-fim dependia do juiz do Trabalho, as empresas somente terceirizavam atividades claramente consideradas atividades-meio, como limpeza, manutenção, etc. Com a liberalização, as empresas poderão se concentrar nas atividades nas quais são mais eficientes e terceirizar tudo aquilo que será feito de forma mais eficiente por outra empresa. O resultado será aumento de produtividade e queda dos custos unitários de produção.

Os efeitos positivos da reforma trabalhista serão muito relevantes. A nova legislação flexibiliza os salários nominais, valoriza as negociações individuais entre patrões e empregados, reduz a incerteza jurídica, diminui o custo de horas extras, incentiva a formalização, diminui o incentivo à rotatividade, enfim, cria as condições para que os ajustes necessários no mercado de trabalho sejam feitos mais através de variações dos salários nominais e menos em variações na taxa de desemprego, da rotatividade e da taxa de inflação. Com isso, diminui as taxas de desemprego (e de juros) necessárias para gerar estabilidade de preços.

Finalmente, no longo prazo, a reforma do ensino médio, ao diminuir o número de matérias obrigatórias e introduzir eletivas profissionalizantes, aumenta a atratividade do curso médio para os jovens de famílias cujos pais têm pouco capital humano acumulado, reduz a evasão escolar e cria um curso menos voltado para a universidade e mais direcionado para o mercado de trabalho, com significativos ganhos de produtividade.

Em conjunto, essas reformas deverão levar a um aumento do crescimento potencial da economia e uma substancial redução estrutural das taxas de juros reais e da taxa de desemprego compatíveis com a estabilidade de preços. Nossa expectativa é de crescimento de 3,9%, desemprego de 9%, taxa de inflação de 3,5% com taxas de juros de 6,5% em 2018.

Ainda falta muito a ser feito antes de o País entrar em uma trajetória de crescimento compatível com as necessidades de um país emergente como o Brasil (simplificação tributária, abertura da economia, etc). Porém, para que o cenário acima se consolide, é fundamental a aprovação de uma reforma no sistema de Previdência Social. Caso contrário, em 20 anos, 100% dos gastos do governo terão de ser dedicados ao pagamento de aposentadorias e pensões. O teto dos gastos se torna insustentável e a questão fiscal volta a ser dominante. E, como em 2016, os investidores vão antecipar esse resultado, forçando aumento dos juros, desvalorização cambial e a volta das pressões inflacionárias.

É fundamental a aprovação de uma reforma no sistema de Previdência Social

O ano de 2017 foi bom para a economia mundial, e 2018 prepara-se para ser ainda melhor. Os mercados financeiros estão ricamente valorizados, sinalizando o consenso entre os investidores de que os bons tempos persistirão. Tudo isso faz com que seja prudente considerar o que poderia dar errado. A lista de possibilidades é longa. A questão é saber quais as chances que deveremos anexar a ela.

Essa lista começa, como essas listas tradicionalmente o fazem, com a possibilidade de uma acentuada desaceleração na China. A China representa um terço do crescimento global. Eliminar esse terço ou mesmo tê-lo reduzido de forma significativa poderia causar um golpe ao comércio, aos preços de commodities e às avaliações de ativos.

O crescimento chinês tem sido mantido em torno dos 7% apenas através de consideráveis injeções de liquidez, alimentando um “boom” de preços imobiliários e uma compulsão corporativa de tomar empréstimos. Os líderes chineses, com o Congresso do Povo por trás deles, agora parecem ter a intenção de drenar essa liquidez dos mercados e eliminar o excesso de capacidade na indústria pesada.

Se, ao fazerem isso, a bolha imobiliária arrebentar, as despesas de investimento serão suavizadas. As empresas estatais, especialmente na indústria, terão dificuldade em pagar os juros e o principal de suas dívidas. Esses problemas com dívidas poderiam então arrastar bancos e monopólios expostos aos setores industrial e imobiliário.

Mas os líderes chineses não estariam empreendendo tais reformas se duvidassem da capacidade da economia para apoiá-las. Atualmente, a parte de crescimento mais acelerado da economia chinesa é o setor de serviços, que enfrenta o atraso criado por uma expansão mais lenta em produção e construção.

O setor de serviços não é tão dependente do crédito quanto uma indústria e um setor imobiliário, mais intensivos em capital, dando bases para se pensar que pode manter seu impulso, apesar da menor criação de liquidez. Portanto, os líderes da China podem ter razão sobre sua capacidade de manter o crescimento em mais de 6%.

O risco na Itália. Na Europa, a confiança está aumentando, em parte porque a economia está crescendo novamente e em parte porque o continente deixou para trás uma série de eleições litigiosas. Mas a Itália é uma exceção: tem tanto uma economia em más condições quanto uma eleição iminente, na qual o Movimento Cinco Estrelas, antieuro, e a Liga Norte poderiam registrar importantes ganhos.

Se esses populistas italianos, ao formar um governo, persistirem com seus planos de abandonar o euro, a Europa poderia enfrentar turbulências que tornarão insignificantes quaisquer problemas experimentados no auge da crise grega em 2015.

Mas é importante lembrar-se da solução dessa crise. Mesmo que o primeiro-ministro Alexis Tsipras tivesse um mandato popular para abandonar o euro, ele concluiu que um Grexit representaria insondáveis riscos econômicos e financeiros e que isso iria prejudicar de forma irreparável a posição da Grécia como membro fiel da União Europeia.

Qualquer futuro primeiro-ministro italiano enfrentará a mesma realidade. O sistema bancário da Itália já está frágil e não pode enfrentar outro golpe. Também vale a pena lembrar que a Itália é um membro fundador da Comunidade Europeia. Em última análise, o país terá de escolher entre reformas estruturais e a saída do euro. Aposto nas reformas, só não sei dizer quando.

Emergentes. Um terceiro risco para o crescimento global é representado pelos mercados emergentes. Aqui, a Turquia, não o Brasil ou a África do Sul, é o primeiro na minha lista de observação. A economia turca cresceu impressionantes 11% no terceiro trimestre, mas apenas às custas de um orçamento substancial e déficits de conta corrente. O país conta com financiamento estrangeiro, mas seu governo está minando energicamente a liberdade de imprensa e o Estado de Direito, o que não é uma forma de atrair investimentos estrangeiros – fatos que já se refletiram em uma moeda fraca. O país tem uma complicada vizinhança geopolítica. E tem disputas que se deterioram com a UE e os Estados Unidos.

A questão é saber se a Turquia é suficientemente grande para arruinar a economia mundial. Se alguém vê a sua economia e os mercados financeiros isoladamente, a resposta é não. Mas nada que se refira à Turquia é isolado; pelo contrário, o país está profundamente entranhado na política e nos mercados globais. Se uma crise financeira levar Erdogan a entrar em confronto como forma de desviar a atenção dos problemas domésticos, as repercussões podem ser de grande alcance. Deixando de receber o que ele considerava um apoio adequado da Europa e dos EUA, Erdogan poderia abrir os portões de refugiados. Ou poderia intensificar as hostilidades com os curdos, desestabilizando ainda mais o Oriente Médio.

EUA. O que nos deixa com o maior risco para 2018 é, especificamente, os Estados Unidos. Mas obviamente existe o Federal Reserve, que está se mobilizando para normalizar o nível das taxas de juros. Com a economia perto do pleno emprego – a leitura mais recente da taxa de desemprego, lembrando, foi de 4,1% –, a inflação salarial permanece surpreendentemente moderada, encorajando especulações de que a Curva de Phillips está morta. Mais provável, a Curva de Phillips está apenas dormindo, e a inflação salarial aumentará se o desemprego continuar a cair. Os EUA já estão enfrentando escassez de mão de obra nos setores de construção e energia, nos quais os salários estão aumentando em uma velocidade anual de mais de 4%.

Se essa tendência se espalhar para outros setores, o Fed poderia encontrar-se por trás da curva, e terá de surpreender os mercados aumentando as taxas de forma mais rápida do que o esperado. E os mercados não gostam de surpresas. Taxas acentuadamente mais elevadas nos EUA seriam ruins para Wall Street, para os mercados emergentes e para o crescimento em geral.

Depois, há a política fiscal desestabilizadora nos Estados Unidos. Apenas um analfabeto econômico reduziria os impostos massivamente em meio a um boom – os números do Departamento de Comércio mostraram que a economia dos EUA cresceu no terceiro trimestre – ao mesmo tempo em que incorpora cláusulas no projeto de lei fiscal, exigindo que os gastos sejam cortados se houver uma queda da receita devido a uma recessão. Mas isso é exatamente o que o Congresso dos EUA agora propõe fazer. Uma surpresa do Fed pode ser o mais provável estopim para a próxima recessão, mas uma vez que a retração da economia começa, as cláusulas do projeto de lei fiscal vão agravá-la enormemente.

Acima de tudo, existe o risco Trump. O presidente Trump poderia desencadear uma guerra comercial com a China ou o México se o dólar disparar e o déficit comercial dos EUA se ampliar como resultado de gastos induzidos por uma redução de impostos. Ele poderia desencadear uma guerra importante com a Coreia do Norte em resposta a um lançamento de mísseis ou insulto diplomático. A economia global e os mercados financeiros têm sido otimistas até agora quanto aos riscos geopolíticos. Mas isso pode mudar, e drasticamente, quando tais riscos se materializarem.

Se tudo isso se parece com uma perspectiva positiva para a economia global, então você tem uma estranha definição de positivo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* Professor da Universidade da Califórnia em Berkeley

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Monica de Bolle *, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Fim de ano é sempre época de escrever colunas e artigos sobre o que esperar para o próximo na política, na economia. É sempre tempo de dar algumas pinceladas nos desafios, aflições, dilemas e agruras. O ano de 2018 será marcado por algo quase sem precedentes na América Latina: cerca de 420 milhões de pessoas serão chamadas às urnas para escolher quem determinará o destino de seus países, dentre os quais estarão três das maiores economias da região – Brasil, México e Colômbia. Ao contemplar o destino incerto e nebuloso desses três países, é impossível escapar da sensação de que 2018 será o ano da política nos tempos da cólera nessa região que, apesar de avanços, solitária permanece. “Pátria imensa de homens alucinados”, assim definiu Gabriel García Márquez a América Latina em seu discurso, cujo título encabeça esse artigo, na entrega do Nobel de Literatura em 1982.

A violência física e econômica da desigualdade, a brutalidade da corrupção, temas de 1982 para García Márquez, temas de 2018 para os eleitores latino-americanos. Os eleitores latino-americanos, habitantes de região tão frequentemente esquecida, carente da atenção mundial, da consideração dos EUA, já que no centro das grandes batalhas geopolíticas não está, por maior que seja, hoje, a presença da China. Solitários, desiludidos com seus governantes, enraivecidos uns com outros ante a polarização crescente que caracteriza tudo e todos, eleitores que representam quase 80% do PIB da região escolherão os próximos homens e mulheres que hão de compor seus governos no ano que vem. Tais decisões não estarão circunscritas às fronteiras de cada nação. Os novos governos e suas diretrizes econômicas fadados estão a influenciar o restante da América Latina e seus eternos conflitos.

Quais são esses conflitos? O controle da economia pelo mercado versus o controle da economia pelo governo; a eficiência versus a justiça social; a tomada centralizada de decisões versus a transparência democrática. Esses conflitos, hoje, estão exacerbados na região pelos escândalos sucessivos de corrupção, e pela capacidade desses escândalos de atravessar fronteiras.

Há alegações de envolvimento ilícito de construtoras brasileiras na alçada da Operação Lava Jato em diversos países latino-americanos, incluindo México e Colômbia, além de Peru, Equador, Argentina, Chile, Uruguai, República Dominicana, Costa Rica, Guatemala, Panamá e Honduras. Como revela ampla literatura sobre os efeitos da corrupção, ela geralmente vem acompanhada de maior desigualdade, prejudica a capacidade do Estado de prover bens e serviços à população, distorce incentivos na alocação de talentos e recursos, e reduz a legitimidade do governo. Isso dificulta o complexo debate sobre o equilíbrio entre o papel do governo e o papel do mercado na economia, levando a reflexões simplórias do tipo “melhor privatizar tudo para eliminar a roubalheira”.

Privatizações podem aumentar a eficiência e reduzir a corrupção, mas podem também aumentar o poder econômico de alguns em detrimento de outros. Como sempre, as melhores soluções e recomendações de política econômica estão no meio, no centro.

Mas, como encontrar o centro, hoje tão solitário em meio à polarização? É essa a pergunta que as eleições latino-americanas de 2018 terão de responder. Na Colômbia, onde se dará o primeiro dos pleitos presidenciais em maio, há a Coalizão Colombiana, cujo objetivo é beneficiar-se da rejeição aos partidos e políticos tradicionais. Há os partidos tradicionais que apoiam o atual presidente Juan Manuel Santos, e há o partido do ex-presidente Álvaro Uribe, o Centro Democrático, cujo viés populista de direita “dura” é claro. Uribe se opôs ferrenhamente ao acordo de paz do governo Santos com as Farc, e o candidato endossado por sua coalizão provavelmente será o principal opositor de Germán Vargas Lleras, candidato respaldado por Santos.

No México, destaca-se a candidatura de Andrés Manuel Lopez Obrador por seu próprio partido, o Morena, de viés populista de esquerda – candidatos mais ao centro, por ora, não aparecem bem nas pesquisas para as eleições de julho. No Brasil, prevalece o embate Lula-Bolsonaro – ao menos até que o destino do ex-presidente seja definido – com um centro pulverizado e repleto de políticos que pouca inspiração trazem ao eleitorado.

Três eleições, várias possibilidades de que delas saia um líder mais extremado, inclinado a desfazer parte das reformas implantadas pelos governos anteriores ou, ainda, sem definição clara do que faria na economia. Colômbia e México têm algum estofo para enfrentar essas incertezas: são países que mantiveram taxas de crescimento razoáveis frente aos desafios internos e externos recentes, que têm economias bem administradas, que não passaram por convulsões institucionais severas.

Já o Brasil não tem a mesma sorte. O País tenta a duras penas engatar uma recuperação cíclica após dois anos de fortíssima recessão em meio a um ruidoso quadro político e convulsões institucionais diversas. A economia ainda necessita de profundo ajuste fiscal ante os déficits projetados para os próximos anos, o governo incapaz será de adotar reformas que sustentem o teto dos gastos públicos erguido há um ano – alguém acredita que a diluída reforma da Previdência será mesmo aprovada em 2018? E a campanha política promete ser das mais sangrentas e insubstanciais que já tivemos.

Tudo isso com o invólucro de uma administração instável nos EUA, de problemas geopolíticos em profusão mundo afora, da sanha populista que se alastra pelo Leste Europeu, pela Turquia de Erdogan, pelas Filipinas de Duterte, e que ameaça, ainda, a estabilidade da Europa.

Disse García Márquez em seu discurso de 1982 que a América Latina “não quer nem tem por que ser um bispo de xadrez sem arbítrio”. Referia-se à falta de vontade própria, à facilidade de ser a região manipulada pelas “potências”. Trazendo seu discurso para a atualidade, a América Latina não tem por que ser manipulada por seus piores instintos, refletidos na pobreza do debate político e suas perversas consequências para a economia. Saberemos em 2018 o destino dos homens alucinados distribuídos nessa imensa pátria.

* Pesquisadora do Peterson Institute for International Economics

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