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'Em 2020, até 25% dos carros novos da Ford serão híbridos ou elétricos'

Diretor da empresa diz que preços dos modelos cairão significativamente com novas tecnologias

SILVANA MAUTONE, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h10

Carros híbridos ou 100% movidos a bateria parecem ainda estar longe do mercado de massa. Mas, na opinião de John Viera, diretor global de Sustentabilidade e Meio Ambiente da Ford, isso é apenas uma questão de tempo. Ele admite que esses modelos não vão liderar as vendas de veículos novos tão cedo, mas afirma que representarão uma parcela significativa. "Até 2020, entre 10% e 25% dos veículos novos vendidos pela Ford serão híbridos ou elétricos. Atualmente, esse porcentual é de 2%", afirmou, em entrevista à Agência Estado.

Para isso, o executivo aposta que os preços vão cair bastante. E basicamente por dois motivos: o desenvolvimento de novas tecnologias e a alta do preço do petróleo, que deve continuar, segundo ele. Essa situação, na opinião de Viera, fará com que o consumidor faça as contas da relação custo-benefício antes de decidir se comprará um carro movido a diesel ou gasolina ou se vale a pena pagar um pouco mais por um veículo que usa energia elétrica.

O executivo também acredita que o modelo de produção de etanol no Brasil serve como referência para o mundo todo e pode ser exportado, já que é uma importante alternativa aos combustíveis fósseis. Viera, americano neto de um brasileiro nascido em Santos, esteve em São Paulo na semana passada para participar da primeira edição do Prêmio Ford de Sustentabilidade. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Os carros híbridos e elétricos ainda representam uma parcela muito pequena do mercado. Qual a perspectiva para o futuro?

Acreditamos que, nos próximos 20 anos, deixaremos gradativamente para trás os veículos movidos a diesel e gasolina por conta do preço do petróleo, que vai continuar subindo. Além disso, tem a questão ambiental, que a cada ano se torna mais severa. Até 2020, entre 10% e 25% dos veículos novos vendidos pela Ford serão híbridos ou elétricos. Atualmente, esse porcentual é de 2%. Os números do mercado em geral são muito próximos dos nossos.

Até lá, esses carros terão preços competitivos em relação aos movidos a gasolina, diesel ou etanol?

Hoje, em média, os veículos híbridos custam entre 10% e 15% mais que os tradicionais. Já os elétricos são bem mais caros, custam entre 75% e 100% mais. Os elétricos custam muito, sim, mas precisamos introduzi-los no mercado agora para, com o tempo, ir aperfeiçoando a sua tecnologia e, assim, reduzir seu custo.

Os preços devem recuar quanto até 2020?

A diferença entre os carros híbridos e os tradicionais deve ficar em menos de 10%. Com relação aos elétricos não sei dizer. Mas, com certeza, os preços também vão recuar. Além disso, essa diferença tende a diminuir porque os carros movidos a derivados de petróleo ficarão mais caros, já que as novas normas de emissões, cada vez mais exigentes, fazem com que sejam necessários investimentos tecnológicos custosos também nesses modelos.

Mas o consumidor estará disposto a pagar mais por esses carros?

Como o preço do petróleo continuará subindo, o consumidor estará mais disposto a fazer a conta do custo-benefício. Ele vai perceber que, em muitos casos, é vantajoso comprar um carro mais caro para ter um custo de consumo de combustível menor ao longo do tempo.

O senhor acredita que em dez anos teremos infraestrutura suficiente para abastecer esses veículos com energia elétrica?

Acho que sim. Essa questão é muito debatida hoje em países da Europa, nos Estados Unidos, na China e em vários outros lugares. Mas mesmo que entre 10% e 25% dos carros novos sejam elétricos, ainda serão poucos, comparados à frota total, que inclui todos os veículos em circulação. Por isso, não acredito que as empresas de energia elétrica terão dificuldade em fornecer energia suficiente para recarregá-los. Não acredito que isso será um problema.

O plano da Ford é concentrar a produção desses veículos nos Estados Unidos?

Com relação aos carros híbridos, acredito que eles podem ser produzidos em qualquer lugar do mundo, porque eles foram desenvolvidos com base em modelos já existentes e baseados em plataformas globais. Por isso, esses modelos híbridos podem ser produzidos na mesma linha de montagem que a versão a gasolina, o que permite muita flexibilidade de ajustar a produção conforme a demanda. Não há nenhum impedimento técnico dessa produção conjunta. Tudo dependerá da demanda. Se houver demanda por veículos híbridos no Brasil, por exemplo, eles poderão ser produzidos aqui também. Com relação aos carros elétricos, não tenho certeza se eles poderão ser produzidos em qualquer lugar. Em 2012, estaremos fabricando esses veículos nos Estados Unidos e na Europa. Em dez anos, com certeza, também estaremos produzindo-os na China, porque a China terá uma grande demanda por carros elétricos.

Qual o perfil do consumidor que hoje já compra esses carros?

Há dois tipos de consumidores: pessoas físicas e jurídicas. Os consumidores pessoa física se subdividem em dois grupos: os que tomam a decisão de compra por causa de questões de consciência ambiental e os que dirigem muito em grandes cidades e são mais beneficiados pela economia de combustível que eles proporcionam. O consumidor pessoa jurídica é basicamente aquele que usa muito o carro como ferramenta de trabalho. Isso ocorre porque os carros híbridos oferecem melhor desempenho nas grandes cidades do que nas estradas. O carro híbrido funciona movido a combustível, pode ser gasolina ou etanol, e também a bateria. Ele usa a bateria o máximo possível e quando ela descarrega, usa então o combustível. Só que a bateria é recarregada pelo próprio sistema quando o motorista freia. Ou seja, quanto mais o motorista breca, mais a bateria é recarregada.

Na sua opinião, os governos devem conceder incentivos para estimular a venda de veículos híbridos ou elétricos?Acho que incentivos governamentais podem ser positivos apenas para incentivar as vendas iniciais num determinado mercado, por um curto período de tempo. Temos de reconhecer que os governos têm recursos cada vez mais limitados.

A crise deve afetar as vendas desses veículos, já que nesses períodos os consumidores ficam mais sensíveis a preços?

Com certeza, porque, no final das contas, a maioria das pessoas busca a vantagem financeira e nem todos podem esperar anos para obter o retorno. Para essas pessoas, o fator preço é determinante. Mas repito: esse é um caminho sem volta. No futuro, esses carros ganharão muito mais espaço no mercado.

Quanto a Ford investe no desenvolvimento dessas tecnologias?

Não tenho um número absoluto para divulgar, mas posso dizer que cerca de 75% dos investimentos totais para desenvolvimento de produtos são destinados para a melhora da eficiência energética dos veículos, sejam híbridos, elétricos ou baseados em petróleo. Isso inclui a adoção de materiais mais leves, o que permite um consumo mais baixo de combustível.

Como vocês veem a questão do etanol brasileiro?

Diferentes fontes de energia, como o etanol, são globalmente importantes para nós. Acreditamos que, no futuro, além dos veículos tradicionais, estaremos dirigindo veículos elétricos, movidos a hidrogênio e biocombustíveis, como o etanol. O etanol desempenha um papel fundamental nesse cenário. E o Brasil detém o conhecimento mais avançado com relação ao uso do etanol como combustível. Acreditamos que o modelo brasileiro possa ser exportado e usado por outros países capazes de produzir etanol, não importa se com base em cana de açúcar ou não. O etanol feito com cana de açúcar é o mais limpo. Mas ele pode ser produzido com milho, como Estados Unidos, ou qualquer outro tipo de planta. Depende do avanço da ciência. No futuro, pode ser que cada país, de acordo com as plantas que tem disponíveis no seu território, possam produzir seu próprio etanol.

Estamos longe disso?

Sim, ainda estamos. Devemos levar de dez a quinze anos antes de começarmos a produzir etanol economicamente viável de plantas que não sejam cana-de-açúcar e milho. É um longo caminho que temos de percorrer, mas é um caminho sem volta. Basta ver outros setores, como o da aviação, que também estão investindo em pesquisas para desenvolver biocombustíveis.

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