Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Em 22,7% dos domicílios, não há renda do trabalho

Bolsa Família e aposentadorias, entre outros, garantem rendimentos, diz Ipea

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2019 | 04h00

RIO - Quase um quarto dos domicílios brasileiros viveu sem renda decorrente de trabalho no primeiro trimestre de 2019, revelou um estudo divulgado nesta terça-feira, 18, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que prevê melhora para o mercado de trabalho apenas a partir de 2020, se a reforma da Previdência for aprovada este ano. Com o agravamento da crise econômica no País nos últimos anos, está crescendo também o número de pessoas sem trabalho há mais de dois anos.

A proporção dos domicílios sem renda do trabalho – onde se incluem aposentados, Bolsa Família, investimentos em ações, entre outros – subiu de 19% no primeiro trimestre de 2014 para 22,7% de janeiro a março de 2019. Foi o maior crescimento entre todas as faixas de renda pesquisadas pelo Ipea. Já os domicílios que vivem de renda alta pouco se mexeram em cinco anos, caindo de 2,2% para 2,1%.

“Hoje, 22,7% dos domicílios não têm nenhuma renda do trabalho, o que é muita coisa. A crise bateu muito forte no mercado de trabalho e mais fortemente no trabalhador menos escolarizado, com emprego de pior qualidade e esse trabalhador tem sofrido mais com a crise”, explicou a economista Maria Andréia Lameiras, técnica em planejamento e pesquisa do Ipea, órgão ligado ao Ministério da Economia.

O Ipea identificou também uma alta na parcela de desempregados que estão nessa situação há mais de dois anos. No primeiro trimestre de 2015, quando o emprego começou a declinar no País, essa parcela representava 17,4% do total, subindo para 24,8% no primeiro trimestre deste ano, ou 3,3 milhões de pessoas. Em quatro anos, o crescimento das pessoas que estão há mais de dois anos sem emprego foi de 42,4%, segundo o Ipea.

“Isso mostra que o mercado de trabalho é o pior retrato da crise econômica que o Brasil está passando. Estamos saindo da crise, mas muito lentamente, e o mercado de trabalho reage depois da economia como um todo”, avaliou Lameiras.

De acordo com o pesquisador da área de economia aplicada da FGV Ibre, Daniel Duque, ainda falta muito para a recuperação do mercado de trabalho, tanto que muitas pessoas já desistiram de procurar emprego (desalento) e muitos se aposentam para ter uma renda mínima, enquanto aguardam o mercado melhorar, o que fez crescer o número de domicílios sem renda do trabalho.

“A gente teve realmente uma gigantesca reversão da tendência que a gente tinha tido de 2004 a 2014, de melhora muito acentuada do mercado de trabalho, e com uma piora muito acentuada nos últimos quatro anos”, avaliou, estimando em pelo menos um ano para se ter alguma melhora no mercado de trabalho consistente no Brasil.

Duque prevê que a economia deverá começar a se recuperar nos próximos trimestres, mas a melhora do mercado de trabalho não será imediata, como aponta o estudo do Ipea.

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