GILBERTO VIEGAS/ESTADÃO
GILBERTO VIEGAS/ESTADÃO

Em Blumenau, há vagas e faltam candidatos

Cidade do Vale do Itajaí foi a que mais abriu vagas em SC no primeiro trimestre do ano; há setores em situação próxima à de pleno emprego

Naiana Oscar, Enviada Especial a Blumenau

12 Junho 2016 | 05h00

Foi de boné azul, crachá pendurado no pescoço e com uma camisa de manga curta que desafiava os 6ºC da última segunda-feira que Marciel dos Santos, de 23 anos, chegou para trabalhar na fábrica de alimentos Hemmer, em Blumenau, depois de passar sete meses desempregado. Ele foi demitido, em outubro do ano passado, de uma metalúrgica da cidade. E, na época, não achou essa uma má notícia. Usou o dinheiro da rescisão para pagar dívidas e tirou um tempo para pintar a casa na certeza de que encontraria um novo lugar para trabalhar sem muita dificuldade, antes que o seguro-desemprego acabasse. “Eu sou de Blumenau, minha cidade é rica, é farta em emprego, por isso não me preocupei.” 

Mas a entrega de currículos esbarrou numa concorrência pesada, com gente de outras cidades e de outros Estados do País disputando a mesma vaga. A Farbe, uma indústria têxtil especializada em tecidos tecnológicos, tem um exemplo prático de como essa procura aumentou. A empresa anunciou pela internet 8 vagas de emprego e recebeu 600 currículos de interessados: só 150 eram de moradores da região. Desde o início do ano, a Farbe contratou 60 pessoas e fez o quadro chegar a 470 funcionários, depois de um ano de vagas congeladas. O fôlego veio após uma reestruturação interna e a decisão de investir em novos segmentos, já de olho na retomada da economia. 

Souza (D) e os cinco funcionários que trouxe da Bahia 

Entre os novatos da Farbe, está o paraense Diego de Barros Santos, de 19 anos. Seu último emprego, no Norte, foi como operário na construção de uma rodovia. A obra acabou e ele foi demitido em janeiro. “Com R$ 3 mil no bolso, vim tentar a vida em Blumenau, onde já morava uma prima minha”, conta. Em pouco menos de um mês, ele foi contratado para operar a máquina que lava tecidos e ganhar R$ 1,2 mil. “É um luxo porque, de onde eu vim, não tem mais emprego. E aqui está sobrando.” 

Ao menos é essa sensação que se tem em Blumenau quando se compara a cidade com o restante do País. No primeiro trimestre deste ano, o município do Vale do Itajaí, com quase 340 mil habitantes, criou 2,6 mil novos postos, segundo dados do Ministério do Trabalho. Foi a cidade de Santa Catarina – e a sexta do País – que mais criou vagas nos primeiros três meses deste ano. 

Nas ruas, a crise ainda não salta aos olhos. As calçadas do centro continuam limpas, sem um papel no chão. O único morador de rua que pedia esmola, na semana passada, na região central, estava em frente à catedral. Os blumenauenses reclamam, dizem nunca ter visto recessão como essa, mas é difícil encontrar alguém que tenha uma pessoa desempregada na família. O taxista Paulo Manes, de 63 anos, por exemplo, não conhece ninguém. Suas filhas estão trabalhando e o táxi ainda paga as contas, apesar de o movimento ter caído. “Aqui, nós ainda temos o pão, o diabo é conseguir a chimia (geléia)”, reclama. “Mas imagino, pelo que vejo na TV, que há lugares em situação bem pior que a nossa.” 

O taxista imagina. O baiano Junior Souza tem certeza. Ele se mudou de Salvador para o Vale do Itajaí em 2007 para trabalhar em uma gráfica. No fim de 2015, comprou máquinas na China e montou uma empresa que produz lacres para marcas de roupas como a Dudalina. Dos seis funcionários, cinco ele trouxe da Bahia. “Se quiserem me oferecer R$ 1 milhão por mês para trabalhar em Salvador, eu não volto”, diz Junior. “Isso aqui é a Europa.” 

O fato de a cidade estar sentindo menos não significa que a crise ainda não tenha chegado lá. No início do ano, a Malwee, de roupas, fechou uma fábrica e demitiu 300 funcionários. Grandes companhias, como Hering e a fabricante de motores Weg, não demitiram em massa, mas congelaram contratações. O comércio também sentiu. A principal rua de Blumenau, a XV de Novembro, tem uma dezena de imóveis para alugar em 1,5 km de extensão. “Tivemos queda na arrecadação, mas temos a vantagem de que nossa economia não é dependente de uma única atividade”, diz Napoleão Bernardes Neto, prefeito da cidade. 

A indústria têxtil, que por anos foi o motor da economia regional, divide espaço com setores como o de metalomecânico, alimentos e outros mais jovens. Hoje, costuma-se dizer que, em Blumenau, há mais empresas de tecnologia do que padarias. E é verdade: são 1.100 contra 78, segundo a prefeitura. A origem desse setor, que hoje dá impulso à economia local, está na própria indústria têxtil, que se enfraqueceu com a concorrência chinesa e agora tenta se recuperar com a virada do câmbio. 

Na década de 60, companhias como Hering, Karsten, Sulfabril e Teka criaram uma empresa de informática para modernizar seus sistemas. A Cetil chegou a ter 3,4 mil funcionários. Muitos deles, mais tarde, criaram os próprios negócios e fizeram Blumenau se tornar um polo de tecnologia. A empresa de software HBSIS, responsável pela contratação de cem pessoas entre janeiro e maio, é uma delas. A Senior, que também é cria da Cetil, preencheu 90 vagas até o mês passado e tem mais 40 em aberto na cidade. “Não está fácil encontrar candidatos”, diz o presidente da empresa, Carlênio Castelo Branco. “Áreas como a nossa, em Blumenau, vivem uma situação de pleno emprego.”

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