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Em busca das oportunidades na Bolsa

Apesar do desempenho ruim do Ibovespa, BTG Pactual coloca o mercado de ações como carro-chefe do portfólio

Entrevista com

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2013 | 02h10

A Bolsa brasileira não vai bem. Até sexta-feira, a queda do Ibovespa era de 12,31% neste ano. Em 12 meses, o recuo somava 3,52%. Mas nem por isso o BTG Pactual deixa de ver oportunidade no mercado acionário. A estratégia do banco é apostar na concentração de empresas com dinâmica própria de crescimento. "São aquelas com o vetor de crescimento descolado da macroeconomia, que está devagar", diz José Zitelmann, sócio responsável pela área de renda variável do banco. "Há boas oportunidades em empresas específicas na Bolsa", afirma.

A entrevista com Zitelmann e João Scandiuzzi, estrategista-chefe da área de Asset Management do BTG Pactual faz parte da série de entrevistas semanal do Estado com os principais gestores de recursos do País sobre o cenário de investimento. A asset do BTG tem sob gestão R$ 131,26 bilhões.

Qual é a avaliação do cenário econômico?

João Scandiuzzi - O cenário será mais desafiador para os mercados emergentes. Se a gente estiver certo com a previsão de crescimento de 2,7% para os EUA em 2014, não tem nada mais natural do que o Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) iniciar um processo de normalização. E aí devemos ver a retomada do que ocorreu entre maio e junho deste ano, uma depreciação do câmbio e abertura da curva de juro.

O processo só foi adiado?

Scandiuzzi - Só foi adiado, mas eu acredito que a redução de compras pelo Fed já está mais absorvida pelo mercado. Os portfólios estão sendo geridos com essa perspectiva.

E a expectativa para a economia brasileira?

Scandiuzzi - O cenário doméstico está longe de ser o que a gente gostaria em termos de combinação de crescimento e inflação. Mas isso não é de hoje e vem sendo incorporado pelo mercado. A gente tem uma previsão de crescimento de 2,5% para 2013 e por volta disso para 2014, com uma inflação que tende a ser persistente.

Qual é a expectativa para a Bolsa nesse contexto?

José Zitelmann - O cenário para a Bolsa não é fácil. O fato novo deste ano em relação a 2011 e 2012 é que, além do Produto Interno Bruto (PIB) fraco, a gente teve um arrefecimento de consumo por causa da inflação.

O que isso muda?

Zitelmann - Várias das alternativas de investimento (na Bolsa) eram ligadas à economia doméstica. O arrefecimento do consumo doméstico este ano tornou o nosso trabalho ainda mais difícil. Mas acho o seguinte: há boas oportunidades em empresas específicas na Bolsa. Esse cenário econômico brasileiro (de baixo crescimento e inflação persistente) já está em grande parte nos preços das ações.

E qual é a estratégia de vocês?

Zitelmann - O nosso fundo principal é o BTG Pactual Absoluto FIQ FIA. Ele não segue nenhum índice da Bolsa e tem investimentos mais concentrados. A gente procura investir em empresas que tenham uma dinâmica própria de crescimento. Essas companhias são aquelas com o vetor de crescimento descolado da macroeconomia, que está muito devagar.

Quais são essas empresas ?

Zitelmann - A Cielo tem como vetor de crescimento a penetração de cartão de crédito. Essa modalidade como meio de pagamento está ganhando participação. E, se o PIB avançar 2%, 3% ou 4%, vai fazer pouca diferença na velocidade desse ganho porque o setor de cartões cresce de 15% a 18% todo ano. Para o ano que vem, também estamos olhando as ações dos bancos. Em 2012, o setor enfrentou um período bastante difícil porque o governo estava querendo baixar os juros com um discurso forte. Este ano, isso foi amenizado. Além disso, os bancos passaram por uma mudança grande no balanço porque diminuíram as linhas de crédito mais arriscadas.

E investimentos no exterior?

Zitelmann - A gente tem posição relevante em Anheuser-Busch (maior grupo cervejeiro do mundo). É uma empresa de investimento interessante porque é muito bem gerida.

Qual o número de pontos que vocês trabalham para a Bolsa?

Zitelmann - Olho menos o índice. O Ibovespa é muito injusto. O que procuramos no nosso fundo é dar 15% ao ano. Em 2012, a gente conseguiu 25%. Esse número vem do crescimento de resultado que a gente espera das empresas. A ação se move por crescimento de lucro.

É isso o que vocês esperam para o ano que vem?

Zitelmann - Pela média do portfólio, é mais ou menos isso que a gente espera para o ano que vem, um crescimento em torno de 15%.

Pode-se esperar uma volatilidade para a Bolsa no ano que vem por causa da eleição?

Zitelmann - O resultado da eleição trará a continuidade ou uma mudança que o mercado não vai ver de forma negativa. Mas é fato que a eleição é um fator de volatilidade adicional. Mas também será um ano de Copa do Mundo. Tem gente que diz que a Copa é boa para a Ambev, mas não sei se é boa para a Gerdau, por exemplo. O País para. É preciso ver para quem é boa essa Copa. No ano que vem, teremos vários eventos, a decisão do Fed, Copa do Mundo, eleição...

Com a alta do juro, o que muda na estratégia de investimento?

Scandiuzzi - A Bolsa tem sido o carro-chefe dessa filosofia de concentração de portfólio nas empresas em que temos alta convicção. Na parte da renda fixa, a visibilidade hoje não é tão grande. A curva DI para o segundo trimestre de 2014 está acima do que esperaria ver. É natural que a renda fixa tenha algum tipo de prêmio. O BC não está dando muita sinalização de onde ele quer chegar com o ciclo (de alta). Ele vai num passo de cada vez e sempre sinaliza muito bem o seguinte.

O sr. acredita que tem de ter esse prêmio de risco?

Scandiuzzi - É natural que a renda fixa traga algum tipo de prêmio, pelo menos até que o BC sinalize que está preparado (para o fim da alta dos juros). Agora, à medida que o BC vem dando continuidade ao ciclo e se mostrando mais comprometido com o combate à inflação, há um espaço para uma diminuição da inclinação da curva. O que a gente tem visto é a parte curta (da curva de juros) abrindo e a longa abrindo menos ou até fechando.

Quais são os outros produtos que vocês estão analisando para o portfólio?

Scandiuzzi - Temos visto mais oportunidades nessa estratégia de Bolsa. Poderíamos pensar nos fundos multimercados e de renda fixa, mas essa escolha teria de estar delegada ao gestor para a decisão de tomar ou não a posição a cada momento. No Brasil, este ano, por causa dessa volatilidade, a gente tem visto uma certa migração para produtos mais conservadores, e o crédito entra nesse mesmo conjunto. Ao invés de uma migração para, por exemplo, um produto DI, ele (o crédito) é visto como um DI apimentado.

O crédito tem de ser tratado como produto conservador?

Scandiuzzi - Depende muito. Existem produtos diferentes de crédito. Tem que entender bem o que está dentro. Mas, em geral, se for olhar o perfil de emissões, o conjunto no mercado local é mais conservador do que o que é emitido lá fora.

O Brasil se acostumou com o ganho de 1% ao mês. O que seria a nova normalidade?

Scandiuzzi - Isso não está claro. É uma coisa que ainda estamos tateando.

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