Em busca de um nome

As urnas voltaram a falar e repetiram, no segundo turno, com ainda mais veemência do que na primeira rodada das eleições presidenciais de 2014, o recado endereçado à agora vitoriosa presidente Dilma Rousseff, reeleita com menos de 52% dos votos válidos. Dilma terá de encontrar uma fórmula capaz de conciliar o ajuste dos desequilíbrios macroeconômicos sem retroceder nos programas de inserção e acesso de camadas mais amplas da população ao mercado de consumo.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2014 | 02h04

Além de não ser nada trivial, a tarefa não terá prazo de carência para ser iniciada. O mercado financeiro indicou essa urgência ao reagir à escolha da maioria dos eleitores com um altíssimo grau de agitação, na primeira oportunidade. As primeiras sessões pós-eleição, como esperado, abriram com forte queda na Bolsa de Valores e valorização idem do dólar. A relativa acomodação das cotações mais para a reta final dos pregões indicava apenas correções nos excessos da abertura, enquanto as ações de empresas públicas registravam pesadas e persistentes quedas de dois dígitos.

É legítimo especular que a volatilidade nos mercados de ativos permanecerá mais alta até a indicação do ministro da Fazenda do novo governo. Os investidores esperavam, já no discurso de confirmação da vitória, na noite deste domingo, sinais mais claros sobre a condução da economia no segundo mandato. Mas isso não aconteceu e a mensagem inaugural do segundo mandato concentrou-se na proposta de reforma política. Quando falou em economia, Dilma só ofereceu indicações superficiais e continuou sem dar pistas sobre o perfil preferido por ela para ocupar o posto-chave da área econômica.

Pode-se imaginar também que a presidente, tendo registrado um convite ao diálogo, em seu primeiro pronunciamento depois de reeleita, esteja consciente do que esse diálogo significa, na prática, para o mundo econômico: menos interferências específicas, mais simplificação tributária e desburocratização nos negócios.

Mais do que resultados imediatos - nos índices de inflação, no reequilíbrio das contas públicas, na competitividade das exportações - difíceis de obter em curto prazo, na atual quadra de desequilíbrios domésticos e instabilidades externas, são sinais nessa direção que podem animar o ambiente econômico. O sucesso da ampliação dos setores habilitados ao regime tributário do Simples Nacional poderia servir como roteiro para essa reaproximação.

Se, como parece o caso, a prioridade é a de recompor linhas de comunicação com empresários e investidores, explica-se a expectativa generalizada de que a presidente reeleita concentre seus primeiros esforços na procura de um nome com trânsito no empresariado e no mercado financeiro para comandar a economia. A lógica em circulação dava a entender que o alvo seria algum alto executivo do setor privado ou, caso não fosse possível encontrar esse personagem, um economista não ortodoxo, mas com prestígio nos meios acadêmicos mais tradicionais.

Executivos de bancos, como Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos governos Lula, ou Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, ao lado do economista Nelson Barbosa, ex-secretário executivo da Fazenda, no primeiro governo de Dilma, já formam no pelotão de cima das primeiras apostas.

Essa indicação é crucial porque a primeira batalha do novo governo será a do resgate da confiança dos agentes econômicos na sua capacidade de coordenar o esforço para reequilibrar os indicadores macroeconômicos. Um comandante confiável, pelo menos em tese, enfrentará menos resistências e contará com maior dose de cooperação para promover ajustes e correções a menores custos e prazos. Afinal, o que parece ter levado o governo, no campo econômico, à situação de virtual paralisia dos últimos tempos seria menos a falta de perspectivas do que as incertezas em relação à condução da economia.

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