Tommaso Giarrizzo/Arquivo AG
Tommaso Giarrizzo/Arquivo AG

Em busca do Elon Musk brasileiro para a Amazônia

Musk consegue contratar qualquer gênio brasileiro só pelo desafio de conquistar o espaço. Porém, quem vai cuidar da Terra?

Fersen Lambranho, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2020 | 05h00

Fui convidado para conhecer o Royal Botanic Gardens em Londres: Kew Gardens, uma instituição que data dos meados do século 18. Tivemos o privilégio de ser levados a um local grande, com estantes em 3 níveis, e um pé direito altíssimo. 

“Bem vindos à coleção do Brasil”.

Vimos plantas guardadas secas entre folhas de cadernos, além de uma infinidade de amostras e material genético de nossa flora, preservados do outro lado do Atlântico.

Não encontramos apenas nossas plantas na Europa. Mais de uma centena de cientistas brasileiros moram e trabalham aqui, provavelmente em busca de condições mínimas para seguir sua vocação. Imagino que vários devam utilizar recursos e material de trabalho coletado, nestes últimos 200 anos, pelas missões naturalistas europeias e americanas.

Muitos dos nossos jovens cientistas trabalham remotamente, longe do laboratório natural mais rico do planeta, a Amazônia. Tem algo de errado neste modelo.

Elon Musk consegue contratar qualquer gênio brasileiro só pelo desafio de conquistar o espaço. Acho totalmente correto o homem se habilitar a conquistar o espaço, até porque isso será imperativo daqui a bilhões de anos. Além do que, o sonho do espaço gera muita tecnologia, uma vez que as pessoas passam a pensar no Moonshot. Porém, cabe uma pergunta: quem vai cuidar da Terra?

Oceanos imensos, profundos, ricos e desconhecidos respondem por 70% do nosso planeta. Os 30% restantes são habitados por animais, incluindo nós. Esse espaço ainda é pouco ocupado, apesar de 7 bilhões de seres humanos.

Nossa Amazônia responde pela maior diversidade em formas de vida do planeta, com uma riqueza infinita de fauna, flora e micro “tudo”, muito além da nossa compreensão. A floresta amazônica, segundo estudos recentes, é fruto da interferência humana que, ao longo dos últimos 4 mil anos, foi desenvolvendo-a para o uso e a manutenção de vida. A floresta é a maior obra humana na América, superando as pirâmides astecas, incas etc. 

Quando a geração “millennial” fala que quer um produto natural, não está se referindo a um produto químico, com uma pitada de planta, para poder ler no rótulo que é natural. O que está dizendo é que acredita que a natureza, que nos criou, tem os elementos necessários para resolver qualquer necessidade ou reparação do nosso corpo. Nossa composição corporal é do mesmo material que os elementos da natureza. Sendo assim, a humanidade precisa estudar, hackear e decodificar as moléculas da flora e da fauna, para compreender o conhecimento que lá foi plantado pelos povos originais. Esse conhecimento está na memória oral, em uma região em que existem, hoje, 50 raízes linguísticas – na Europa, são apenas três.

A floresta amazônica, em todos os sentidos, é uma biblioteca infinita de sabedoria e soluções da natureza, e guarda o conhecimento dos habitantes que vieram antes de nós. Preservar os povos originais, assim como as populações locais que lá estão, é também fundamental, porque fazem parte do todo. Na floresta não existe privacidade – a floresta é o todo e é o coletivo.

Quando os portugueses chegaram no Brasil, representavam um reino de um milhão de pessoas e dominaram 20 milhões de habitantes, 8 milhões dos quais encontravam-se na Amazônia. O Brasil era o paraíso, porque o ser humano e a natureza estavam em harmonia e em constante evolução. É tempo de resgatar esse conhecimento, que está escrito dentro do DNA de tudo que cresce ao sol e sob as copas das arvores. A busca do infinito dentro de nós.

A Amazônia tem a matéria-prima para desenvolvimento de soluções para tudo que se relaciona com a vida na Terra. Enquanto a inteligência artificial está buscando, nos maiores centros do mundo, formulações sintéticas para vacinas e remédios, na Amazônia a IA pode trabalhar com a matéria-prima “de verdade”, obtendo soluções naturais.

O material de trabalho na Amazônia é um “arquivo” que levaremos séculos para desvendar. No entanto, podemos colher frutos imediatos, ao mantermos a floresta o mais intacta possível. Se cuidarmos da floresta, ajudamos a reter o CO2 no solo e evitamos o aquecimento global – existe algum “serviço” maior que a Amazônia possa fazer para o planeta e a humanidade?

O Vale do Silício não tem silício, tem cérebros – e cria riqueza ao atrair e juntar cérebros do mundo todo. O sol da Califórnia, que embalou a maior corrida de empreendedorismo americano, no século 19, e criou a indústria dos sonhos chamada de cinema, agora é o epicentro da revolução digital.

Acredito que o Vale do Silício nasceu do espírito empreendedor de jovens que decidiram construir um novo mundo e questionar o status quo. O Vale do Silício surgiu da confluência de cérebros do mundo todo.

Quando vejo a Amazônia como nosso Vale do Silício, é porque enxergo nela um manancial inesgotável de possibilidades cientificas e não apenas o “serviço” de limpar o ar que sujamos, com cada ato da nossa vida.

Quando comemos, acendemos a luz, andamos de carro e demais coisas simples do dia a dia, para manter nosso conforto hoje e garantir que as futuras gerações tenham um planeta para habitar, precisamos ter uma floresta que compense o CO2 que liberamos no ar. Estamos próximos de um desastre ecológico em uma década, segundo alguns estudiosos.

Imagino que, se Elon Musk consegue arregimentar capital e gente para sair da Terra, deve ser mais fácil que surja um Elon Musk brasileiro, capaz de sonhar em conquistar o conhecimento da vida que está em torno de nós.

Nosso Moonshot não é sairmos da Terra, mas desvendarmos o conhecimento guardado no Jardim do Éden que herdamos dos nossos antepassados e do qual somos apenas uma parte.

Os “millennials” estão questionando o status quo de tudo e de todas as marcas estabelecidas, que foram se transformando em junk, até mesmo sem perceber ou sem intenção, nas ultimas décadas.

A tecnologia segue a passos largos para biologia, e a oportunidade, para nossos jovens, está em fazer da Amazônia o grande centro de biotech do mundo. Elon Musk que me desculpe, mas o propósito de preservar a vida na Terra, sem tirar a importância da conquista do espaço, tem que ser mais urgente e relevante.

Não creio em projetos filantrópicos de bilionários (já existiram tantos!) como solução escalável nem em iniciativas que não envolvam as melhores cabeças do mundo no ramo. Porém, acredito muito na força criativa de uma geração que se move por uma causa, na força do crowdfund e no trabalho conjunto do aluno da primeira carteira da classe com a turma “do fundo”, desde que dividam a mesma meta.

A Amazônia precisa ser vista com respeito, da mesma forma que o mundo olha para o Vale do Silício. O mundo que vivemos tem capital de sobra, mas faltam projetos com propostas relevantes, credibilidade e accountability.

No Vale do Silício, bilionários correm, de joelhos, atrás de jovens brilhantes para colocar dinheiro em startups. O que precisamos, então, é conseguir gerar a mesma dinâmica na Amazônia. No Vale do Silício, criou-se tecnologia que, aplicada na Amazônia, permite alcançar objetivos até pouco tempo impensáveis, tanto na valoração dos serviços da floresta como no desenvolvimento da ciência da vida. Cientistas como Marcos Nobre e Beto Verissimo, que estão há décadas dedicados à região, já formularam o conceito da Amazônia 4.0 como um caminho. A Amazônia é nossa e por isso precisa ser preservada. Amazônia em pé decifrada é um bem para toda a humanidade. 

*MSC, ENGENHEIRO E CHAIRMAN DA GP INVESTMENTS

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