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Gilles Lapouge
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Em busca do novo Graal

Durante toda a Idade Média na Europa a busca foi pelo Graal, o cálice sagrado que, após o Cristo ter se servido dele na Santa Ceia, conteria o sangue que escorreu das suas chagas e feridas após ser crucificado. O Graal jamais foi descoberto, mas a sua busca alimentou e embelezou a grande literatura medieval (Tristão, o rei Arthur, a rainha Guinevère, etc.).

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2013 | 02h06

O petróleo é o Graal do nosso tempo, ou melhor, os substitutos do petróleo, as novas energias. Como o Graal, os engenheiros pensam de tempos em tempos ter descoberto este "Graal", mas depois de alguns anos nos frustramos e vemos que as novas e maravilhosas energias são apenas uma ilusão. Como o primeiro, este novo Graal energético é uma miragem. Magnífico quando observado de longe. Mas evapora quando o tocamos.

Hoje, Europa e França examinam dois destes "Graais" miraculosos. O primeiro é o agrocombustível. Considerados no início uma bênção e o advento de um paraíso energético, adorados pelos ecologistas, os biocombustíveis agora são acusados de todas as desgraças e tratados como infames.

Há alguns anos a Comissão Europeia apostou muito nos agrocombustíveis, mas agora os descarta. E deverá dar uma violenta "freada" na sua expansão em setembro, no Parlamento Europeu. Esta semana a Comissão do Meio Ambiente, que prepara o debate, decidiu contra o agrocombustível, que no futuro não deverá superar 5% dos combustíveis usados na Europa.

Agora o estímulo será no sentido de biocombustíveis realmente duráveis, à base de lixo e mais tarde de microalgas. O ministro britânico da Energia, Ed Davey, fez uma acusação brutal: "A Europa cometeu um erro. É preciso pôr fim ao agrocombustível o mais cedo possível".

Por que tanto opróbio depois de tantas esperanças? Em primeiro lugar, em razão do equilíbrio ambiental, desastroso segundo a União Europeia, em termos de gás de efeito serra. E em seguida diante de um novo conceito, da "mudança do uso do solo", ou seja, o deslocamento das culturas alimentares que teria provocado, na Amazônia e na Indonésia, a destruição de florestas, campos e turfeiras que são poderosas "armadilhas de CO2".

O segundo Graal energético é o gás de xisto. O governo socialista de François Hollande, cuja maioria é formada por ecologistas, desde o início descartou, em declaração solene, a hipótese de explorar o gás de xisto. Mas nem todos aprovam a proibição. Mesmo dentro do governo Hollande há alguns "indisciplinados" que afirmam que o gás de xisto, apesar de tudo...

Há dias foi um dos pesos pesados do governo Hollande, Arnaud Montebourg, que infringiu a doutrina oficial. O ministro da Retomada Industrial declarou que o gás de xisto, embora desastroso hoje, será uma "panaceia" amanhã, quando forem implementados protocolos de extração não poluente.

Mas os ecologistas aliados de Hollande já se rebelaram. E, de fato, horas depois o ministro da Ecologia, Philippe Martin (nomeado há oito dias), reagiu e lembrou que a doutrina do governo é clara: nada de gás de xisto.

E quanto à energia eólica? Sim, o vento, que não deixa traços.

Energia que tem aspecto bastante limpo. É verdade que faz muito ruído. Ela rompe o belo silêncio dos campos e além disso corujas, cegonhas e pardais se emaranham nas pás giratórias e podem morrer. No momento, contudo, nem os ecologistas nem a Comissão em Bruxelas se mobilizaram. A energia eólica continua de "vento em popa". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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