Dida Sampaio/Estadão - 11/5/2020
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Mercado

d1000 faz IPO, ações caem 12% e investidor é penalizado: o que deu errado?

Em carta, empresários pedem a Mourão política de proteção à Amazônia

Depois da manifestação de investidores estrangeiros, presidentes de grandes companhias dizem estar preocupados com a imagem negativa do Brasil no exterior e cobram medidas de combate ao desmatamento

Daniel Weterman, André Vieira e Felipe Siqueira, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2020 | 10h38
Atualizado 10 de julho de 2020 | 18h31

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Pressionado por empresários e políticos, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, tentou sinalizar que o governo está alinhado com a demanda internacional para combater o desmatamento na Amazônia. O Conselho Nacional da Amazônia Legal, órgão chefiado por Mourão para dar respostas ao setor, porém, ainda não apresentou resultados concretos que fossem satisfatórios aos apelos internos e de fora.

Questionado sobre a carta de empresários brasileiros divulgada na terça, na qual cobraram, do governo, maior compromisso com o meio ambiente, o vice-presidente afirmou que as demandas estão alinhadas com os objetivos do governo para a região amazônica. “Esse grupo tem mantido contato comigo há algum tempo e todos os pontos que estão colocados ali naquele documento vão ao encontro dos objetivos do Conselho da Amazônia. Então estamos fechados, juntos”, disse Mourão.

O chefe de gabinete adjunto, general Álvaro Wanderley, informou que a vice-Presidência “considera que toda colaboração é bem-vinda e que as preocupações apresentadas pelos empresários estão sendo objeto de planejamento e de ações imediatas (Operação Verde Brasil 2, negociação para reativação do Fundo Amazônia) do Conselho da Amazônia, que fará sua segunda reunião ordinária na próxima semana, quando o tema, dentre outros, será abordado”.

A reação dos empresários ocorre uma semana após um grupo de investidores estrangeiros apontar problemas na política do governo em relação à Amazônia. Presidentes de grandes empresas nacionais e estrangeiras e entidades setoriais protocolaram na vice-Presidência e no Conselho Nacional da Amazônia Legal, presidido por Mourão, comunicado em defesa da agenda do desenvolvimento sustentável e combate ao desmatamento na Amazônia.

O documento, antecipado pelo jornal Valor Econômico, traz a assinaturas de cerca de 40 companhias, grupos empresariais e entidades, que dizem estar preocupados com a repercussão negativa da imagem do Brasil no exterior. Eles pedem a “atenção e preocupação com o impacto nos negócios da atual percepção negativa da imagem do Brasil no exterior em relação às questões socioambientais na Amazônia”. “Essa percepção negativa tem um enorme potencial de prejuízo para o Brasil, não apenas do ponto de vista reputacional, mas de forma efetiva para o desenvolvimento de negócios e projetos fundamentais para o País”, diz.

A iniciativa partiu do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), presidido por Marina Grossi(leia texto abaixo).

Na semana passada, um grupo formado por quase 30 fundos de investimento com US$ 3,7 trilhões exigiu que o Brasil freie o crescente desmatamento no País. Outro movimento veio do Congresso. O Senado aprovou pedido da oposição para convidar Mourão a explicar as ações do governo. A audiência pública será na próxima terça-feira, 14. O convite cita que o Brasil fechou o mês de junho com o maior número de focos de queimadas na região dos últimos 13 anos.

Capacidade. Para o presidente da Vedacit, Marcos Bicudo, a reação dos investidores estrangeiros pode ser uma oportunidade para o País mostrar que tem capacidade de combater o desmatamento. "A gente ainda não tem perdas contundentes, mas existem vários comunicados de grandes investidores com preocupação nesse sentido. Não se materializou, mas a gente quer evitar que chegue a esse ponto.”

A mensagem também foi entregue ao Supremo Tribunal Federal, Senado Federal, Câmara dos Deputados e na Procuradoria-Geral da República (PGR).

Nos últimos dias, Mourão tem se esforçado para dizer que está em linha com empresários e governadores da região amazônica no combate ao desmatamento. A pressão sobre o governo para dar respostas em relação à Amazônia também recaiu sobre o presidente Jair Bolsonaro. Conforme o Estadão revelou, o chefe do Planalto vem sendo pressionado por auxiliares e parlamentares para substituir o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. A condução da política ambiental de Salles é apontada como um empecilho para acordos comerciais bilaterais e, até mesmo, para que o País receba investimentos externos. Questionado sobre os pontos de demanda da carta dos empresários, o gabinete da vice-presidência e o Ministério do Meio Ambiente não responderam à reportagem. /COLABOROU MARLLA SABINO

Leia a íntegra do comunicado

Neste momento, em que enfrentamos uma situação extrema, extraordinária e excepcional, é muito importante manter a serenidade e o equilíbrio para que possamos superar e sair fortalecidos dos desafios que se apresentam. Em nenhum momento da história o futuro da humanidade e do planeta dependeu tanto da nossa capacidade de entendimento de que vivemos em um único planeta e de que a nossa sobrevivência está diretamente ligada à preservação e valorização dos seus recursos naturais.

Os impactos sociais e econômicos causados em escala global e de forma inédita pela pandemia

da COVID-19 nos advertem que a consumação de riscos associados à quebra do equilíbrio ecossistêmico traz consequências devastadoras quando negligenciados, tal como vem ocorrendo com o risco climático apontado pelo Fórum Econômico Mundial ano após ano, desde 2012.

Cientes disso, o setor empresarial brasileiro, por meio de instituições e empresas dos setores industrial, agrícola e de serviços, vêm hoje reafirmar seu compromisso público com a agenda do desenvolvimento sustentável.

Particularmente, esse grupo acompanha com maior atenção e preocupação o impacto nos negócios da atual percepção negativa da imagem do Brasil no exterior em relação às questões socioambientais na Amazônia. Essa percepção negativa tem um enorme potencial de prejuízo para o Brasil, não apenas do ponto de vista reputacional, mas de forma efetiva para o desenvolvimento de negócios e projetos fundamentais para o país.

Nesse contexto, esse grupo coloca-se à disposição do Conselho da Amazônia para contribuir com soluções que tenham foco nos seguintes eixos:

• Combate inflexível e abrangente ao desmatamento ilegal na Amazônia e demais biomas brasileiros;

• Inclusão social e econômica de comunidades locais para garantir a preservação das florestas;

• Minimização do impacto ambiental no uso dos recursos naturais, buscando eficiência e produtividade nas atividades econômicas daí derivadas;

• Valorização e preservação da biodiversidade como parte integral das estratégias empresariais;

• Adoção de mecanismos de negociação de créditos de carbono;

• Direcionamento de financiamentos e investimentos para uma economia circular e de baixo carbono; e

• Pacotes de incentivos para a recuperação econômica dos efeitos da pandemia da COVID-19 condicionada a uma economia circular e de baixo carbono.

Algumas das empresas signatárias já desenvolvem soluções de negócios que partem da bioeconomia, com valor agregado e rastreabilidade dos produtos, inclusive, na Amazônia. De um lado, entendemos que é possível dar escala às boas práticas a partir de políticas consistentes de fomento à agenda ambiental, social e de governança. De outro, é necessário adotar rigorosa fiscalização de irregularidades e crimes ambientais na Amazônia e demais biomas brasileiros.

Temos a oportunidade única, os recursos e o conhecimento para dar escala às boas práticas e, mais do que isso, planejar estrategicamente o futuro sustentável do Brasil. Precisamos fazer as escolhas certas agora e começar a redirecionar os investimentos para enfrentamento e recuperação da economia brasileira em um modelo de economia circular, de baixo carbono, e inclusiva, em que não há controvérsias entre produzir e preservar. Em nosso entendimento, esse é o melhor caminho para fincarmos os alicerces do país para as próximas gerações. Caso contrário, corremos o risco de ficarmos à margem da nossa própria história.

Veja abaixo a lista de empresas e entidades signatárias do comunicado ao setor empresarial brasileiro

EMPRESAS

- Agropalma

- Alcoa

- Amaggi

- Ambev

- Bayer

- Bradesco

- BrasilAgro

- Cargill

- Cosan

- DSM

- Ecolab

- Eletrobras

- ERM

- Grupo Vamos

- Iguá

- Itaú

- Jacto

- JSL

- Klabin

- LVMH

- Marfrig

- Mauá Capital

- Michelin

- Microsoft

- Movida

- Natura

- Rabobank

- Santander

- Schneider Eletric

- Shell

- Siemens Energy

- Sitawi

- Stefanini

- Suzano

- Ticket Log

- TozziniFreire

- Vale

- Vedacit

- WeWork

ENTIDADES

- Cebds

- Abag

- Abiove

- Iba

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