Gabriela Biló/Estadão
Queimada em Santo Antônio do Matupi: A devastação da floresta está no topo da cobrança de investidores estrangeiros ao governo  Gabriela Biló/Estadão

Em carta, grandes empresas pedem protagonismo do Brasil na agenda verde

Em documento que será levado para a COP26, presidentes de empresas como Bradesco, Ipiranga, BRF, Renner, Suzano e Natura, entre muitas outras, alertam para o risco de ‘enorme prejuízo ao setor produtivo e à sociedade brasileira’

Mônica Ciarelli e Bruno Villas Boas, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2021 | 05h00

 

Em meio à desconfiança global em relação à gestão ambiental brasileira por parte do governo, os empresários voltam a se posicionar sobre o tema. Presidentes de 105 grandes empresas nacionais e estrangeiras e de dez entidades setoriais assinaram uma carta defendendo objetivos climáticos ambiciosos e o protagonismo do País nas negociações do clima. Antecipado com exclusividade pelo Estadão/Broadcast, o documento será apresentado ao governo brasileiro e levado para a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, a COP26, marcada para novembro, em Glasgow, na Escócia.

O tamanho das empresas que subscrevem o documento é um indicativo da importância que a questão ambiental tem para a economia brasileira. Apenas as 46 empresas desse grupo que têm capital aberto somam quase R$ 1 trilhão em faturamento. Assinam o documento CEOs como Octavio de Lazari Júnior (Bradesco), Lorival Luz (BRF), Marc Reichardt (Bayer), Fabio Faccio (Renner), Marcelo Melchior (Nestlé), André Lopes de Araújo (Shell), Daniel Mazini (Amazon), Christian Gebara (Vivo), João Paulo Ferreira (Natura) e Marcelo Araujo (Ipiranga).

Chamada de “Empresários pelo Clima”, a iniciativa liderada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) ocorre em meio a uma série de movimentos do setor privado para se blindar do posicionamento ambiental do governo de Jair Bolsonaro. Diante de ameaças, por parte dos estrangeiros, de retirada de investimentos e boicote aos produtos brasileiros, lideranças empresariais têm manifestado publicamente preocupação com o desmatamento e cobrado medidas.

“Objetivos climáticos ambiciosos correspondem à nossa convicção de que o Brasil deve buscar o protagonismo nas negociações de clima. Esse é o papel compatível com a nossa tradição de integridade climática”, afirma um trecho da carta. “O Brasil deve manter a sua centralidade nesse diálogo, sob pena do enorme prejuízo ao setor produtivo e à sociedade brasileira.”

A presidente do CBEDS, Marina Gross, que foi negociadora em conferências sobre o clima no fim dos anos 90, explica que o conselho tem alertado internamente ao governo sobre como seu posicionamento tira recursos das empresas. “Na carta, estamos dizendo ao governo: ‘por favor, avance, pois nós vamos dar a retaguarda’. Para fora do Brasil, estamos mostrando que o País tem grandes empresas e instituições, com um peso grande do PIB, fazendo a coisa certa.”

Baixo carbono

No documento, empresários defendem medidas para uma economia de baixo carbono e assumem responsabilidades. Eles lideram empresas que adotam medidas para redução e compensação das emissões de gases causadores do efeito estufa (GEE), precificação interna de carbono, descarbonização das operações. Os executivos pedem um arcabouço político-regulatório que apoie essa trajetória, com “ações eficazes para o fim do desmatamento ilegal e a conservação do meio ambiente”.

O Brasil emitiu, em 2019, 2,1 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (GtCO2e), sendo que 44% dessas emissões foram decorrentes do desmatamento. Marina explica que 98% desse desmatamento no País é ilegal. “O desmatamento ilegal é o nosso elefante na sala, que acontece sobretudo no bioma da Amazônia, e isso tem de acabar. Isso não traz desenvolvimento”, afirma.

Em recente discurso na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, Bolsonaro divulgou, porém, dados imprecisos sobre meio ambiente e a Amazônia, o que prejudica ainda mais a imagem do País no exterior. 

Tito Martins, presidente da mineradora Nexa (ex-Votorantim Metais), é um dos executivos que assinaram a carta. Segundo ele, o documento reafirma que o setor econômico apoia a necessidade de olhar a questão da Amazônia e da emissão de carbono de forma séria e prática. “Se não participarmos disso ativamente, seremos cobrados por clientes, fornecedores e diferentes ‘stakeholders’. E vamos perder, do ponto de vista de negócio e econômico”, afirma o executivo.

Denise Hills, diretora de sustentabilidade de Natura, diz que estar alinhada com a agenda global e fazer esforços para endereçar a emergência climática é, além de uma obrigação moral, um imperativo econômico. “Os ganhos para o Brasil, entretanto, não serão só em termos financeiros, mas também socioambientais e reputacional”. Glaucimar Peticov, diretora executiva do Bradesco, acrescenta que a carta reforça a “importância do comprometimento mais amplo da sociedade e de uma ação conjunta em prol de objetivos climáticos ambiciosos”.

Marina entregou a carta, ainda sem as assinaturas, para o presidente da COP26, Alok Sharma, durante visita ao Brasil, realizada em agosto. Os organizadores tentam apresentar o documento ao governo brasileiro. Há pedidos de encontro com o ministro das Relações Exteriores Carlos França e os ministros Joaquim Leite (Meio Ambiente), Paulo Guedes (Economia) e Tereza Cristina (Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Marina diz que tem recebido sinalizações positivas para o encontro.

Leia a íntegra da carta:

Posicionamento empresários pelo clima

"O mundo precisa, com urgência, caminhar para uma economia de baixo carbono e o setor empresarial no Brasil reconhece sua responsabilidade nessa transformação. Sobre as bases do compromisso, da ciência e da inovação, as empresas estão respondendo ao chamado expresso no Acordo de Paris, que, em 2015, conferiu ao setor produtivo protagonismo na defesa contra o agravamento e os efeitos das mudanças climáticas, em parceria com a sociedade civil e governos. 

O Brasil tem vantagens comparativas extraordinárias na corrida para alcançarmos uma economia de emissões líquidas de carbono neutras, valendo-nos dos nossos múltiplos recursos naturais e da capacidade de nosso povo. Para isso, devemos desenvolver um arcabouço político-regulatório que apoie essa trajetória dentro de um compromisso firme com ações eficazes para a preservação do meio ambiente e o cumprimento das metas de combate ao desmatamento ilegal. Essa é uma oportunidade única do Brasil ser competitivo e melhorarmos as condições de vida da população, alinhados com as novas prioridades em torno das quais o mundo está se movimentando. 

É possível trazer escala à inovação e às boas práticas e planejar estrategicamente para que o Brasil realize rapidamente o seu potencial de crescimento sustentável e alinhado com os objetivos de combater a mudança climática e proteger a biodiversidade. O setor empresarial brasileiro está engajado na recuperação do país dos efeitos da Covid-19, promovendo uma retomada verde (green recovery) fundada em bases de economia circular, de baixo carbono e de inclusão. Os CEOs signatários deste documento têm assumido posições e trabalhado por esse avanço em todo o país. 

Às vésperas da COP de Glasgow, o momento é de ação, com vistas a evitar o aquecimento global para além de 1,5º C em relação ao período pré-industrial. Por isso, as empresas no Brasil já vêm adotando medidas para a redução e compensação das emissões de gases causadores do efeito de estufa (GEE), precificação interna de carbono, descarbonização das operações e cadeias de valor, investimentos em tecnologias verdes e estabelecimento de metas corporativas ambiciosas de neutralidade climática até 2050. 

Uma transição célere para o baixo carbono é possível e desejada pelo setor produtivo brasileiro. Segundo estudo recente, apoiado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), é possível reduzirmos as emissões de GEE em até 42% no Brasil já em 2025, em relação aos níveis de 2005. 

Para atingirmos essa meta, são importantes os avanços representados pelo RenovaBio, nossa recém-aprovada política de pagamento por serviços ambientais – PSA, futuro mercado regulado de carbono no Brasil, bem como o esforço para o reconhecimento global da experiência e contribuição brasileiras para a mitigação das emissões líquidas de gases do efeito estufa, inclusive com soluções baseadas na natureza. Assim, consideramos crucial o aprofundamento da discussão entre o setor privado, a sociedade civil e o governo brasileiro sobre a posição brasileira em relação ao Artigo 6° do Acordo de Paris. 

Objetivos climáticos ambiciosos correspondem à nossa convicção de que o Brasil deve buscar o protagonismo nas negociações de clima. Esse é o papel compatível com a nossa tradição de integridade climática, presente na decisão do país em assumir uma contribuição nacionalmente determinada (NDC) para o combate à mudança climática relevante e não condicionada, e de construção de consensos internacionais que tem caracterizado nosso país. O Brasil deve manter a sua centralidade nesse diálogo, sob pena do enorme prejuízo ao setor produtivo e à sociedade brasileira.

Acreditamos que as discussões dos mecanismos de apoio ao objetivo de carbono neutro previstos no Acordo de Paris, a serem conduzidas em Glasgow, são uma oportunidade de estimular a economia mundial, abrindo fronteiras e alinhando esforços, para a inclusão dos países de todos os níveis de renda, com estímulo à inovação e atenção à integridade no combate ao aquecimento global. 

Para dar concretude aos esforços na direção de uma economia de carbono neutro, apoiamos a aderência a metas baseadas em conceitos científicos (Science Based Targets) e práticas de transparência financeira (Task Force on Climate-Related Financial Disclosures), com a adoção de mecanismos de financiamento para a promoção da transição climática e o combate integral e inequívoco ao desmatamento ilegal da Floresta Amazônica e de outros biomas brasileiros. 

É preciso, ainda, a adoção de regras que possibilitem o desenvolvimento de mercados de carbono voluntário e regulado no Brasil – com práticas de transparência na contabilização das emissões e sua conexão com mercados mundiais, assegurando a qualidade ambiental e integridade dos créditos de carbono a serem comercializados e cooperando para a criação de um mercado de carbono global no âmbito da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC).

Devemos construir uma trajetória orientada para um futuro de claros objetivos climáticos, sob pena de sermos excluídos de uma nova ordem climático-econômica que se consolida diante dos nossos olhos, o que seria injustificável para um país como o Brasil. 

O setor empresarial brasileiro convida, portanto, toda a sociedade e atores políticos que apoiem o engajamento do Brasil nessa nova realidade global de economia climática, por meio da retomada verde da economia e da participação ativa na Conferência de Glasgow e em seus preparativos. Assim poderemos reafirmar nossa inserção internacional e construir um melhor legado ambiental, social e econômico, com menos desigualdades e melhores condições de vida, para essa e as próximas gerações." 

Conselho de Líderes 

CEBDS

Assinam a carta:

Cláudio Ribeiro – 2WEnergia

Cátilo Cândido – Abralatas

Leonardo Framil – Accenture

Clarissa Sadock – AES Brasil

Otavio Carvalheira – Alcoa

Judiney Carvalho de Souza – Amaggi

Daniel Mazini – Amazon

Izabel Cristina Andriotti Cruz de Oliveira – Ambipar

Apple

Elizabeth Garcia – Approach Comunicação

Karin Marangoni Ferrara Formigoni – Arcadis

Gilson Finkelsztain – B3

Gabriel Ferreira – Banco BV

Alfredo Pinto – Bain & Company

Marc Reichardt – Bayer

Francisco Mussnich – BMA

Jorge Sant’Anna – BMG Seguros

Ricardo Guimarães – BNP Paribas

Besaliel Soares Botelho – Bosch

Mario Lindenhayn – BP

Octavio de Lazari Júnior – Bradesco

Roberto Simões – Braskem

Lorival Luz – BRF

Teresa Vernaglia – BRK Ambiental

Luiz Ildefonso Simões Lopes – Brookfield

Erasmo Carlos Battistella – BSBIOS

João Ney Colagrossi Filho – Camargo Corrêa Infra

Paulo Sousa – Cargill Brasil

Stéphane Maquaire – Carrefour Brasil

Ricardo Rodrigues de Carvalho – CBA

Philippe Ryser – Ceptis

Mariano Vela – Chevron

Antonio Trindade – Chubb

Sergio Rhein Schirato – Daemon

Altair Rossato – Deloitte

Javier Constante – Dow

Mauricio Adade – DSM

Orson Ledezma – Ecolab

Jean-Emmanuel Seixas – Egis

Francisco Gomes Neto – Embraer

Ricardo Perez – Energisa

Pedro Zinner – Eneva

Maurício Bähr – Engie

Veronica Coelho – Equinor

Paulo Henrique Pereira dos Santos – ERM

Luiz Sérgio Vieira – EY

Rafael Davidsohn Abud – FS

Ulisses Sabará – Grupo Sabará

Frederico Pinheiro Fleury Curado – Grupo Ultra

Gustavo Henrique Braga Couto – Grupo Vamos

Ricardo Emmerich – Hewlett Packard Enterprise

José Paiva – Hitachi ABB

Cláudio Raupp Fonseca – HP

Leonardo Furquim Werneck – Icare

Katia Vaskys – IBM Brasil

Marcelo Araujo – Ipiranga

Gilberto Tomazoni – JBS

Ramon Alcaraz – JSL

Daniel Klabin – Klabin

Luiz Dematte – Korin

Fernanda Barroso – Kroll

Murilo Parada – LDC

Philip Cassou – Lexmark

Fabio Adegas Faccio – Lojas Renner

Thiago Luiz Trecenti – Lwart

Roger Laughlin – Makro

Miguel de Souza Gularte – Marfrig

José Carlos Rapacci – Mars Petcare

Estanis Bassols – Mastercard

Roberto Quiroga Mosquera – Mattos Filho

Feliciano Almeida – Michelin

Renato Horta Franklin – Movida 

João Paulo Ferreira – Natura

Marcelo Melchior – Nestlé

Tito Botelho Martins – Nexa

Valter Taranzano – Nidec

Sandro Linguinho de Oliveira – Norflor

Irlau Machado Filho – Notredame Intermédica

Juliana Azevedo – P&G

Marco Castro – PwC

Berson Araujo Cajueiro – Queiroz Galvão

Adriana Aroulho – SAP

Marco Matias – Schneider Electric

André Loes de Araújo – Shell

André Clark – Siemens Energia

Pablo Fava – Siemens

Fernando Simões – Simpar

Raphael Denadai – SKY

Altair Moreira – Socicam

Adriana Waltrick – SPIC Brasil

Winston Fritsch – Struttura Desenvolvimento e Financiamento de Projetos e WF Consultores

Walter Schalka – Suzano

Luana de Brito Costa Duffé – TechnipFMC

Paulo Kruglensky – Vivara

Christian Mauad Gebara – Vivo

Paulo Alvarenga – Thyssenkrupp

Jean-Urbain Hubauy – Ticket Log

Fernando Serec – Tozzini Freire

Helio Magalhães – UBS

Marcos Bicudo – Vedacit

Marcelo Castelli – Votorantim Cimentos

João Schmidt – Votorantim 

Felipe Bittencourt – Way Carbon

Jain Lorenzatto – West Rock

Olaf Hektoen – Yara

Edson Franco – Zurich

Apoio institucional

Marcello Brito – Abag

Janaina Donas – Abal

Venilton Tadini – Abdib

José Velloso Dias Cardoso – Abimaq Sindimaq

Deborah Vieitas – Amcham Brasil

Rebeca Lima – CDP

José Pio Borges – Cebri

Gabriella Dorlhiac – ICC

Leonardo Luiz dos Santos – IPGC

Philip Yang - Urbem

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Governo prepara plano de neutralidade climática para levar à COP26

Pressionado pela comunidade internacional, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro antecipou em 10 anos o prazo para neutralizar as emissões de gases de efeito estufa pelo País

Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2021 | 05h00

 

Os primeiros detalhes do plano de neutralidade climática brasileiro para 2050 serão apresentados ao público antes da COP26, marcada para ocorrer em novembro, em Glasgow (Escócia), segundo o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite. Pressionado pela comunidade internacional, em abril, durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima organizada pelo presidente americano Joe Biden, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro antecipou em 10 anos o prazo para neutralizar as emissões de gases de efeito estufa pelo País.

 A meta anterior era 2060. Apesar de o empenho ter sido bem recebido, havia uma série de dúvidas sobre como o governo doméstico trabalharia nessa direção, já que as medidas que serão adotadas para tal até agora não foram reveladas. Segundo Leite, o principal compromisso do momento é com o desmatamento, um dos pontos que mais chama a atenção da comunidade internacional, principalmente da Amazônia.

O plano é elaborado por um grupo de trabalho interministerial. O ministro disse que novidades serão divulgadas “nos próximos dias”. “Será uma direção em relação às atividades que deverão ser monitoradas para atingir a meta de 37% até 2025; de 43%, até 2030 e de neutralidade em 2050.”

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