Agência Petrobrás
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Em cinco anos, 50 acidentes fatais ocorreram na Petrobrás

Federação dos petroleiros diz que só em 2014 foram registradas 15 mortes nas operações da Petrobrás; estatal não confirma número

Fernanda Nunes,Mariana Durão,Mariana Sallowicz, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2015 | 21h51


A Federação Única dos Petroleiros (FUP), representante dos trabalhadores da Petrobrás, criticou o tratamento dado por órgãos fiscalizadores do governo e pela estatal à segurança nas plataformas produtoras de petróleo. A Petrobrás “investe em segurança, porém mal”, afirmou o diretor da federação José Maria Rangel. Além disso, alertou que falta uma fiscalização por parte da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e do Ministério do Trabalho se as melhores práticas de prevenção a acidentes são cumpridas. As declarações foram dadas após uma explosão em um navio-plataforma da estatal ter matado três pessoas e deixado 10 feridos.

A empresa informou que 74 trabalhadores estavam embarcados na hora do acidente. “A atividade de exploração de petróleo cresceu de forma muito rápida no País e esses órgãos não se prepararam para isso. Não há auditores suficientes para acompanhar essas plataformas”, avalia Rangel.

Às 9h30, a empresa realiza uma coletiva de imprensa no hospital para onde foram levados os feridos. A busca por seis trabalhadores desaparecidos continuam no local do acidente.

Em abril do ano passado, na última visita feita à plataforma Cidade de São Mateus, onde uma explosão causou a morte de três petroleiros e deixou outros dez feridos, a Marinha detectou que o sistema de alarme não funcionava e as mangueiras utilizadas para apagar o fogo estavam enferrujadas, segundo Rangel. Ele não soube dizer se o problema foi resolvido. A federação estima que o ideal seria que a fiscalização ocorresse a cada seis meses.

A principal crítica do diretor da FUP, no entanto, é à gestão da área de segurança da Petrobrás. Em sua opinião, “o programa de controle de acidentes é elaborado nos escritórios da empresa, por executivos que nunca pisaram numa plataforma. A opinião dos funcionários é ignorada”. 

O relatório de sustentabilidade da Petrobrás informa que, de 2009 a 2013, foram registrados 50 acidentes fatais em suas operações - incluindo plataformas em alto-mar, campos terrestres e refinarias. Entre as vítimas, estão empregados concursados e terceirizados. De 2011 a 2013, o número de óbitos caiu, tendo passado de 16 para quatro. Mas, no ano passado, voltou a subir. Segundo a FUP, foram registradas 15 mortes em 2014. A Petrobrás não divulgou esse número. 

No último balanço financeiro, a estatal informou que o gasto com Segurança, Meio Ambiente e Saúde na área de exploração e produção de petróleo, de janeiro a setembro de 2014, foi de R$ 51 milhões. 

Desde 1995, a entidade contabiliza 344 óbitos em operações nas unidades da estatal, dos quais foram de 64 funcionários efetivos da empresa e 280, de terceirizados. Desse total, 17 mortes ocorreram no exterior. Rangel acusa a empresa de não treinar os empregados terceirizados da mesma forma que os concursados, por isso, o número de vítimas fatais entre os terceirizados é maior. Além disso, eles são maioria, 300 mil, ante 86 mil concursados. 

Lava Jato. Fontes ouvidas pelo Estado revelam ainda a preocupação de que mais acidentes aconteçam como consequência da Operação Lava Jato, da Petrobrás, que investiga um suposto esquema de corrupção na Petrobrás.

Na Transpetro, subsidiária responsável pela operação de navios petroleiros e de toda rede de distribuição de petróleo e combustíveis da estatal, os recursos estão escassos e novas contratações, suspensas.

O pesquisador da Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Moacyr Duarte diz que ainda não é possível concluir se a situação financeira da companhia afetou seus investimentos em manutenção, acrescentando que o acidente foi em um navio terceirizado. Apesar disso, não descarta que a empresa esteja fragilizada.

“O histórico da Petrobrás é de ter grande competência técnica e quantidade de equipamento para poder fazer face a esse tipo de situação. Mas essa Petrobrás que estou falando, não estava debilitada como a companhia de hoje”, disse. Para o especialista, a agência reguladora (ANP) deveria verificar, por exemplo, se os treinamentos de funcionários continuam sendo feitos e se os equipamentos estão sendo repostos.

Segundo Duarte, as causas do acidente podem ser variadas, desde falha de equipamentos até erros humanos na execução de tarefas. “Essas explosões podem ser causadas por falha humana, como, por exemplo, na transferência de uma tarefa de um funcionário para outro. Pode ser falha mecânica, falha humana na manutenção, falhas em procedimentos.”

A FPSO foi construída em 1988 e começou a operar pela Petrobrás em 2009, após passar por uma reforma em Cingapura. Na visão do especialista, a vida útil do navio não compromete a sua operação. “É preciso que atenda condições de licenciamento, os equipamentos a bordo têm os certificados. Se estava operando, estava em condições, não estava ilegal nem devendo nenhuma licença”, disse.

O pesquisador acrescentou que o acidente não remete a dano ambiental porque ocorreu numa estrutura de operação. “O fato de não ter sido acionada a evacuação do navio significa que não foi considera a hipótese do navio afundar. Por ser na casa de máquinas significa que não foi no sistema mais crítico”. O maior problema seria se tivesse ocorrido na área de produção.

(Texto atualizado na quinta-feira, às 8h27)

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