DANIELTEIXEIRA|ESTADAO
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‘Em cinco anos, Petrobrás terá virado a página’

Segundo Parente, venda de ativos não vai afetar importânciada estatal no mercadode petróleo e gás

Entrevista com

Pedro Parente, presidente da Petrobrás

Mônica Ciarelli Antonio Pita Fernanda Nunes / RIO, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2016 | 06h00

A Petrobrás vai divulgar em duas semanas o seu novo plano estratégico e tentar virar a página da maior crise de sua história, desencadeada pelos escândalos de corrupção e pelo grave endividamento. Segundo o presidente da estatal, Pedro Parente, o ritmo de venda de ativos – previsto em US$ 15,1 bilhões este ano – manterá a “mesma intensidade” até 2018. Movimento que, segundo ele, não vai afetar a importância da estatal no mercado de petróleo e gás. Há quatro meses no cargo, Parente diz ter “legitimidade” para comandar a Petrobrás após a confirmação do impeachment de Dilma Rousseff e acusa “quem começou a falar em golpe” como responsável pela “roubalheira” e pelos problemas financeiros da estatal. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como sr. enxerga a Petrobrás daqui a cinco anos?

Como uma empresa saneada. Não será uma empresa menor do que hoje na área de (exploração e produção de) óleo e gás. Então, é possível ver uma empresa que virou a página e resgatou credibilidade, sem perder posição no mercado. Tenho absoluta confiança disso, mas eu só fico dois anos.

Como será essa transição?

Queremos divulgar o plano estratégico da companhia na semana do dia 19. Vamos ter duas metas, uma financeira e outra de segurança operacional, as duas com o mesmo grau de prioridade. Não atingimos o nível médio de segurança dos principais players globais, e queremos chegar a isso no menor prazo possível.

Qual é a meta financeira?

Vamos antecipar a meta de redução da alavancagem (a relação entre dívida e geração de caixa) para antes de 2020. A dívida não pode ser duas vezes e meia superior à geração de caixa. Vamos trabalhar pra reduzir o endividamento (hoje, para cada R$ 1 de caixa, há R$ 5 de dívida) e melhorar a receita, com uma política de preços de combustíveis com foco empresarial.

Como ficam os preços para o consumidor?

Veja a relevância que é a política de preço: minha receita é derivada diretamente de uma política competitiva. Significa dizer que tenho de aproveitar oportunidades que o mercado me dá e, por outro lado, não posso abrir espaço para perder participação de mercado para importadores.

Por quanto tempo a empresa sustenta os preços atuais?

Nós acompanhamos diariamente o tema e achamos que, no nível em que estamos, ainda temos uma posição de serenidade. Isso pode mudar a qualquer momento. É uma decisão empresarial.

Só a gestão de preços é suficiente para reduzir o endividamento?

A gente não vai chegar a novos resultados trabalhando da mesma forma, temos de reduzir custos. Vamos introduzir um sistema de gestão mais aperfeiçoado. É uma diferença fundamental de como a Petrobrás trabalhava.

O plano trará investimentos menores?

A redução do investimento será feita por um aumento da eficiência na alocação dos recursos, sem prejuízo da curva de produção.

Qual a importância da venda de ativos para o plano?

Sem dúvida é um componente importante para termos recursos e atingir objetivos empresariais como um todo. Esperamos manter, até 2018, a mesma intensidade da venda de ativos deste ano (a meta para 2016 é vender US$ 15,1 bilhões em ativos). Intensidade é uma palavra qualitativa, o número vai sair no plano de negócios.

Qual a estratégia para o desinvestimento?

O que não faz parte do negócio principal da empresa, o que não se encaixa em nosso objetivo, por exemplo a Liquigás, é venda pura e simples. Naquilo que faz sentido estratégico para a empresa, a prioridade é parceria. A gente trabalha com parâmetros objetivos de demanda de investimento e prazo para geração de caixa. Precisamos trabalhar sem sermos dominados por dogmas, que impedem a racionalidade.

A companhia terá participação menor no pré-sal se forem aprovadas mudanças legais?

O projeto em discussão (no Congresso) seria extremamente importante para o País. Mesmo na legislação atual já somos minoritários. A gente quer é ter a opção: neste campo eu quero estar, neste não. E se eu quero estar, quero ser operador ou não? É uma decisão feita sem dogmas, que considera o melhor interesse da empresa.

Qual a posição do sr. sobre a acusação de que houve um ‘golpe’ no País com o impeachment de Dilma Rousseff?

Estamos evidentemente diante de uma batalha ideológica. Tivemos um processo que levou três meses. A pessoa que estava em julgamento teve ocasião de apresentar sua defesa em um tribunal presidido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski. Nada indica que houve ‘golpe’.

Como as acusações foram sentidas em suas viagens ao exterior? As acusações interferiram nos negócios da empresa?

Nessas minhas andanças, fui recebido com deferência, reconhecimento da minha legitimidade como presidente da Petrobrás. Quando se olha nosso programa de desinvestimentos, ele é absolutamente fundamental para consertar os problemas financeiros. Problemas criados por quem começou a falar em golpe e indicou a minoria que promoveu a roubalheira contra a estatal apontada pelo Ministério Público.

O fundo de pensão dos funcionários da Petrobrás, o Petros, foi alvo da Operação Greenfield da Polícia Federal, que investiga supostas irregularidades em investimentos. Quais medidas foram tomadas em relação às denúncias de corrupção?

Já mudamos o conselho (de administração) do Petros, colocando três diretores da Petrobrás. O presidente, Walter Mendes (que deixou o conselho da Petrobrás para assumir a presidência da fundação), é uma pessoa do mercado financeiro que vai trabalhar para garantir que o fundo seja gerido no melhor interesse dos petroleiros e não de outras pessoas e entidades, como aconteceu no passado.

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