Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

Em crescimento, sudeste asiático deve fazer região ter 7 das 20 maiores economias mundiais

Hoje, apenas quatro economias asiáticas estão entre as vinte principais, sendo que o continente responde por 27% da atividade mundial; aquecimento da demanda por eletrônicos e amplo mercado consumidor devem ajudar no processo

Bárbara Nascimento, especial para o Estadão/Broadcast

17 de março de 2021 | 15h00

CINGAPURA - A posição da Ásia na economia global ficará ainda mais forte nas próximas décadas. Dessa vez, no entanto, com outros países como protagonistas. Apesar de China e Índia seguirem como o destaque da região, o aquecimento da demanda por eletrônicos, uma série de melhoras no ambiente de negócios, a força de trabalho jovem e o amplo mercado consumidor devem dar condições a vários países do Sudeste Asiático de se posicionarem no rol das principais economias globais. Relatório da consultoria Capital Economics prevê que, até 2050, a Ásia terá 7 das 20 maiores economias do mundo e será responsável por mais de um terço (39%) da economia global.

Hoje, apenas 4 economias asiáticas estão entre as 20 principais e o continente responde por 27% da atividade mundial. Enquanto as economias que ajudaram a puxar o crescimento da região nos últimos anos, como Cingapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan, devem começar a desacelerar principalmente pelos efeitos do envelhecimento de sua força de trabalho, países como Indonésia, Vietnã, Filipinas e Bangladesh, membros do ASEAN (Bangladesh é considerado observador no bloco econômico), reúnem uma série de vantagens que devem impulsioná-los nas próximas décadas.

Esses países passaram os últimos anos construindo um sólido caminho para o crescimento, com reformas contundentes do ambiente de negócios. A Indonésia, por exemplo, publicou no início deste ano uma minuta de decreto presidencial sinalizando para a abertura de setores chave da economia. Além disso, o parlamento aprovou uma série de reformas estruturais, como mudanças na legislação trabalhista. As facilidades do ambiente de negócios e o custo baixo da mão de obra também têm fomentado o sucesso do setor manufatureiro, que puxa a economia de países como Vietnã e Bangladesh.

Os custos baixos são viabilizados, entre outros fatores, por uma demografia que ainda trabalha em favor da economia desses países. Relatório do United Overseas Bank (UOB) mostra que, enquanto Cingapura tinha, em 2018, 40% da população com menos de 34 anos, o Vietnã ainda tem 56% da população jovem, a Indonésia, 59% e as Filipinas, 66%. Isso significa que há um número grande de trabalhadores ainda longe da aposentadoria e um grande contingente de pessoas a ingressar, nos próximos anos, no mercado de trabalho.

Com a demanda mundial por eletrônicos - amplamente fabricados nesses países - aquecida, o Sudeste Asiático vê anos dourados pela frente. O setor de eletrônicos é responsável por entre 20% e 50% das exportações da maioria dos países da Ásia. A maior parte dos celulares, televisões, rádios, computadores e hard drives são feitos nos países do ASEAN, com destaque para Tailândia e Filipinas.

O economista sênior de Ásia Emergente da Capital Economics, Gareth Leather, diz que, enquanto os países mais ricos, como Cingapura e Coreia do Sul, terão de apostar em tecnologia para aumentar a produtividade - da já muito produtiva força de trabalho - por não terem tantos jovens, os países "menos ricos" da região têm uma série de gargalos que, se resolvidos, dão espaço para crescimento.

"O Sudeste e Sul da Ásia têm oportunidades para avançar rapidamente", diz Leather. "Eles podem importar tecnologia e crescer rápido com facilidade. As instituições desses países não são perfeitas, mas estão na direção certa."

Relatório da consultoria McKinsey mostra que a experiência dos asiáticos mais ricos e a mão de obra ainda abundante nos emergentes da região fomentam um efeito colaborativo que tem potencial propulsor na Ásia. "A Ásia avançada e a China podem oferecer o financiamento e o conhecimento para seus vizinhos, e o resto da Ásia pode oferecer oportunidades massivas de comercialização e implantação. A região como um todo pode se beneficiar desses fatores complementares", afirma o documento, que prevê que a Ásia Emergente incrementará a força de trabalho do continente em 412 milhões de pessoas até 2040.

Vietnã

Apesar de a Indonésia ser o país que mais deve avançar entre os emergentes da Ásia nos próximos 30 anos, segundo a Capital Economics, os holofotes no curto prazo devem estar direcionados ao Vietnã. O país conseguiu um rápido e eficaz controle da pandemia da covid-19 e foi um dos únicos a crescer (2,9%) em 2020, o que deve dar alguma vantagem para a já positiva trajetória esperada. Com a economia menos ferida pelo coronavírus, o Vietnã quer crescer entre 6,5% e 7% ao ano nos próximos cinco anos e deve, segundo a consultoria, ter seus melhores anos à frente.

Estimativas do banco DBS indicam que o país deve superar Cingapura e se tornar, já em 2029, a terceira maior economia do Sudeste Asiático. O documento prevê ainda que o Vietnã evoluirá a um país de alta renda em 2045, em linha com o previsto pelo governo. O pesquisador de estudos vietnamitas do Instituto Yusof Ishak (ISEAS) Le Hong Hiep afirma que, se o país usar a atual oportunidade de crescimento na direção correta, esse processo poderia ser acelerado. "É claro que, se outros países não puderam crescer durante a pandemia do covid-19, enquanto o Vietnã se manteve positivo, ele pode conseguir de alguma forma alcançar as economias desenvolvidas mais rápido", diz.

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