Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Em crise, Estaleiro Mauá para de operar

Os 2 mil trabalhadores que ainda estavam na empresa foram orientados a esperar em casa

Antonio Pita, O Estado de S. Paulo

02 de julho de 2015 | 21h30

RIO - Atingido pela crise do setor naval, o Estaleiro Mauá, localizado em Niterói, na região metropolitana do Rio, suspendeu suas atividades por tempo indeterminado na noite desta quinta-feira. Cerca de dois mil trabalhadores foram dispensados após o término do expediente e foram informados de que não precisariam retornar ao trabalho até segunda ordem - oficialmente, eles não foram demitidos. Uma Ação Civil Pública foi aberta pelo Sindicato de Metalúrgicos de Niterói contra o estaleiro. 

No último dia 26 de maio, o Mauá já havia demitido cerca de mil trabalhadores - que aguardavam o pagamento de indenizações e rescisões contratuais até esta quinta-feira, o que também não ocorreu. A crise no setor já cortou mais de 14 mil vagas desde o início do ano, atingindo mais de 100 mil pessoas indiretamente, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria de Construção e Reparação Naval Offshore (Sinaval). 

Uma manifestação está marcada para esta sexta-feira, entre as sedes da Transpetro e da Petrobrás. A subsidiária de transporte da estatal é responsável por contratos em vigor com o estaleiro, mas nega que haja atrasos nos repasses, como alegaram representantes do Mauá. Os metalúrgicos também prometem protestar em frente à Caixa, que teria reforçado os controles sobre liberação de financiamentos ao setor após a eclosão da Operação Lava Jato. 

“Os fantasmas da indústria naval estão de volta. A corrupção na Petrobrás não pode ser motivo para destruir a indústria brasileira. A Justiça deve punir as pessoas corruptas, e não as empresas. O trabalhador não pode pagar o preço da ineficiência dos gestores e nem da corrupção”, afirmou Edson Rocha, presidente do Sindicato de Metalúrgicos de Niterói. 

Crise profunda. Em comunicado distribuído aos trabalhadores no início da noite desta quinta-feira, o estaleiro informou que atravessa uma “crise financeira cada vez mais profunda”. “Ela (a crise) está motivada tanto no desequilíbrio econômico dos atuais contratos como na indefinição na liberação dos contratos para construção de mais oito navios”, diz o comunicado, em referência a outro contrato, também paralisado. 

Em outro trecho, o estaleiro atribui a paralisação das atividades também ao corte de investimentos no setor naval e à contratação de estaleiros estrangeiros para atender a atual demanda do setor de óleo e gás. Um dos mais antigos do País, o estaleiro pertence ao grupo Sinergy, do empresário Germán Efromovich. 

O comunicado diz ainda que o estaleiro negociará com o sindicato o pagamento de indenizações. “Solicitamos a todos que permaneçam em seus domicílios até efetivarmos negociações com o sindicato representante da categoria profissional para definirmos a continuidade ou não das atividades industriais e, assim, mantermos a expectativa de melhoria na economia do País e podermos voltar a contratar colaboradores.” 

No último ano, o estaleiro também paralisou contratos alegando dificuldades financeiras e atrasos em repasses da Caixa. A suspensão das atividades durou cerca de quatro meses, e foi contornada com a liberação de cerca de US$ 120 milhões em empréstimos. A crise afetou contratos ligados à empresa Log-In, para a petroleira venezuelana PDVSA. 

A crise no setor foi desencadeada com a retenção de investimentos na Petrobrás, em decorrência da Operação Lava Jato e das dificuldades financeiras das empresas. O Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Pernambuco, também já demitiu mais de 2,4 mil trabalhadores desde abril. 

Já o Estaleiro Paraguaçu, na Bahia, também demitiu mais de 3 mil trabalhadores desde janeiro e encerrou as atividades. Ambos enfrentam dificuldades em função da paralisação das encomendas da Sete Brasil, que forneceria sondas para a produção da Petrobrás no pré-sal. A empresa atualmente passa por reestruturação. 

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