Rodolfo Buhrer/La Imagem
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Em crise, montadoras cortam reajustes de salários

Empresas endurecem negociações e trocam os habituais aumentos superiores à inflação por abonos não incorporados aos salários

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2014 | 02h04

SÃO PAULO - Montadoras estão trocando aumentos salariais por abonos, benefícios que não são incorporados aos salários. Com produção em queda e altos estoques, a indústria automobilística está endurecendo as negociações com trabalhadores. Na segunda-feira, funcionários da MAN Latin América, fabricante de caminhões, votam proposta de redução de jornada e salários, medida que não é adotada no setor há vários anos.

Além disso, a MAN propõe a abertura de um programa de demissão voluntária (PDV) e reajuste zero para os salários em 2015. Em troca, oferece um abono de R$ 2 mil. A companhia emprega cerca de 2,9 mil pessoas no complexo de Resende (RJ), que inclui um grupo de fornecedores. A meta para o PDV será negociada.

Em São Bernardo do Campo, onde atua o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, considerado um dos mais combatentes do País, já foi fechado acordo na Mercedes-Benz, também fabricante de caminhões, que prevê quatro anos seguidos sem aumento real. Neste ano, nem mesmo a correção da inflação será incorporada aos salários. A compensação virá em uma negociação diferenciada para pagamento da Participação nos Lucros e Resultados (PLR).

De 2015 a 2017, os pouco mais de 11 mil funcionários da Mercedes continuarão sem aumento real nos salários, mas o INPC - índice oficial da inflação - volta a ser incorporado.

Para o professor José Pastore, especialista em Economia do Trabalho da Universidade de São Paulo (USP), por ser um setor que envolve extensa cadeia produtiva, é possível que essa estratégia se espalhe por outros segmentos. "Se a situação se agravar, a tendência é de outros setores acompanharem as montadoras", diz.

O diretor de Comunicação e Relações Institucionais da Mercedes, Luiz Carlos Gomes de Moraes, que também é vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), diz que "o Brasil não pode ter indexação automática". Ele cita, além dos salários, serviços e matérias-primas. "É preciso repensar esse modelo caso o Brasil queira ser competitivo e exportar produtos."

Na fábrica da General Motors em São Caetano do Sul, os cerca de 11 mil trabalhadores terão reposição da inflação neste ano e no próximo, mas, em vez de aumento real receberão abonos de R$ 3,7 mil e R$ 4 mil, respectivamente.

Defasado. O abono é uma forma de o trabalhador não perder muito poder aquisitivo, mas, por não ter os valores incorporados aos salários, passada a crise os novos reajustes serão sobre salários antigos.

No complexo de São José dos Campos, onde a GM também não pretende pagar aumento real este ano, o sindicato local dos metalúrgicos recorreu à Justiça do Trabalho para garantir reajuste de 2,49% e a negociação foi para dissídio coletivo.

Na semana passada, trabalhadores da Volkswagen de São Bernardo rejeitaram em assembleia proposta da empresa que previa dois anos seguidos sem aumento real e sem INPC, substituídos por abonos de R$ 8,5 mil e R$ 6,374 mil. A empresa também queria abrir um PDV para 2,1 mil trabalhadores - de um total de 13 mil.

A contrapartida seria estabilidade no emprego até 2019 para os trabalhadores que permanecerem na fábrica e a produção de três novos modelos. A proposta substituiria acordo feito antes estabelecendo reajustes pela inflação e aumento real de 2% nos próximos dois anos.

Sem a aprovação dos trabalhadores, sindicato e empresa vivem um impasse e a expectativa é de que ocorra uma nova negociação. A Volkswagen coloca na mesa as dificuldades que a fábrica do ABC vem passando, por ser a de mais alto custo entre suas três unidades de automóveis no País.

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