Em crise nos EUA, GM cresce na China

Treze anos depois de chegar ao país asiático, montadora é líder de vendas

David Barboza e Nick Bunkley THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

XANGAI

Há uma década, Xangai tinha cinco concessionárias de automóveis que comercializavam Buicks, a marca da General Motors mais vendida na China. Hoje tem 27. E as multidões de compradores que as lotam são constituídas na maioria de jovens, que pagam à vista e não têm disposição para pechinchar no preço.

Enquanto a GM se prepara para fazer uma oferta pública de ações, perto do fim do ano, a China está se tornando um elemento fundamental do seu apelo a possíveis investidores - favorecendo uma espécie de pagamento inicial para os contribuintes americanos, que começariam a reduzir sua participação acionária de 61% na companhia.

No primeiro semestre deste ano, as vendas da GM na China subiram 48,5% em relação ao mesmo período do ano passado e, pela primeira vez na história, a montadora vendeu mais veículos aqui do que nos Estados Unidos. Treze anos depois de chegar à China, a GM afirma que o país agora corresponde a um quarto de suas vendas globais - um crescimento espantoso que ela própria não esperava tão cedo.

"A China representa uma peça de valor inestimável para a companhia", diz Stephen J. Girsky, vice-presidente para estratégia corporativa e desenvolvimento de negócios da GM. "E o dinheiro que vem da China ajuda a financiar investimentos em outras partes da companhia."

Os analistas estimam que a GM tem um valor de mercado de US$ 50 bilhões a US$ 90 bilhões, e a China representa cerca de US$ 15 bilhões deste total. O governo americano converteu cerca de US$ 43 bilhões da ajuda à montadora em participação acionária, que com o tempo poderá ser vendida, depois que a companhia começar a ser negociada em bolsa. Uma avaliação superior a cerca de US$ 70 bilhões permitiria que o governo lucrasse com a sua participação.

Mediante joint ventures com a SAIC Motor Corporation da China e outras fabricantes locais, a GM é a maior montadora de veículos do país e representa cerca de 13% do fragmentado mercado chinês de automóveis. Sua linha de produtos tem como objetivo atender a um amplo espectro das necessidades. A minivan Wuling Sunshine, de US$ 5 mil, por exemplo, é extremamente popular nas áreas rurais, enquanto os luxuosos Cadillacs podem ser vistos nos bairros abastados de Pequim.

O sucesso da GM na China foi possível também graças aos consumidores chineses, que não mostraram em relação à companhia o mesmo ceticismo observado em geral nos EUA. Na China, a maioria dos clientes conhece muito pouco a respeito de automóveis, e recorre à concessionária para receber orientação de compra. "O que indicamos é aceito imediatamente", diz Kevin Wale, presidente da GM China.

Imperador. O carro Buick é o astro da companhia. Preferido pelo último imperador da China, é considerado um veículo suntuoso e sofisticado, em contraposição à imagem conservadora que muitos americanos têm dele. A montadora vendeu cerca de meio milhão destes automóveis no ano passado, cerca de cinco vezes as vendas desta marca nos EUA.

A GM espera vender anualmente mais de 3 milhões de automóveis e caminhões no mercado chinês, até 2015; de janeiro a junho deste ano, ela vendeu 1,2 milhão de veículos, em comparação com 1,08 milhão nos EUA. No primeiro semestre de 2010, as vendas da companhia na China quadruplicaram em comparação às da Ford Motor Co.

A empresa faz parte do panorama industrial dos EUA há mais de um século, mas chegou na China apenas em 1997. Era o início do desenvolvimento do mercado de consumo de carros e caminhões no país, o que representou uma vantagem para a companhia em relação às suas rivais que só começaram a chegar depois de constatarem o aumento acelerado da demanda.

Nos últimos anos, a GM concentrou seus investimentos na China e em outros mercados emergentes, e lançou aqui alguns veículos, como os sedãs Buick LaCrosse e Chevrolet Cruze, antes mesmo de lançá-los nos EUA e em outros países.

Para Tim Dunne, diretor de operações automotivas globais da empresa de pesquisa J.D. Powers & Associates, a enorme população da China não constitui uma garantia de sucesso para as montadoras, mas a GM se saiu bem porque sua principal preocupação é agradar ao gosto dos consumidores. "Estamos falando de um dos mercados mais competitivos do mundo."

Mas, ainda que o rápido crescimento das operações da GM no país contribuam para contrabalançar os problemas da montadora nos Estados Unidos, ela precisará melhorar o desempenho no plano doméstico para recuperar totalmente seu vigor financeiro. No primeiro trimestre, a GM registrou um lucro de US$ 1,2 bilhão em suas operações na América do Norte, depois de perder US$ 3,4 bilhões no trimestre anterior, mas sua parcela de mercado nos EUA encolheu em relação a 2009. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Vendas em alta

1,2 milhão de veículos já foram vendidos pela GM na China este ano

48,5% é o porcentual de aumento das vendas da montadora no país

13% é a participação da GM no mercado automotivo chinês

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