Em Cunha (SP), o Fusca resiste como ferramenta de trabalho

Superado por concorrentes mais modernos há mais de uma década, o veículo ainda é opção barata e valente para o trabalho duro

Hugo Passarelli, do Economia & Negócios,

20 de janeiro de 2012 | 07h29

CUNHA - A chegada de concorrentes mais modernos e de leis ambientais mais rígidas decretaram o fim da fabricação do Fusca no Brasil, em 1996. Mas hoje, além de ter a memória preservada pelos clubes de entusiastas, o modelo ainda resiste nos grotões do País por ser uma opção barata e resistente para a lida diária do trabalho rural.

Em Cunha, distante 232 km de São Paulo, o besouro - um de seus diversos apelidos - é figura fácil pelas ruas. Os números não são oficiais, mas estima-se que existam 3 mil Fuscas rodando na cidade - um para cada oito habitantes, em média. Ao todo, são cerca de 25 mil cunhenses. O município é o meio do caminho para três estados - São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais - e está incrustado entre a Serra da Bocaina e a Serra do Mar.

Não é raro encontrar modelos que tiveram o banco do passageiro retirado. No lugar, vão as compras do mercado, galões de leite, cachorros, material de construção, entre outros. "É a enxada do cunhense", resume Hermes Tanajura, organizador do Fuscunha, evento que homenageia o veículo em janeiro, mesmo mês em que, nesta sexta-feira, 20, é comemorado o Dia Nacional do Fusca.

Leite. Fala genuinamente caipira, camisa aberta na altura do peito e uma careca já avançada, mas devidamente disfarçada por um chapéu. É assim a primeira visão de José Eduardo Pires, o Zé Padre. O apelido veio de um tio que veio de Portugal para o Rio de Janeiro, passou para seu pai e chegou a ele. De padre, no entanto, ele só tem o nome.

Todos os dias, pela manhã e à tarde, ele ordenha suas cerca de 20 vacas. O filho mais novo, Rafael, 20 anos, ainda o auxilia. Para transportar os dois galões de leite que costuma encher - de 50 litros cada - ele tirou o banco do passageiro de seu Fusca 1973. Antes desse, ele estima que outros 10 Fuscas já passaram por suas mãos. O veículo é a melhor opção para enfrentar a sinuosa ladeira de terra que liga a estrada ao seu curral. Nos dias de forte chuva, ele amarra correntes aos pneus para garantir maior tração ao veículo.

Parte do leite ordenhado é vendida para uma indústria de laticínios da região. A outra é reservada por ele para a fabricação de queijo. Ele já tem uma clientela fiel do laticínio e diz que não faz nenhuma divulgação. Com os cerca de R$ 2 mil que ganha mensalmente, Zé Padre criou 7 filhos.

Como não poderia deixar de ser, o Fusca é o primeiro carro de muita gente em Cunha. Foi o caso de Patrícia Cristina de Oliveira, 31, dona de um Fusca 1967, e também de seu irmão e de seu pai. "Eu tenho uma Saveiro, mas quase não uso. Não gosto de andar com carro novo", diz. "Achei esse Fusca quase de graça, por R$ 2,5 mil, e hoje já me ofereceram 10 mil reais". Proprietária de uma casa de materiais de construção, ela conta que chegou a carregar latas de tinta em seu veículo.

Mecânicos. A forte presença de Fuscas também oferece oportunidade de trabalho para os mecânicos da capital nacional do Fusca. Entre eles, há quem atenda somente a donos do pequeno Volkswagen.

Um deles é Benedito Aparecido Freire, 59 anos, dono de um das oficinas mais antigas da cidade. Ele cuida dos Fusquinhas desde 72 e, nos últimos anos, se especializou no trato do veículo.

Nos dias mais movimentados, o também mecânico Hélio dos Santos Pinto, 59 anos, diz que é possível observar até 20 veículos esperando conserto em frente à sua oficina. Ele faz coro à fama de inquebrável do modelo. "Quebrou a correia? Amarra um pedaço de corda!". Ele também recebe outros carros, mas conta que o movimento maior acaba sendo do besouro. Na última semana, ele conta, foram oito Fuscas vindos só de Paraty, a pouco mais de 40 km dali.

Adair Mariano Oliveira, 48, também é outro que tem sua profissão ligada ao veículo. Há 23 anos, desde que se casou, ele trabalha como lavador de carros. Já Pedro José de Oliveira, 44, comprou três unidades - 1972, 1973 e 1975 - para fazer as entregas de seu mercadinho. "Tem muita área rural. E mesmo na cidade, é o carro ideal por causa das ladeiras", afirma.

Enfeite. Como nas grandes cidades, há também em Cunha quem compre o veículo pelo puro prazer em cultivar um clássico. Benedito Macedo da Conceição, 46 anos, o Dito, é assistente de pedreiro e praticamente não usa o veículo para chegar aos locais onde é chamado para trabalhar. A exceção é quando ele precisa ir para áreas mais afastadas

Há 16 anos, ele comprou um modelo 1980 e, desde então, tem se dedicado a enfeitá-lo. De sua cabeça surgiu a ideia de acrescentar quatro antenas molengas e com uma bola na ponta - três na frente e uma atrás. A lista é engrossada por cortinas de renda para as janelas e por correntes amarradas embaixo do parachoque.

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