Gabriela Biló/Estadão
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Empreiteiras passam o ano sem fechar nenhum novo contrato

Operação Lava Jato e recessão dificultaram a conquista de novos serviços por construtoras como Odebrecht e Camargo Corrêa

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2015 | 05h00

Depois de crescerem a uma taxa média anual de quase 4% na última década, as empreiteiras entraram num rápido processo de declínio. A situação tem sido tão complicada que as maiores construtoras do Brasil, como Odebrecht, Camargo Corrêa e Mendes Júnior, não conseguiram fechar um único contrato no decorrer deste ano, seja porque estão envolvidas na Operação Lava Jato, que investiga corrupção em contratos com a Petrobrás, ou porque a recessão econômica afundou os investimentos públicos e privados no País.

O resultado tem sido uma enxurrada de demissões (mais de 500 mil empregos foram cortados no setor este ano), vários ativos à venda para fazer caixa e centenas de empresas em recuperação judicial (253 construtoras em processo de recuperação entre janeiro e setembro). A expectativa é que o Produto Interno Bruto (PIB) do setor feche o ano com queda de 11%, segundo cálculos da consultoria GO Associados feitos a pedido da Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas (Apeop) – no ano passado, a retração foi de 2,6%. 

Segundo a Odebrecht, líder do ranking nacional de construtores, o cenário econômico afetou os investimentos em infraestrutura, “o que é a causa principal de a empresa não ter conquistado novos contratos no Brasil”. Outras gigantes do setor, como Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Galvão Engenharia, estão em situação semelhante, afirmam fontes. Mas, procuradas, as três empresas não quiseram falar sobre o assunto. 

Já a Carioca Christiani-Nielsen Engenharia foi sutil na resposta se fechou ou não novos contratos neste ano. Em nota, afirmou que “está focada em seguir seu planejamento estratégico e em cumprir os contratos atuais nos prazos acordados, tanto com seus clientes públicos quanto privados”.

Reputação. Além da escassez de novos serviços, todas essas companhias têm em comum o fato de estarem envolvidas na Operação Lava Jato. Embora não estejam proibidas de participar de licitações públicas com o governo federal, já que não foram consideradas inidôneas pela Controladoria-Geral da União (CGU), a reputação manchada pelo esquema de corrupção cria uma série de empecilhos na disputa por novos negócios no setor privado.

Em recente entrevista ao Estado, o diretor de Investimentos e Operações da LogZ, Roberto Lopes, afirmou que estava com dificuldades para contratar empreiteiras para tocar alguns projetos portuários da empresa. Formada por fundos de investimentos que têm como cotistas grandes fundos de pensão (Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, e Funcef, da Caixa), a empresa afirmou que tem receio de contratar alguma construtora que não consiga terminar o serviço.

Na avaliação do presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins, as construtoras envolvidas na Lava Jato sofrem mais porque sempre estiveram à frente dos megaempreendimentos do Brasil, como as grandes hidrelétricas, que têm melhor rentabilidade e exige maior especialização. “O problema é que esses projetos sumiram. Não temos novos empreendimentos de grande porte em licitação no País ou na iminência de sair.”

Sem contratos novos, essas empresas também estão recebendo menos da União pelos serviços já prestados. Levantamento do Contas Abertas mostra que, de janeiro a agosto, os desembolsos foram 58% menores do que em igual período de 2014, R$ 1 bilhão ante R$ 2,4 bilhões. Para algumas companhias, como a Mendes Júnior, essa redução tem um efeito devastador no caixa, já que 76% da carteira da empresa vem do setor público.

Na Odebrecht e na Camargo Corrêa, essa relação é inversa: cerca de 80% dos contratos são privados. Mas, independentemente da origem dos contratos, essas empresas estão buscando alternativas para amenizar os efeitos da retração do mercado doméstico. 

Na Odebrecht, por exemplo, a participação internacional na receita da companhia cresceu para 82%. No ano passado, no mesmo período, essa fatia era de 73%. Além da queda nas receitas internas (em 2014, houve queda de 20% por causa da entrega dos estádios), a empreiteira conquistou sete novos contratos no exterior.

Empresas que não estão relacionadas com o escândalo de corrupção também enfrentam dificuldade para conseguir novos negócios, a exemplo de Contern e da espanhola Isolux. As duas empresas passaram 2015 à míngua. “Nada aconteceu este ano. Está tudo parado. Para o governo federal, essa situação virou cômoda porque ele não tem dinheiro para pagar”, afirma o presidente da Apeop, Luciano Amadio. Segundo ele, as empresas estão ávidas por novos negócios, especialmente as de pequeno e médio porte.

Pequenas e médias. Por muito pouco, a Villanova Engenharia não entrou para o grupo dos “sem contratos”. Depois de dez meses sem nenhum novo serviço, a empresa conseguiu firmar dois novos contratos com a Prefeitura de São Paulo para reformar algumas escolas e um prédio antigo. Mas isso não será suficiente para reverter uma queda de 40% no faturamento da empresa neste ano. 

“Foi um ano muito difícil. Antes, fechávamos entre 6 e 10 novos contratos por ano. Agora sofremos para conseguir esses dois”, diz o presidente da empresa, José Eduardo da Costa Freitas. Segundo ele, muitas construtoras não estão conseguindo fechar nenhum novo projeto, saindo do setor ou fechando as portas. “O mais complicado é que vamos perder uma mão de obra especializada e quando houver a retomada vamos ter de recomeçar do zero e formar novos profissionais.”

Outra que foi salva em novembro foi a Telar Engenharia, que conseguiu um novo contrato com o Metrô de São Paulo para fazer acabamentos nas estações. Mas, segundo o presidente da companhia, Marco Botter, esse serviço só terá retorno nas contas da empresa no segundo semestre de 2016. “Nosso faturamento deve cair em torno de 50% e teremos enorme prejuízo este ano. Temos vivido de espasmos de investimentos.”

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