Em defesa da fuga de cérebros

Os grandes cérebros do setor bancário não têm amor. Em Wall Street, começam as queixas de que os altos executivos do setor financeiro terão cortes de salários. Na opinião de muitos executivos, a medida será desastrosa, porque as mentes mais agudas das finanças sairão, levando consigo os mais preparados, no exato momento em que serão necessários para reorganizar suas companhias e recolocar a economia nos trilhos. Mas será que essa fuga de cérebros é real, ou apenas uma justificativa? E no fim das contas, seria tão importante assim? Existem bons motivos para pagar bem um diretor-executivo. As decisões que um CEO precisa tomar são tão cruciais para suas companhias, que deveria ser uma prioridade contratar gente competente, em vez de ficar pechinchando um salário. Mas é difícil argumentar que os executivos de Wall Street jogavam seu próprio jogo. Afinal, muitas pessoas inteligentes nesse campo fizeram uma porção de coisas idiotas. Os corretores assumiram riscos absurdos com investimentos em hipotecas e amealharam bonificações de sete dígitos. Seus chefes, na esperança de receberem recompensas polpudas, fecharam os olhos ao perigo. E os chefes dos chefes, os que de fato administram essas companhias, nunca deixaram de ter conhecimento de tudo isso. Enquanto os lucros entraram, todos ganharam dinheiro. Até, é claro, que pararam de ganhar. John H. Gutfreund, diretor da Solomon Brothers nos anos 80, diz que muitos executivos de Wall Street estão chorando como crianças. Acostumados aos salários monstruosos que embolsavam na época das vacas gordas, agora não querem perdê-los. Entretanto, durante o boom e a bolha, o setor financeiro cresceu muito mais do que a economia como um todo. Agora, os banqueiros, como todos nós, talvez tenham de baixar um pouco suas expectativas. "As pessoas haviam sido mimadas." No entanto, o pacote de estímulo econômico que se tornou lei na semana passada proíbe os altíssimos salários nas companhias que receberam dinheiro dos contribuintes. Embora advogados e especialistas em remuneração de executivos já estejam procurando brechas na lei, por enquanto, os dias dos salários estonteantes aparentemente acabaram. Executivos de escalões mais baixos também têm do que se queixar: as restrições acabarão reduzindo os salários em todos os níveis. Isso é difícil de aceitar em um setor em que "buck" é o código equivalente a US$ 1 milhão no jargão corrente e os mais graúdos podem ganhar de 20 a 30 "bucks" ao ano, ou até mais. Se você não trabalhou em Wall Street, não conseguirá perceber muito bem o espaço psíquico que o salário - tanto o número, quanto o que ele representa para os colegas - ocupa aqui. O dinheiro é o parâmetro fundamental. Mas os tempos mudaram. Em todo o mundo, os bancos perderam mais de US$ 1 trilhão desde o início da crise e, segundo alguns especialistas, seus prejuízos totais poderão triplicar. Dezenas de milhares de banqueiros e corretores perderam o emprego. É por isso que há uma revoada de currículos por aí. Um caçador de cérebros de Wall Street, Gustavo Dolfino, diz que, quando o mercado estava em alta, cerca de 30 banqueiros e corretores telefonavam para ele semanalmente, à procura de emprego. Agora, são 300. De outro lado, se alguns senhores do universo ameaçarem sair, aonde irão? Talvez busquem uma nova colocação nos fundos hedge (os mais arriscados), nas empresas que compram empresas para revendê-las, nos bancos butique e nas startups. Outros migrarão para Londres ou Cingapura. Todos concordam: a Wall Street que nós conhecemos, acabou. Executivos e recrutadores do setor bancário dizem que os financistas talentosos - os mais determinados, os gênios da matemática, um tanto impiedosos, dotados de um talento sobrenatural para fazer dinheiro tanto nos mercados em alta quanto em baixa - são sempre muito procurados. Mas, considerando a turbulência atual do setor, neste momento o mercado é de compradores. Na outrora orgulhosa Merrill Lynch, que despencou nos braços do Bank of America, anos de lucros evaporaram. Goldman Sachs e Morgan Stanley, companhias que durante muito tempo despertaram a inveja do setor, enfrentam futuros incertos, depois de se tornarem bancos antiquados somente para sobreviver. A julgar pelas bolsas, os investidores aparentemente acham que os grandes bancos como o Bank of America e o Citigroup acabarão estatizados (os bancos afirmam que isso não vai ocorrer, mas na sexta-feira, já foi confirmado o aumento da participação estatal no Citi). Durante anos, administrar um fundo hedge e fazer fortuna pessoal no processo era o sonho corrente em Wall Street. Mas agora esse setor, como grande parte das finanças, encolheu. Muitos investidores em fundos hedge estão entrando em colapso. Desde maio do ano passado, os ativos administrados por esses fundos caíram de US$ 1,4 trilhão para US$ 964 bilhões. O setor de private equity luta com uma crise gravíssima própria. É claro que isso não impedirá que banqueiros e corretores abandonem o barco, se puderem. Wall Street sempre teve sua parcela de mercenários, pistoleiros contratados para se vender a quem apresentasse a oferta mais alta. Poucos deles pretendem passar toda a sua carreira no mesmo banco. Nesse negócio, 12 ou 18 meses podem parecer uma eternidade. E a lealdade? Por favor! Mas tudo isso é uma boa notícia para financistas como Roger C. Altman, que foi subsecretário do Tesouro no governo Clinton e agora dirige o Evercore Partners, um pequeno banco de investimentos, independente. A redução dos salários nos grandes bancos permitirá que companhias como a sua escolham a dedo alguns talentos, afirma. Mesmo assim, Altman acha que a restrição aos altos salários é uma má ideia, ainda que sua companhia deva se beneficiar com isso. A medida poderá ter consequências negativas, como a elevação dos salários em dinheiro para contornar a redução das bonificações, ou encorajar os bancos a lançar mão de técnicas legais criativas para transferir determinadas empresas para o exterior.Alguns bancos poderão se apressar a devolver o dinheiro dos contribuintes para se livrar do controle do governo, quer estejam prontos para isso quer não, e não só eles, como o setor como um todo. Altman teme que a fuga de cérebros seja real e possa deixar os bancos fracos mais fracos ainda. Além disso, não devemos esquecer que foi um grupo de talentos extraordinariamente pagos que nos pôs neste enorme problema. Se alguns executivos de Wall Street resolverem sair, quem sabe outros mais inovadores tomem o seu lugar e construam algo um pouco mais durável. "É preciso chegar no grupo dos que realmente gostam de finanças e perder os que vierem apenas por dinheiro", enfatiza David S. Resnick, codiretor do banco de investimentos Rothschild nos Estados Unidos. Se ele estiver certo, com esse tipo de fuga de cérebros poderemos conviver. *David Gillen é articulista

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