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Em defesa do ajuste

Domingo à noite, a presidente Dilma pegou carona no Dia da Mulher para um apelo nacional à compreensão e à paciência dos brasileiros e brasileiras pelo momento difícil da economia. Recebeu em troca o maior panelaço que já se ouviu no Brasil.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2015 | 02h03

O pronunciamento só não foi um desfile de mesmices porque, desta vez, a presidente defendeu seu programa de ajuste, o que até agora vinha evitando. Os problemas de comunicação começaram na postura na TV. A presidente pediu sacrifícios com uma expressão corporal de quem convoca a turma para um jantar dançante e não para uma temporada de aperto de cintos, suor e lágrimas.

Mas as incoerências envolveram principalmente o conteúdo do pronunciamento. Até agora, as mensagens do governo eram de que não havia nada de errado na economia. Tudo corria conforme as expectativas. As metas vinham sendo religiosamente cumpridas e as perspectivas eram promissoras. Havia, é certo, pontos de vista divergentes, mas estes eram propalados pelos derrotistas de sempre. Nessas condições, por que esse súbito apelo ao sacrifício?

A explicação, a de que a economia brasileira sofre o impacto da segunda fase da crise global, é de difícil compreensão, porque as economias maduras estão saindo da crise, deixaram de contaminar o resto do mundo.

Os Estados Unidos, por exemplo, crescem a 2,4% ao ano. Seu índice de desemprego, que há um ano era de 7,0%, caiu em fevereiro a 5,5%. E o Banco Central Europeu começa agora seu programa de injeção de euros no mercado, operação concebida para alavancar a recuperação.

Se a crise brasileira fosse propulsionada por fatores externos, como insiste a presidente Dilma, como, então, explicar nossa inflação que vai agora para 8% em 12 meses? Lá fora, os preços estão em seu nível mais baixo em muitos anos. O risco é a deflação. Não há inflação a exportar para cá.

A estiagem também não pode ser responsabilizada pelas nossas mazelas. O setor mais vulnerável a crises climáticas é a agricultura. E, no entanto, as projeções mais recentes do IBGE e da Conab são de que, apesar da redução dos preços das commodities, a colheita de grãos deste ano baterá novo recorde de produção e de produtividade.

A presidente Dilma teria mais compreensão da população se reconhecesse que os problemas que afligem a economia se deveram a más escolhas de política, que agora começam a ser corrigidas. Perdeu mais uma oportunidade de fazer a autocrítica capaz de pavimentar corações e mentes para o que pede agora.

Não há nenhuma opção consistente ao programa de ajuste das contas públicas. Deixar que tudo desande implicaria desistir do crescimento econômico sustentável e permitir que a inflação saltasse para o que Deus quisesse.

Até recentemente, recomendações de maior austeridade fiscal eram repelidas pelo governo Dilma, por serem propostas ortodoxas provocadoras de desemprego. Mas o ajuste virou política oficial, embora com baixo respaldo até mesmo dentro do governo. Enfrenta rejeição nas bases de apoio político, nas centrais sindicais e nos chamados movimentos sociais. E agora, esse panelaço, com tudo o que ele significa.

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