Em defesa do etanol, Lula atacará lobby do petróleo

Presidente vai questionar o fato de terem sido ignorados os aumentos nos preços do petróleo como causa da escalada da inflação mundial

Lisandra Paraguassú, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

16 de abril de 2008 | 00h00

O governo brasileiro decidiu reagir com força total às tentativas recentes de vincular o aumento no preço de alimentos à produção de biocombustíveis. A resposta às críticas começará a ser dada hoje, no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 30ª Conferência Regional da Organização das Nações para Agricultura e Alimentos (FAO, na sigla em inglês), em Brasília. Sem meias-palavras, o presidente se dirá assustado com as tentativas de vinculação da alta dos alimentos aos biocombustíveis. Especialmente, criticará o fato de, até agora, terem sido deixadas de lado as constantes altas do petróleo - insumo essencial para quaisquer transporte de alimentos no mundo - para responsabilizar a produção de combustíveis vegetais.A avaliação no governo é que as críticas ao etanol escondem um lobby da indústria do petróleo e uma tentativa de desqualificar o combustível brasileiro. Até porque o etanol que poderia estar causando algum tipo de inflação - o americano, feito de milho - não é diferente do brasileiro, de cana-de-açúcar. Em seu discurso hoje, o presidente será direto. Acusará os críticos de tentar encontrar respostas simplistas e tentar travestir interesses econômicos maiores em "preocupações sociais". Dirá, ainda, que se impressiona com o fato de nenhum dos críticos dos biocombustíveis ser contra o impacto dos subsídios e protecionismo internacional, especialmente dos países ricos, na produção internacional de alimentos e no conseqüente encarecimento dos produtos. Cobrará ações efetivas, e não paliativos, e lembrará a importância de finalizar as discussões da Rodada Doha para melhorar a produção e distribuição de alimentos. Lula defenderá, como já fez antes, que a inflação dos alimentos está ligada, essencialmente, ao fato de que mais pessoas estão comprando, especialmente nos países em desenvolvimento como Índia, China e Brasil. E se dirá surpreso pelo fato de o aumento de consumo ter provocado críticas de alguns países.O presidente voltará ao tema na próxima reunião da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad, sigla em inglês), da qual participa no próximo fim de semana em Acra, Gana. O encontro da Unctad, assim como o da FAO, que começa hoje, são palcos adequados para a reação. A ONU tem criticado duramente os biocombustíveis, apesar de uma reação inicial favorável das agências que cuidam do meio ambiente. O relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler, a afirmou que a "produção em massa de biocombustíveis é um crime contra a humanidade por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos". Mais recentemente foi o Fundo Monetário Internacional que atribuiu a alta dos alimentos aos biocombustíveis. Nenhum dos órgãos colocou a alta do petróleo como uma das possíveis razões para a inflação internacional. Na sua edição de ontem, o jornal britânico The Independent entrou na briga contra o etanol brasileiro. Em um artigo, o subeditor de assuntos internacionais, Daniel Howden, diz que a produção brasileira de etanol tem criado desmatamento e poluição. "A indústria do etanol no Brasil está ligada à poluição do ar e da água numa escala épica", afirma Howden.

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